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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414731
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UNIVESP
Ano
2025
Cargo
Sup Ped ( )

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência. (...)

 

Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

 

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial.

 

Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

 

— Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

 

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil... Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, uma conjetura, ao menos.

 

— Nem conjetura, nem opinião, redarguiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

 

— Duas?

 

— Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.

 

E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei.

 

Eis aqui como ele começou a narração:

 

— Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Vai, então, uma das minhas tias, D. Marcolina, que morava a muitas léguas da vila, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes... Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas se via nele ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

 

O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias, as duas naturezas equilibraramse; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu, então, que a alma exterior mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.

 

Machado de Assis. O espelho. Esboço de uma nova teoria da alma humana. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 (com adaptações). FimDoTexto

Texto 8A1-I   Assinale a opção em que o grupo nominal destacado do texto 8A1-I evidencia a crítica ao egoísmo humano e à busca por aprovação social.
  1. A“a primitiva” (terceiro período do último parágrafo)
  2. B“alma exterior” (terceiro e quinto períodos do nono parágrafo e penúltimo período do último parágrafo)
  3. C“coisas metafísicas” (segundo parágrafo)
  4. D“os mais árduos problemas do universo” (segundo parágrafo)
  5. E“este casmurro” (sexto parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — “alma exterior” (terceiro e quinto períodos do nono parágrafo e penúltimo período do último parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A crítica ao egoísmo e à busca por aprovação social em "O Espelho"

Gabarito: letra B. O grupo nominal "alma exterior" é o único que, no conto, materializa a crítica ao egoísmo humano e à busca por aprovação social, pois representa a identidade que o indivíduo constrói a partir do olhar e do reconhecimento dos outros. Como se lê no nono parágrafo: "A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação" — e, no último parágrafo, a transformação do alferes: "a alma exterior mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem". É essa dependência do reconhecimento externo que o narrador critica, mostrando como o homem se anula quando vive apenas para a aprovação alheia.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique qual grupo nominal evidencia a crítica ao egoísmo humano e à busca por aprovação social. Isso é uma tarefa de interpretação: não basta localizar a expressão; é preciso compreender o papel semântico que ela desempenha na construção do sentido crítico do conto. A banca não pergunta "o que significa", mas "o que evidencia" — ou seja, qual termo carrega, em si, a carga crítica que o autor desenvolve ao longo da narrativa.

O texto e a tese

O conto "O Espelho", de Machado de Assis, apresenta a teoria das duas almas: uma interior (que olha de dentro para fora) e uma exterior (que olha de fora para dentro). A alma exterior é aquela que depende do reconhecimento social, dos elogios, das honrarias. No episódio narrado, o alferes Jacobina, ao ser tratado com "carinhos, atenções, obséquios" pela tia, deixa que a alma exterior — a do posto, da farda, dos rapapés — domine completamente a sua existência: "O alferes eliminou o homem". A crítica está exatamente aí: o ser humano, movido pelo egoísmo e pela vaidade, submete-se à aprovação dos outros, perdendo a própria essência.

A técnica que decide

Para resolver, você deve ancorar cada alternativa no texto, perguntando: "este grupo nominal está ligado à crítica ao egoísmo e à busca por aprovação social?" A expressão "alma exterior" é o conceito central da teoria apresentada, e é ela que explica a transformação do personagem. As demais alternativas ou são elementos periféricos (como "coisas metafísicas") ou não carregam a carga crítica (como "este casmurro", que é apenas uma forma de se referir a Jacobina).

Análise das alternativas

"Alma exterior" (gabarito)
  • 1Conceito central do conto
    • Identidade construída pelo olhar alheio
    • Dependência do reconhecimento social
  • 2Crítica ao egoísmo
    • Homem se anula pela aprovação
    • "O alferes eliminou o homem"
  • 3Materialização no texto
    • "Cortesia e rapapés da casa"
    • "Nada do que me falava do homem"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

O grupo "a primitiva" refere-se à "natureza primitiva" do personagem, ou seja, à sua essência original, que foi suprimida pela alma exterior. No texto: "não tardou que a primitiva cedesse à outra". Essa expressão não evidencia a crítica ao egoísmo; ela apenas nomeia a parte que se perde. Erro: tangencia o tema — fala de algo relacionado, mas não carrega a crítica pedida.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Alma exterior" é o conceito que sintetiza a crítica: a identidade construída a partir do reconhecimento social. No nono parágrafo, o narrador define: "A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação". E no último parágrafo, mostra como ela se torna a "cortesia e os rapapés da casa", ou seja, a busca por aprovação. É exatamente essa dependência que o conto critica, ao mostrar o alferes se anulando: "O alferes eliminou o homem". A alternativa está correta porque o grupo nominal nomeia o mecanismo da crítica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Coisas metafísicas" aparece no segundo parágrafo, referindo-se aos "árduos problemas do universo" que os cavalheiros debatiam. Não há, nessa expressão, qualquer vínculo com a crítica ao egoísmo ou à aprovação social. Erro: fuga ao tema — o termo é apenas o objeto da conversa inicial, sem carga crítica.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Os mais árduos problemas do universo" também pertence ao segundo parágrafo e designa os temas das discussões filosóficas. Não evidencia a crítica pedida. Erro: fuga ao tema — é um elemento do cenário, não um conceito crítico.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Este casmurro" é a forma como o narrador se refere a Jacobina no sexto parágrafo, destacando sua teimosia em não discutir. Não há relação com a crítica ao egoísmo ou à aprovação social. Erro: tangencia o tema — refere-se ao personagem, mas não ao conceito crítico.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o conceito central (alma exterior) e elementos periféricos do texto. Cuidado para não escolher uma expressão que apenas aparece no texto, mas que não carrega a carga crítica.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a crítica em um texto, procure o termo que nomeia o mecanismo da crítica, não apenas um elemento que a ilustra. Aqui, "alma exterior" é o conceito que explica a dependência do reconhecimento social.

Conclusão: a única alternativa que evidencia a crítica ao egoísmo humano e à busca por aprovação social é a letra B, pois "alma exterior" é o conceito que representa a identidade construída a partir do olhar alheio, exatamente o que o conto critica.

Gabarito: letra B

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