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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
ce414709
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
EMBRAPA
Ano
2025
Cargo
Ana ( )
        São dois pinheiros altos, e atrás deles o mar. Na linha do horizonte, as linhas parecem estar boiando, nessa luz indecisa da manhã de inverno.

         O homem lança um olhar apressado à paisagem cheia de vento e de sol, e se volta para o interior do apartamento; precisa providenciar as instalações elétricas; um amigo lhe disse uma coisa horrendamente prosaica, a saber: convém trocar o ralo do chuveiro por um desses que se pode fechar, porque assim é evitado o ingresso de baratas. É preciso pensar nisso; e também onde colocar o telefone; e em providenciar o telefone para ser colocado. (...) O colchão não veio? Mas ficaram de mandar trazer no sábado, sem falta. Ali está a cama nua; ali, homem, em breve tu dormirás, amarás, sonharás, morrerás talvez, quem sabe?

         Assim, dentro do apartamento, só existem problemas; entediado, o homem se volta para a varanda, para o mar. Em alguns minutos, houve um movimento de nuvens e de luz; há manchas verdes, três ou quatro, perto das ilhas que estão mais nítidas; parece que se ergueram um pouco no horizonte. Que planura terrena, que montanha imponente, que paisagem no mundo vale o mar? Não o mar do alto-mar, mas esse mar de costa e ilhas, sempre investindo sobre as pedras e sobre as terras, esse que leva homens e coisas dos homens, que recebe plantas que descem os rios boiando, esse mar humano e vivo, e entretanto batendo aos nossos pés a canção do eterno, chamando para o desconhecido, anunciando ao nosso mundo que este mundo não tem fim.

         Chega o porteiro, diz algumas coisas sobre calafates e ladrilhos, água e contrato. O homem desce lentamente, vai andando, encontra um amigo na esquina, o amigo pergunta se é verdade que ele agora vai morar ali no bairro, em que apartamento. Ele responde qualquer coisa, diz que é um apartamento pequeno, que ainda está arrumando, que não tem habite-se, mas dentro dele, consigo mesmo, ele pensa apenas: são dois pinheiros grandes e, atrás deles, o mar.

Rubem Braga. Dois pinheiros e o mar: e outras crônicas sobre o meio ambiente.
São Paulo: Global, 2017 (com adaptações). 
Em relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto anterior, julgue o item a seguir.   No texto, que se caracteriza como uma crônica, predominam sequências tipológicas narrativas.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Predomínio de sequências tipológicas na crônica de Rubem Braga

Gabarito: letra E (ERRADO). A afirmação de que predominam sequências tipológicas narrativas no texto é incorreta, pois o que predomina é a sequência descritiva, com forte carga subjetiva e reflexiva, enquanto os traços narrativos são secundários e servem de moldura para a descrição e a divagação lírica. Como se lê já na abertura: "São dois pinheiros altos, e atrás deles o mar. Na linha do horizonte, as linhas parecem estar boiando, nessa luz indecisa da manhã de inverno" — um retrato estático, sem progressão de ações, típico da descrição.

O comando e o que ele exige

A questão pede um julgamento Certo/Errado sobre a tipologia predominante. Isso é uma questão de compreensão (o que o texto efetivamente faz) e de conhecimento de tipologia textual (o que caracteriza cada sequência). Não se trata de inferir nada além do texto: basta observar a intenção predominante do autor e os recursos linguísticos usados. O comando "predominam sequências tipológicas narrativas" é uma afirmação categórica — basta encontrar um único trecho que a desminta para marcar ERRADO.

O texto: descrição que emoldura uma reflexão

O texto de Rubem Braga não conta uma história com enredo, conflito e clímax. Ele descreve uma cena — dois pinheiros, o mar, a luz da manhã — e, a partir dela, desenvolve uma reflexão lírica sobre a vida, a morte e a beleza do mar. Veja os elementos:

  • Abertura descritiva: "São dois pinheiros altos, e atrás deles o mar. Na linha do horizonte, as linhas parecem estar boiando, nessa luz indecisa da manhã de inverno." — aqui não há ação, apenas caracterização do cenário.

  • Descrição subjetiva do mar: "Que planura terrena, que montanha imponente, que paisagem no mundo vale o mar? Não o mar do alto-mar, mas esse mar de costa e ilhas, sempre investindo sobre as pedras e sobre as terras, esse que leva homens e coisas dos homens, que recebe plantas que descem os rios boiando, esse mar humano e vivo, e entretanto batendo aos nossos pés a canção do eterno, chamando para o desconhecido, anunciando ao nosso mundo que este mundo não tem fim." — o autor caracteriza o mar com adjetivos e impressões, não narra um fato.

  • Reflexão existencial: "ali, homem, em breve tu dormirás, amarás, sonharás, morrerás talvez, quem sabe?" — é uma divagação, não um acontecimento narrado.

Os únicos traços narrativos são mínimos: "O homem lança um olhar apressado", "Chega o porteiro", "O homem desce lentamente". Mas essas ações são pontuais e servem de pretexto para a descrição e a reflexão. O texto não tem enredo, conflito, clímax ou desfecho — elementos essenciais da narração.

A técnica que decide

Para identificar a tipologia predominante, pergunte: qual é a intenção principal do autor? Se ele quer contar uma história (com personagens, tempo, espaço, sequência de eventos), é narrativo. Se ele quer caracterizar, retratar, pintar com palavras um cenário, uma pessoa ou um objeto, é descritivo. Aqui, a intenção é descrever e refletir, não narrar. O texto é uma crônica, gênero que frequentemente mistura tipos, mas o predomínio é descritivo-reflexivo.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de tipologia, desconfie de afirmações que confundem gênero (crônica, conto, romance) com tipo (narrativo, descritivo, dissertativo). A crônica pode ser narrativa, mas também pode ser descritiva, reflexiva ou argumentativa. Leia o texto e pergunte: "o que o autor está fazendo: contando ou descrevendo?"

Tipologia predominante
  • 1Descrição (predomina)
    • Caracteriza cenário
    • Adjetivos e verbos de estado
    • Tempo estático
    • Reflexão lírica
  • 2Narração (secundária)
    • Ações pontuais
    • Sem enredo/conflito
    • Serve de moldura
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Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C afirma que "predominam sequências tipológicas narrativas". Isso é falso frente ao texto. O texto não apresenta uma sucessão de eventos com enredo, conflito e clímax. As poucas ações (olhar, descer, encontrar um amigo) são secundárias e não estruturam o texto. O que predomina é a descrição do cenário e a reflexão lírica sobre o mar e a vida. A alternativa generaliza indevidamente: pega um traço periférico (a presença de algumas ações) e o transforma em predominante. O erro é de generalização indevida.

Alternativa E — ✅ Correta

A alternativa E nega a afirmação, e está correta. O texto é uma crônica, mas a tipologia predominante é a descritiva, com forte carga subjetiva e reflexiva. A abertura e o terceiro parágrafo são exemplos claros de descrição: o autor caracteriza os pinheiros, o mar, a luz, as ilhas, usando adjetivos e verbos de estado ("são", "parecem", "estão"). Não há progressão temporal significativa; o tempo é quase estático, como numa fotografia. Portanto, a afirmação de que predominam sequências narrativas é incorreta.

Conclusão

A banca explora a confusão entre gênero (crônica, que costuma ter traços narrativos) e tipologia predominante (descrição). Ao marcar ERRADO, você reconhece que o texto de Rubem Braga é essencialmente descritivo-reflexivo, não narrativo. Lembre-se: em tipologia, o que importa é a intenção predominante, não a presença de alguns elementos de outro tipo.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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