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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414736
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UNIVESP
Ano
2025
Cargo
Sup Ped ( )

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência. (...)

 

Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

 

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinquenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial.

 

Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:

 

— Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

 

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil... Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, uma conjetura, ao menos.

 

— Nem conjetura, nem opinião, redarguiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

 

— Duas?

 

— Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira.

 

E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei.

 

Eis aqui como ele começou a narração:

 

— Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Vai, então, uma das minhas tias, D. Marcolina, que morava a muitas léguas da vila, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes... Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas se via nele ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

 

O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias, as duas naturezas equilibraramse; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu, então, que a alma exterior mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado.

 

Machado de Assis. O espelho. Esboço de uma nova teoria da alma humana. In: Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 (com adaptações). FimDoTexto

Texto 8A1-I No texto 8A1-I, a intenção precípua do narrador é
  1. Aexaminar as possibilidades da linguagem.
  2. Bpersuadir e convencer o público leitor.
  3. Cestimular a reflexão dos leitores.
  4. Dexercitar a criatividade.
  5. Ecriar entretenimento.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — exercitar a criatividade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A intenção precípua do narrador em "O espelho"

Gabarito: letra D. A intenção precípua do narrador é exercitar a criatividade, pois ele constrói uma narrativa ficcional para apresentar uma teoria original sobre a alma humana — a teoria das duas almas —, como se lê no trecho em que Jacobina propõe: "posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata". O texto é uma narrativa (conta um caso), não um texto argumentativo, expositivo ou metalinguístico; a criatividade está na invenção da teoria e do episódio que a ilustra.

O comando pede a intenção precípua — ou seja, o objetivo principal que move o narrador ao produzir o texto. Isso não é uma questão de compreensão literal (localizar uma informação), mas de interpretação: é preciso depreender, a partir da estrutura e do conteúdo, qual a finalidade dominante. Em textos narrativos, a intenção costuma ser contar uma história, e é isso que o narrador faz: ele cria um enredo (o episódio do espelho) para sustentar uma tese metafísica. A criatividade é o motor dessa construção.

O texto é um conto de Machado de Assis. O narrador, Jacobina, apresenta-se como um homem que "não discutia nunca" e que, para demonstrar sua teoria sobre as duas almas, recorre a uma narrativa pessoal: "posso contar-lhes um caso de minha vida". Ele não argumenta logicamente, não persuade com raciocínios; ele inventa uma história — a transformação do alferes — que serve de ilustração para sua tese. A intenção criativa é evidente na construção do enredo, na descrição do espelho, na transformação do personagem.

A distinção central é entre narrar e argumentar. O texto argumentativo busca convencer o leitor por meio de tese e argumentos; o narrativo busca contar uma história, ainda que com propósito reflexivo. Aqui, o narrador não tenta convencer os interlocutores com raciocínios — ele oferece um caso, uma história, para "demonstrar" sua teoria. A criatividade está em criar essa história, não em persuadir. As alternativas que falam em "persuadir" ou "convencer" confundem a intenção do narrador com a de um texto dissertativo-argumentativo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre a intenção do narrador (criar uma história para ilustrar uma teoria) e a intenção de persuadir (típica do texto argumentativo). A letra B é a mais sedutora, pois o narrador quer "demonstrar" algo, mas a demonstração é feita por meio de uma narrativa, não de argumentação lógica.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a intenção de um texto, pergunte: "o autor quer convencer, informar, emocionar, ou contar uma história?" A resposta está na tipologia textual predominante. Narrativa = contar; argumentativo = convencer; expositivo = informar.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Examina as possibilidades da linguagem — o texto não tem caráter metalinguístico; não discute a linguagem em si, mas usa a linguagem para contar uma história. A metalinguagem seria um texto que fala sobre a própria língua, o que não ocorre aqui. Erro: tangenciar — foge ao tema central.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Persuadir e convencer o público leitor — embora o narrador queira "demonstrar" sua teoria, ele o faz por meio de uma narrativa, não de argumentação lógica. O texto não é dissertativo-argumentativo; não há tese defendida com argumentos, mas uma história contada. Erro: troca de conceito — confunde narrativa com argumentação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Estimular a reflexão dos leitores — o texto pode, indiretamente, levar à reflexão, mas essa não é a intenção precípua. A intenção principal é contar uma história criativa, não provocar reflexão filosófica. Erro: extrapolação — acrescenta uma finalidade que não é a dominante.

Alternativa D — ✅ Correta

Exercitar a criatividade — o narrador cria uma narrativa ficcional, com personagens, enredo e uma teoria original (as duas almas). A criatividade é evidente na invenção do episódio do espelho e na construção da metáfora da laranja. O texto é um conto, e a intenção de um conto é, antes de tudo, criar uma história. Correta — é a única que se alinha à tipologia narrativa.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Criar entretenimento — embora a narrativa possa entreter, a intenção precípua não é o mero entretenimento, mas a criação de uma história com propósito ilustrativo. O texto tem densidade filosófica, não é apenas diversão. Erro: restrição — reduz o alcance da intenção.

Conclusão: a intenção precípua do narrador é exercitar a criatividade, pois ele constrói uma narrativa ficcional para apresentar sua teoria. As demais alternativas ou confundem a tipologia (argumentação) ou acrescentam finalidades secundárias. Gabarito: letra D.

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