“A liberdade medieval”, disse o historiador Lord Acton, “difere da moderna nisto: a primeira depende de propriedade”. Mas a diferença é certamente uma diferença apenas em grau, não em espécie. O dinheiro pode ter menos influência num tribunal moderno do que num tribunal medieval. Mas e fora do tribunal? Fora, é verdade, estou legalmente livre para trabalhar ou não trabalhar, como eu bem escolher, porque não sou um servo. Estou legalmente livre para viver aqui em vez de lá, porque não estou preso à terra. Eu sou livre, dentro de limites razoáveis, para me divertir como eu bem quiser. Estou legalmente livre para casar-me com qualquer pessoa; nenhum lorde me obriga a casar-me com uma garota ou viúva da mansão senhorial. A lista de todas as minhas liberdades legais ocuparia páginas e mais páginas datilografadas. Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora.
Mas vejamos o que acontece se eu tento fazer uso da minha liberdade legal. Não sendo um servo, eu resolvo parar de trabalhar; como resultado, começo a passar fome na próxima segunda-feira. Não sendo ligado à terra, eu opto por viver em Grosvenor Square e Taormina; infelizmente, o aluguel da minha casa em Londres equivale ao quíntuplo da minha renda anual. Não sendo submetido às perseguições de intrometidos eclesiásticos, eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar; mas não tenho roupas adequadas, e acabo gastando mais no entretenimento da minha noite do que consigo ganhar em uma semana.
Todas as minhas liberdades legais acabam sendo, na prática, tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais. Os ricos podem comprar vastas quantidades de liberdade; os pobres precisam se virar sem ela, muito embora, por lei e teoricamente, eles tenham tanto direito à mesma quantidade de liberdade quanto têm os ricos.
Aldous Huxley. Apontamentos sobre a liberdade e as fronteiras da terra prometida.
In: Música na noite e outros ensaios. Tradução: Rodrigo Breunig.
Porto Alegre: L&PM Pocket, 2014 (com adaptações).
Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir. No parágrafo, as orações “Não sendo um servo” (segundo período), “Não sendo ligado à terra” (terceiro período) e “Não sendo submetido às perseguições de intrometidos eclesiásticos” (quarto período) expressam circunstância de concessão nos respectivos períodos em que aparecem.
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Orações reduzidas de gerúndio: causa, não concessão
Gabarito: letra E (ERRADO). As orações “Não sendo um servo”, “Não sendo ligado à terra” e “Não sendo submetido às perseguições de intrometidos eclesiásticos” expressam circunstância de causa, não de concessão. A pista decisiva está na relação lógica com a oração principal: cada uma delas apresenta o motivo que explica o fato seguinte, e não uma objeção que deveria impedi-lo. Como se lê no segundo parágrafo: “Não sendo um servo, eu resolvo parar de trabalhar; como resultado, começo a passar fome na próxima segunda-feira” — o “não ser servo” é a causa de poder parar de trabalhar, e não uma concessão.
O comando
A questão pede que você julgue se as orações reduzidas de gerúndio expressam concessão. Isso é uma tarefa de análise sintático-semântica: não basta saber que são orações reduzidas; é preciso identificar qual circunstância elas instauram no período. A banca mistura dois conceitos que costumam confundir: causa e concessão. A causa explica o porquê; a concessão admite uma objeção que não impede o fato. Aqui, o gerúndio “sendo” + “não” indica o motivo — logo, causa.
O texto
O autor argumenta que a liberdade moderna, embora legalmente ampla, na prática depende de propriedade tanto quanto a medieval. No segundo parágrafo, ele testa suas liberdades legais e mostra que todas esbarram na falta de dinheiro. As três orações citadas são a justificativa de cada tentativa: “não sendo servo” → posso parar de trabalhar; “não sendo ligado à terra” → posso escolher onde morar; “não sendo submetido a perseguições” → posso levar alguém ao hotel. A relação é de causa e efeito, não de oposição.
A técnica que decide
Para distinguir causa de concessão, pergunte: a oração subordinada apresenta o motivo do fato, ou apresenta uma objeção que não o impede?
Causa: “Não fui à festa porque estava doente.” → estar doente é o motivo de não ir.
Concessão: “Embora estivesse doente, fui à festa.” → estar doente é uma objeção, mas mesmo assim fui.
No texto, “não sendo servo” é o motivo de “resolvo parar de trabalhar”. Não há quebra de expectativa: se não sou servo, é esperado que eu possa parar. A concessão exigiria algo como “embora não seja servo, não posso parar de trabalhar” — o que inverteria a lógica. Portanto, as orações são causais.
“Não sendo um servo, eu resolvo parar de trabalhar; como resultado, começo a passar fome na próxima segunda-feira.”
O trecho mostra que a oração reduzida explica por que o autor pode parar de trabalhar. A expressão “como resultado” reforça a relação de causa e consequência.
Orações reduzidas de gerúndio: Causa ("porque" (motivo), Ex.: Não sendo servo, posso parar); Concessão ("embora" (objeção), Ex.: Embora doente, fui à festa); Teste de troca (Coube "porque" → causa, Coube "embora" → concessão)
Alternativa C — ❌ Incorreta
A afirmativa de que as orações expressam concessão está errada. A concessão exige uma relação de contrariedade entre a subordinada e a principal, como em “embora chova, saio”. No texto, não há contrariedade: “não sendo servo” é a causa que possibilita a ação. A banca tenta confundir o candidato porque tanto a causa quanto a concessão podem ser expressas por orações reduzidas de gerúndio, mas o valor semântico é diferente. Aqui, a relação é de causa e efeito, não de oposição.
Alternativa E — ✅ Correta (GABARITO)
A afirmativa está errada, pois as orações expressam causa, não concessão. A banca pede para julgar a afirmação; como ela é falsa, o gabarito é ERRADO. A prova está na relação lógica: cada oração reduzida apresenta o motivo da ação principal. Veja:
“Não sendo um servo” → causa de “resolvo parar de trabalhar”.
“Não sendo ligado à terra” → causa de “opto por viver em Grosvenor Square”.
“Não sendo submetido às perseguições” → causa de “decido levar uma jovem ao hotel”.
Não há nenhuma ideia de “apesar de” — pelo contrário, há “porque”. Portanto, a classificação correta é causal.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar orações reduzidas de gerúndio, teste a troca por uma conjunção: se couber “porque”, é causa; se couber “embora”, é concessão. No texto, “porque não sou servo” funciona perfeitamente.
Conclusão: a questão cobra a distinção entre causa e concessão em orações reduzidas. A resposta é ERRADO, pois as orações expressam causa, não concessão. Lembre-se: causa explica o motivo; concessão admite uma objeção. Gabarito: letra E.