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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414789
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
PF
Ano
2025
Cargo
Adm ( )

“A liberdade medieval”, disse o historiador Lord Acton, “difere da moderna nisto: a primeira depende de propriedade”. Mas a diferença é certamente uma diferença apenas em grau, não em espécie. O dinheiro pode ter menos influência num tribunal moderno do que num tribunal medieval. Mas e fora do tribunal? Fora, é verdade, estou legalmente livre para trabalhar ou não trabalhar, como eu bem escolher, porque não sou um servo. Estou legalmente livre para viver aqui em vez de lá, porque não estou preso à terra. Eu sou livre, dentro de limites razoáveis, para me divertir como eu bem quiser. Estou legalmente livre para casar-me com qualquer pessoa; nenhum lorde me obriga a casar-me com uma garota ou viúva da mansão senhorial. A lista de todas as minhas liberdades legais ocuparia páginas e mais páginas datilografadas. Ninguém, em toda a história, foi tão livre quanto eu sou agora.

 

Mas vejamos o que acontece se eu tento fazer uso da minha liberdade legal. Não sendo um servo, eu resolvo parar de trabalhar; como resultado, começo a passar fome na próxima segunda-feira. Não sendo ligado à terra, eu opto por viver em Grosvenor Square e Taormina; infelizmente, o aluguel da minha casa em Londres equivale ao quíntuplo da minha renda anual. Não sendo submetido às perseguições de intrometidos eclesiásticos, eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar; mas não tenho roupas adequadas, e acabo gastando mais no entretenimento da minha noite do que consigo ganhar em uma semana.

 

Todas as minhas liberdades legais acabam sendo, na prática, tão estreitamente dependentes de propriedade como eram as liberdades dos meus antepassados medievais. Os ricos podem comprar vastas quantidades de liberdade; os pobres precisam se virar sem ela, muito embora, por lei e teoricamente, eles tenham tanto direito à mesma quantidade de liberdade quanto têm os ricos.

 

Aldous Huxley. Apontamentos sobre a liberdade e as fronteiras da terra prometida.
In: Música na noite e outros ensaios. Tradução: Rodrigo Breunig.
Porto Alegre: L&PM Pocket, 2014 (com adaptações).

Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item a seguir.   Ao empregar a primeira pessoa do plural em “desfrutarmos” (último período do parágrafo), o autor se aproxima do leitor do texto, incluindo-o, ainda que de modo indireto, na ação expressa por esse vocábulo.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A 1ª pessoa do plural em “desfrutarmos” — inclusão do leitor ou plural de modéstia?

Gabarito: ERRADO. O emprego de “desfrutarmos” (1ª pessoa do plural do infinitivo pessoal) não aproxima o autor do leitor nem o inclui na ação; no contexto, o “nós” refere-se apenas ao próprio autor, em um uso conhecido como plural de modéstia (ou plural autoral). A passagem que prova isso está no 2º parágrafo: “eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar” — o sujeito da decisão é “eu”, e o “desfrutarmos” retoma esse mesmo “eu”, não um “nós” que abarque o leitor.

O comando: o que a banca pede

A questão é de compreensão (o que o texto afirma) combinada com análise linguística: o candidato deve avaliar se a afirmação sobre o efeito de sentido da forma verbal “desfrutarmos” está correta. Não se trata de inferir algo implícito, mas de verificar se a interpretação proposta se sustenta no texto. O verbo do enunciado é “julgar” — ou seja, decidir se a assertiva é verdadeira ou falsa frente ao texto.

O texto: o movimento argumentativo

O autor (Aldous Huxley) argumenta que a liberdade moderna, embora legalmente ampla, na prática depende tanto de propriedade quanto a medieval. No 2º parágrafo, ele ilustra isso com exemplos pessoais: “eu resolvo parar de trabalhar”, “eu opto por viver em Grosvenor Square”, “eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar”. Note que todos os verbos estão na 1ª pessoa do singular (“eu”), e o “desfrutarmos” aparece dentro de uma oração reduzida de infinitivo cujo sujeito é o mesmo “eu” — o autor fala de si mesmo, não de um grupo que inclua o leitor.

A técnica: o que é o plural de modéstia

Em português, a 1ª pessoa do plural (“nós”) pode ter vários usos:

  • Plural inclusivo: inclui o interlocutor (“Vamos ao cinema?” — eu e você).

  • Plural de modéstia: usado pelo autor para se referir a si mesmo, comum em textos acadêmicos e ensaísticos (“Como vimos neste artigo...”).

  • Plural generalizante: refere-se a pessoas em geral (“Todos nós queremos ser felizes”).

No trecho, o contexto imediato é decisivo: a frase anterior usa “eu decido”, e o “desfrutarmos” é o infinitivo flexionado que concorda com o sujeito oculto “eu” (ou, se preferir, com o “nós” que representa o próprio autor). Não há nenhum elemento no texto que indique a presença do leitor na ação — o autor está narrando uma hipótese pessoal para ilustrar sua tese. Portanto, a afirmação de que o autor “se aproxima do leitor, incluindo-o” é uma extrapolação: acrescenta uma intenção que o texto não autoriza.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o efeito de sentido de uma forma verbal, volte sempre ao contexto imediato: quem é o sujeito? O pronome “eu” logo antes de “desfrutarmos” é a pista de que o “nós” é apenas o autor.

Análise da assertiva

1Plural inclusivo
Inclui o interlocutor
"Vamos ao cinema?"
2Plural de modéstia
Refere-se ao próprio autor
"Como vimos neste artigo"
3Plural generalizante
Pessoas em geral
"Todos nós queremos ser felizes"
1ª pessoa do plural ("nós")
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1ª pessoa do plural ("nós"): Plural inclusivo (Inclui o interlocutor, "Vamos ao cinema?"); Plural de modéstia (Refere-se ao próprio autor, "Como vimos neste artigo"); Plural generalizante (Pessoas em geral, "Todos nós queremos ser felizes")

Assertiva — ❌ ERRADO

A assertiva afirma que o autor “se aproxima do leitor, incluindo-o, ainda que de modo indireto, na ação expressa por esse vocábulo”. Isso não se confirma no texto. Vejamos:

  • O trecho completo: “eu decido que seria agradável levar uma jovem ao hotel Savoy para desfrutarmos de um jantar”.

  • O sujeito de “decido” é “eu” (1ª pessoa do singular).

  • O infinitivo “desfrutarmos” está flexionado na 1ª pessoa do plural, mas o sujeito lógico é o mesmo “eu” — o autor usa o plural de modéstia, comum em textos ensaísticos.

  • Não há qualquer marca de inclusão do leitor (como “nós, leitores”, “você e eu”, etc.).

Portanto, a assertiva contradiz o que o texto permite afirmar: o autor não inclui o leitor; ele fala de si mesmo. O erro é de extrapolação — atribui ao texto uma intenção comunicativa que não está nele.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o plural inclusivo (que de fato aproxima o leitor) e o plural de modéstia (que não inclui ninguém além do autor). A presença do “eu” na frase vizinha é a chave para desarmar a armadilha.

Conclusão

A resposta é ERRADO, pois o “desfrutarmos” não inclui o leitor; trata-se de um plural de modéstia, referente ao próprio autor. Para questões assim, lembre-se: o efeito de sentido de uma forma verbal só se define pelo contexto — e aqui o contexto manda o “nós” ser apenas o “eu” do autor.

Gabarito: ERRADO.

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