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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414784
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PF
Ano
2025
Cargo
Adm ( )

“A liberdade medieval”, disse o historiador Lord Acton, “difere da moderna nisto: a primeira depende de propriedade”. Mas a diferença é certamente uma diferença apenas em grau, não em espécie. O dinheiro pode ter menos influência num tribunal moderno do que num tribunal medieval. Mas e fora do tribunal? Fora, é verdade, estou legalmente livre para trabalhar ou não trabalhar, como eu bem escolher, porque não sou um servo. Estou legalmente livre para viver aqui em vez de lá, porque não estou preso à terra. Eu sou livre, dentro de limites razoáveis, para me divertir como eu bem quiser. Estou legalmente livre para casar-me com qualquer pessoa; nenhum lorde me obriga a casar-me com uma garota ou viúva da mansão senhorial. A lista de todas as minhas liberdades legais ocuparia páginas e mais páginas datilografadas. Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora.

 

Mas vejamos o que acontece se eu tento fazer uso da minha liberdade legal. Não sendo um servo, eu resolvo parar de trabalhar; como resultado, começo a passar fome na próxima segunda-feira. Não sendo ligado à terra, eu opto por viver em Grosvenor Square e Taormina; infelizmente, o aluguel da minha casa em Londres equivale ao quíntuplo da minha renda anual. Não sendo submetido às perseguições de intrometidos eclesiásticos, eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar; mas não tenho roupas adequadas, e acabo gastando mais no entretenimento da minha noite do que consigo ganhar em uma semana.

 

Todas as minhas liberdades legais acabam sendo, na prática, tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais. Os ricos podem comprar vastas quantidades de liberdade; os pobres precisam se virar sem ela, muito embora, por lei e teoricamente, eles tenham tanto direito à mesma quantidade de liberdade quanto têm os ricos.

 

Aldous Huxley. Apontamentos sobre a liberdade e as fronteiras da terra prometida.
In: Música na noite e outros ensaios. Tradução: Rodrigo Breunig.
Porto Alegre: L&PM Pocket, 2014 (com adaptações).

Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.   A ideia principal do texto, cujo autor defende que a liberdade moderna é mais ampla que a medieval, pode ser sintetizada na afirmação “Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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A tese do texto: liberdade moderna × liberdade medieval

Gabarito: ERRADO. O item inverte a tese do texto: o autor não defende que a liberdade moderna é mais ampla que a medieval; ao contrário, ele argumenta que, na prática, a liberdade moderna depende de propriedade tanto quanto a medieval. A frase citada — “Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora” — é uma ironia do autor, que logo em seguida mostra como essa liberdade é ilusória sem dinheiro.

O comando

A questão pede que você julgue se a ideia principal do texto é a de que a liberdade moderna é mais ampla que a medieval, sintetizada na frase final do primeiro parágrafo. Isso é uma questão de compreensão (o que o texto afirma), não de inferência. Você precisa identificar a tese — a posição central defendida pelo autor — e verificar se a afirmação do item corresponde a ela.

O texto: tema e tese

O texto de Aldous Huxley discute a relação entre liberdade e propriedade. No primeiro parágrafo, o autor apresenta a liberdade legal moderna (trabalhar ou não, morar onde quiser, casar-se com quem quiser) e conclui ironicamente: “Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora”.

No segundo parágrafo, porém, ele mostra o que acontece quando tenta usar essa liberdade: sem dinheiro, não pode parar de trabalhar, não pode morar em Grosvenor Square, não pode levar uma jovem ao Savoy. Ou seja, a liberdade legal é vazia sem propriedade.

No terceiro parágrafo, ele explicita a tese:

“Todas as minhas liberdades legais acabam sendo, na prática, tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais.”

Essa é a ideia principal: a liberdade moderna não é mais ampla que a medieval; ela é igualmente dependente de propriedade. A frase citada no item é uma ironia — o autor a usa para, em seguida, desmontá-la.

A técnica: identificar a tese

A tese de um texto dissertativo-argumentativo costuma aparecer na introdução ou na conclusão. Aqui, a tese está no terceiro parágrafo, na frase citada acima. O primeiro parágrafo apresenta uma ideia contrária (a liberdade legal ampla) que o autor refuta nos parágrafos seguintes. Portanto, a ideia principal não é a da liberdade mais ampla, mas sim a da dependência da propriedade.

1Liberdade moderna
Legal (ampla)
Na prática: vazia sem propriedade
2Liberdade medieval
Dependente de propriedade
3Conclusão do autor
Liberdade moderna = tão dependente quanto a medieval
Não é mais ampla
4Frase citada
Ironia
Não é defesa literal
Tese do texto
LEVELsoulevel.com.br
Tese do texto: Liberdade moderna (Legal (ampla), Na prática: vazia sem propriedade); Liberdade medieval (Dependente de propriedade); Conclusão do autor (Liberdade moderna = tão dependente quanto a medieval, Não é mais ampla); Frase citada (Ironia, Não é defesa literal)

Análise do item

O item afirma que o autor defende que a liberdade moderna é mais ampla que a medieval. Isso contradiz o texto. O autor diz exatamente o oposto: a liberdade moderna é tão dependente de propriedade quanto a medieval. A frase citada é irônica, não uma defesa literal.

Conclusão

O item está ERRADO porque inverte a tese do texto. A ideia principal é a dependência da propriedade, não a ampliação da liberdade. A frase “Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora” é uma ironia que o autor usa para, em seguida, mostrar sua falsidade.

Gabarito: ERRADO.

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