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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414786
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PF
Ano
2025
Cargo
Adm ( )

“A liberdade medieval”, disse o historiador Lord Acton, “difere da moderna nisto: a primeira depende de propriedade”. Mas a diferença é certamente uma diferença apenas em grau, não em espécie. O dinheiro pode ter menos influência num tribunal moderno do que num tribunal medieval. Mas e fora do tribunal? Fora, é verdade, estou legalmente livre para trabalhar ou não trabalhar, como eu bem escolher, porque não sou um servo. Estou legalmente livre para viver aqui em vez de lá, porque não estou preso à terra. Eu sou livre, dentro de limites razoáveis, para me divertir como eu bem quiser. Estou legalmente livre para casar-me com qualquer pessoa; nenhum lorde me obriga a casar-me com uma garota ou viúva da mansão senhorial. A lista de todas as minhas liberdades legais ocuparia páginas e mais páginas datilografadas. Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora.

 

Mas vejamos o que acontece se eu tento fazer uso da minha liberdade legal. Não sendo um servo, eu resolvo parar de trabalhar; como resultado, começo a passar fome na próxima segunda-feira. Não sendo ligado à terra, eu opto por viver em Grosvenor Square e Taormina; infelizmente, o aluguel da minha casa em Londres equivale ao quíntuplo da minha renda anual. Não sendo submetido às perseguições de intrometidos eclesiásticos, eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar; mas não tenho roupas adequadas, e acabo gastando mais no entretenimento da minha noite do que consigo ganhar em uma semana.

 

Todas as minhas liberdades legais acabam sendo, na prática, tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais. Os ricos podem comprar vastas quantidades de liberdade; os pobres precisam se virar sem ela, muito embora, por lei e teoricamente, eles tenham tanto direito à mesma quantidade de liberdade quanto têm os ricos.

 

Aldous Huxley. Apontamentos sobre a liberdade e as fronteiras da terra prometida.
In: Música na noite e outros ensaios. Tradução: Rodrigo Breunig.
Porto Alegre: L&PM Pocket, 2014 (com adaptações).

Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.   No segundo período do parágrafo, o emprego do vocábulo “certamente” evidencia que o autor do texto concorda com a opinião do historiador Lord Acton reproduzida no primeiro período, considerando-a indubitável.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor de “certamente” no segundo período

Gabarito: ERRADO. O vocábulo “certamente” não evidencia concordância com a opinião de Lord Acton; ao contrário, ele introduz uma ressalva do autor, que discorda da afirmação do historiador. A prova está na sequência do texto: o autor afirma que a diferença é “apenas em grau, não em espécie”, e desenvolve a tese de que a liberdade moderna também depende de propriedade, como a medieval.

O comando pede uma interpretação do valor semântico do advérbio “certamente” no contexto. Não se trata de localizar uma informação explícita, mas de inferir a intenção do autor ao empregar essa palavra. A banca explora a armadilha de tomar o sentido literal do advérbio (certeza) como concordância, ignorando o movimento argumentativo do parágrafo.

No texto, o autor cita Lord Acton e, em seguida, escreve:

“Mas a diferença é certamente uma diferença apenas em grau, não em espécie.”

A conjunção “Mas” já sinaliza oposição à ideia anterior. O autor não diz que concorda com Acton; ele diz que a diferença é de grau, não de espécie — ou seja, discorda da tese de que a liberdade medieval depende de propriedade e a moderna não. O “certamente” aqui tem valor concessivo: o autor reconhece que pode haver diferença, mas a minimiza. Tanto que, no parágrafo seguinte, ele mostra que as liberdades legais modernas também dependem de propriedade:

“Todas as minhas liberdades legais acabam sendo, na prática, tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais.”

Portanto, o autor não considera a opinião de Acton indubitável; ele a contesta. O advérbio “certamente” é usado para introduzir uma ressalva, não para reafirmar a citação.

  1. 1Citação de Lord Acton
  2. 2Conjunção 'Mas' (oposição)
  3. 3Ressalva do autor
  4. 4Refutação da tese
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Análise do item

ERRADO

A afirmação de que “certamente” evidencia concordância com Lord Acton é falsa. O texto mostra o contrário: o autor discorda da tese de Acton, como se vê na passagem:

“Mas a diferença é certamente uma diferença apenas em grau, não em espécie.”

O “Mas” inicial já estabelece oposição. O autor não diz que a liberdade moderna independe de propriedade; ele diz que a diferença é de grau, e depois comprova que a liberdade moderna também depende de propriedade. Assim, o “certamente” não marca concordância, mas sim uma concessão que antecede a refutação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de sentido do advérbio: em vez de “certeza”, ele tem valor concessivo no contexto. O candidato que lê apenas a palavra isolada cai na armadilha.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o valor de um advérbio, observe o conectivo que o acompanha (aqui, “Mas”) e a tese do parágrafo. O autor não cita Acton para concordar, mas para refutar.

Conclusão: o item está ERRADO, pois o autor não concorda com Lord Acton; ele usa “certamente” para introduzir uma ressalva e defender a tese de que a liberdade moderna também depende de propriedade.

Gabarito: ERRADO.

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