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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
ce414711
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
EMBRAPA
Ano
2025
Cargo
Ana ( )
        São dois pinheiros altos, e atrás deles o mar. Na linha do horizonte, as linhas parecem estar boiando, nessa luz indecisa da manhã de inverno.

         O homem lança um olhar apressado à paisagem cheia de vento e de sol, e se volta para o interior do apartamento; precisa providenciar as instalações elétricas; um amigo lhe disse uma coisa horrendamente prosaica, a saber: convém trocar o ralo do chuveiro por um desses que se pode fechar, porque assim é evitado o ingresso de baratas. É preciso pensar nisso; e também onde colocar o telefone; e em providenciar o telefone para ser colocado. (...) O colchão não veio? Mas ficaram de mandar trazer no sábado, sem falta. Ali está a cama nua; ali, homem, em breve tu dormirás, amarás, sonharás, morrerás talvez, quem sabe?

         Assim, dentro do apartamento, só existem problemas; entediado, o homem se volta para a varanda, para o mar. Em alguns minutos, houve um movimento de nuvens e de luz; há manchas verdes, três ou quatro, perto das ilhas que estão mais nítidas; parece que se ergueram um pouco no horizonte. Que planura terrena, que montanha imponente, que paisagem no mundo vale o mar? Não o mar do alto-mar, mas esse mar de costa e ilhas, sempre investindo sobre as pedras e sobre as terras, esse que leva homens e coisas dos homens, que recebe plantas que descem os rios boiando, esse mar humano e vivo, e entretanto batendo aos nossos pés a canção do eterno, chamando para o desconhecido, anunciando ao nosso mundo que este mundo não tem fim.

         Chega o porteiro, diz algumas coisas sobre calafates e ladrilhos, água e contrato. O homem desce lentamente, vai andando, encontra um amigo na esquina, o amigo pergunta se é verdade que ele agora vai morar ali no bairro, em que apartamento. Ele responde qualquer coisa, diz que é um apartamento pequeno, que ainda está arrumando, que não tem habite-se, mas dentro dele, consigo mesmo, ele pensa apenas: são dois pinheiros grandes e, atrás deles, o mar.

Rubem Braga. Dois pinheiros e o mar: e outras crônicas sobre o meio ambiente.
São Paulo: Global, 2017 (com adaptações). 
Em relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto anterior, julgue o item a seguir.   No último período do segundo parágrafo, as formas verbais empregadas no segmento “em breve tu dormirás, amarás, sonharás, morrerás talvez” estão flexionadas em modo verbal que denota ideia de incerteza, reforçada pelo emprego de “talvez”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Modo verbal e o valor de “talvez” no trecho de Rubem Braga

Gabarito: letra E (ERRADO). A afirmação está incorreta porque as formas verbais “dormirás, amarás, sonharás, morrerás” estão flexionadas no modo indicativo (futuro do presente), que denota certeza, fato, probabilidade — e não no modo subjuntivo, que é o modo da dúvida e da incerteza. O advérbio “talvez” realmente reforça a ideia de incerteza, mas isso não muda o modo verbal: o modo é uma propriedade morfológica do verbo, não o efeito de sentido produzido por um adjunto adverbial. A banca mistura plano semântico (o que a frase expressa) com plano morfológico (a flexão do verbo).

O comando da questão

O enunciado pede para julgar (certo/errado) uma afirmação sobre aspectos linguísticos do texto. A tarefa é de análise gramatical — especificamente, reconhecer o modo verbal das formas destacadas e avaliar se o advérbio “talvez” tem relação com esse modo. Não se trata de interpretação de sentido global, mas de conhecimento metalinguístico aplicado ao trecho. Por isso, a resposta não depende do conteúdo do texto, mas da classificação morfológica das formas verbais.

O trecho em análise

“Ali está a cama nua; ali, homem, em breve tu dormirás, amarás, sonharás, morrerás talvez, quem sabe?”

As formas dormirás, amarás, sonharás, morrerás são todas do futuro do presente do indicativo, 2ª pessoa do singular. O modo indicativo é o modo da certeza, da realidade, do fato — mesmo quando o fato é futuro e incerto, como aqui. O advérbio “talvez” introduz a dúvida, mas isso é um recurso semântico, não uma flexão de modo. Se o autor quisesse expressar dúvida pelo modo verbal, teria usado o subjuntivo (ex.: “talvez durmas, ames, sonhes, morras”).

A técnica que decide

Para resolver questões desse tipo, separe dois planos:

  • Plano morfológico: o modo verbal é uma categoria gramatical marcada na desinência do verbo. No trecho, as desinências -ás indicam futuro do presente do indicativo.

  • Plano semântico: a dúvida pode ser expressa por outros recursos, como o advérbio “talvez”, o modo subjuntivo, ou até o contexto. Mas a presença de “talvez” não altera a flexão do verbo.

A pegadinha da banca é exatamente essa: o candidato vê “talvez” e associa automaticamente a “subjuntivo”, esquecendo que o modo é uma propriedade do verbo, não do advérbio. O modo subjuntivo teria formas como “durmas”, “ames”, “sonhes”, “morras” — que não aparecem no texto.

Por que a afirmação está errada

A afirmação diz que as formas verbais “estão flexionadas em modo verbal que denota ideia de incerteza”. Isso é falso por dois motivos:

  1. O modo é indicativo, não subjuntivo. O indicativo denota certeza, fato, realidade — mesmo que o fato seja futuro e hipotético.

  2. A incerteza é expressa pelo advérbio “talvez”, não pelo modo verbal. O modo indicativo não “denota incerteza”; ele denota certeza. A incerteza é um efeito de sentido criado pelo advérbio, que poderia ser retirado sem alterar a flexão verbal.

Portanto, a afirmação contradiz a classificação morfológica das formas verbais. O item é ERRADO.

Conclusão

A questão ensina uma distinção fundamental: modo verbal é uma categoria morfológica (indicativo, subjuntivo, imperativo), enquanto dúvida/incerteza é um valor semântico que pode ser expresso por vários recursos. Não confunda o efeito de sentido com a flexão. Sempre que a banca misturar “talvez” com “modo subjuntivo”, desconfie: o advérbio não muda o modo do verbo.

Modo verbal × valor semântico
  • 1Plano morfológico
    • Indicativo = certeza, fato
    • Subjuntivo = dúvida, incerteza
  • 2Plano semântico
    • "Talvez" = incerteza
    • Não altera a flexão do verbo
  • 3No trecho
    • "dormirás, amarás, sonharás, morrerás"
    • Futuro do presente do indicativo
    • Não denota incerteza pelo modo
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Gabarito: letra E (ERRADO).

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