Questão de Português — Outras Questões de Semântica — CESPE / CEBRASPE 2025
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Código
ce414743
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UNIVESP
Ano
2025
Cargo
Sup Ped ( )
Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma; todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, a Europa ficará menor, como se tivesse perdido um promontório, como se fosse o solar de teus amigos ou o teu próprio. A morte de cada homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido. Por isso, não procures saber por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.
John Donne. Meditações. Tradução: Fabio Cyrino. São Paulo: Editora Landmark, 2012 (com adaptações).
Texto 8A2-I No que se refere à noção semântica de acarretamento, assinale a opção correta, considerando a interpretação dos conteúdos das sentenças em um mesmo mundo e a partir de um mesmo referencial temporal.
AAs sentenças Todo homem é uma parte da terra firme e Alec Marantz é homem acarretam, juntas, a sentença Alec Marantz é uma parte da terra firme.
BA sentença A morte de cada homem diminui a mim acarreta a sentença Noam Chomsky é mortal.
CA sentença Nenhum homem é uma ilha acarreta a sentença Morris Halle é homem e a sentença Morris Halle não é uma ilha.
DA sentença Ferdinand de Saussure não é uma ilha acarreta a sentença Nenhum homem é uma ilha.
EAs sentenças David Embick é um pedaço do continente e David Embick é homem acarretam, juntas, a sentença Todo homem é um pedaço do continente.
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GabaritoA — As sentenças Todo homem é uma parte da terra firme e Alec Marantz é homem acarretam, juntas, a sentença Alec Marantz é uma parte da terra firme.
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Acarretamento semântico: a lógica da implicação entre sentenças
Gabarito: letra A. A questão cobra a noção de acarretamento (implicação semântica): uma sentença P acarreta Q se, sempre que P for verdadeira, Q for necessariamente verdadeira. A alternativa A é a única que aplica corretamente essa lógica, pois combina uma premissa universal do texto — "todo homem é uma parte da terra firme" — com a premissa particular "Alec Marantz é homem" para concluir, por dedução lógica, que "Alec Marantz é uma parte da terra firme". As demais alternativas ou invertem a direção da implicação, ou acrescentam informações que o texto não autoriza, ou confundem acarretamento com pressuposição.
O comando pede que você identifique a opção que descreve corretamente uma relação de acarretamento entre sentenças, considerando a interpretação dos conteúdos em um mesmo mundo e a partir de um mesmo referencial temporal. Isso significa que você deve testar cada alternativa como um argumento lógico: a conclusão (a sentença acarretada) precisa ser uma consequência necessária das premissas (as sentenças que acarretam). Não basta que a conclusão seja plausível ou verdadeira no mundo real — ela precisa ser logicamente obrigatória a partir das premissas dadas.
O texto-base de John Donne estabelece uma relação de inclusão de classes: "todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme". Essa é uma sentença universal afirmativa (Todo A é B), que serve de premissa maior para um silogismo. A alternativa A usa exatamente essa estrutura: se todo homem é parte da terra firme, e Alec Marantz é um homem, então Alec Marantz é parte da terra firme. É a aplicação clássica do modus ponens com quantificador universal — a conclusão é logicamente necessária.
A técnica para resolver é testar cada alternativa perguntando: "a conclusão é obrigatória dadas as premissas, ou ela poderia ser falsa mesmo com as premissas verdadeiras?" Se a conclusão pode ser falsa com as premissas verdadeiras, não há acarretamento. Vamos aplicar isso a cada alternativa.
Acarretamento semântico
1Definição
P acarreta Q se Q é obrigatória
Conclusão não pode ser falsa
2Direção da implicação
Universal → particular (válido)
Particular → universal (inválido)
3Confusões comuns
Pressuposição (implícito na estrutura)
Extrapolação (acrescenta premissa)
4Teste prático
Conclusão é obrigatória?
Precisa acrescentar informação?
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que as sentenças "Todo homem é uma parte da terra firme" e "Alec Marantz é homem" acarretam, juntas, a sentença "Alec Marantz é uma parte da terra firme". Isso é um silogismo válido:
"todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme"
Se todo homem tem a propriedade de ser parte da terra firme, e Alec Marantz pertence à classe dos homens, então Alec Marantz necessariamente tem essa propriedade. A conclusão não pode ser falsa se as premissas forem verdadeiras. É a definição exata de acarretamento.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que "A morte de cada homem diminui a mim" acarreta "Noam Chomsky é mortal". O texto diz:
"A morte de cada homem diminui a mim, porque na humanidade me encontro envolvido"
A sentença "a morte de cada homem diminui a mim" pressupõe que todos os homens são mortais (só morre quem é mortal), mas não acarreta que um indivíduo específico, Noam Chomsky, seja mortal. Para acarretar, seria necessário que o texto afirmasse que Noam Chomsky é homem — o que não ocorre. A alternativa extrapola: acrescenta a premissa "Noam Chomsky é homem" que não está no texto, e confunde pressuposição (o que está implícito na estrutura) com acarretamento (o que é logicamente deduzido).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C afirma que "Nenhum homem é uma ilha" acarreta "Morris Halle é homem" e "Morris Halle não é uma ilha". O texto diz:
"Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma"
A sentença universal negativa "Nenhum homem é uma ilha" (Nenhum A é B) não acarreta que um indivíduo específico, Morris Halle, seja homem. Ela apenas afirma que, se algo é homem, então não é ilha. A conclusão "Morris Halle é homem" é uma extrapolação — o texto não fornece essa informação. A alternativa inverte a direção da implicação: em vez de deduzir a propriedade a partir da classe, ela tenta deduzir a pertença à classe a partir da propriedade, o que é logicamente inválido.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que "Ferdinand de Saussure não é uma ilha" acarreta "Nenhum homem é uma ilha". Isso é um erro clássico de generalização indevida: de um caso particular (Saussure não é ilha) não se pode concluir uma sentença universal (nenhum homem é ilha). O texto não afirma que Saussure é homem, e mesmo que afirmasse, a não-ilha de um indivíduo não implica a não-ilha de todos. A alternativa inverte a direção da implicação: a sentença universal acarreta a particular, mas a particular não acarreta a universal.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa E afirma que "David Embick é um pedaço do continente" e "David Embick é homem" acarretam, juntas, "Todo homem é um pedaço do continente". O texto diz:
"todo homem é um pedaço do continente, uma parte da terra firme"
Aqui, a premissa universal já está dada no texto. A alternativa E inverte a direção da implicação: de dois casos particulares (David Embick é homem e é pedaço do continente) não se pode concluir a sentença universal "todo homem é pedaço do continente". A generalização de um caso particular para a totalidade é uma extrapolação lógica inválida. O acarretamento correto seria o contrário: da universal, deduz-se o particular.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a direção da implicação (universal → particular é válido; particular → universal não é) e entre acarretamento (dedução lógica) e pressuposição (informação implícita na estrutura). As alternativas B, C, D e E todas invertem ou extrapolam a relação lógica.
PEGA ESSA DICA!
Ao testar acarretamento, pergunte-se: "a conclusão é obrigatória dadas as premissas?" Se você precisar acrescentar qualquer informação que não está nas premissas, não há acarretamento. Desconfie de alternativas que generalizam de casos particulares ou que deduzem a pertença a uma classe a partir de uma propriedade.
Gabarito: letra A — a única que aplica corretamente a lógica do silogismo: da premissa universal "todo homem é parte da terra firme" e da premissa particular "Alec Marantz é homem", conclui-se necessariamente "Alec Marantz é parte da terra firme".