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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414881
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TCU
Ano
2025
Cargo
TEFC ( )

Em pleno momento de grandes transformações político-sociais, na segunda metade da década de 1970, quando já havia inclinações para a volta da democracia, o cantor e compositor Belchior anunciava que “o passado é uma roupa que não nos serve mais”. Os padrões de hoje já nos estabelecem estilos e modelos diversos daqueles que um dia adotamos como referência. Definitivamente, aquele que envergou a vestimenta outrora usada já não é mais a mesma pessoa e qualquer tipo de tentativa de reutilizá-la passará, necessariamente, pela realização de ajustes que se amoldem ao instante presente.

 

Velhos hábitos incorporados à nossa rotina devem, periodicamente, ser revisitados, a fim de que se tornem compatíveis com a realidade e a concretude do presente. Se, antes, a vasta cabeleira podia ser repartida ao meio, dando a quem a ostentava ares despojados e joviais, no tempo atual, para muitos, a escassez capilar obriga a adaptar o penteado. Nada adianta ficar de mal com a superfície que a imagem reflete. De qualquer forma, nada ou ninguém passa incólume pela ação do tempo, sem experimentar transformações de todas as naturezas.

 

Mudar é verbo que se conjuga em perfeita sintonia com viver e, essencialmente, compõe rima exata com adaptar. Ao descrever a teoria da evolução, Charles Darwin assentou que a sobrevivência não é assegurada pelo emprego da força, mas depende de mudanças adaptativas dos seres expostos às transformações constantes (paulatinas ou abruptas) do ambiente que os cerca.

 

O contexto estampado veicula um paradoxo. Se, por um lado, a marcha da mudança é via que não admite retorno, permitindo apenas momentos de variações rítmicas dos passos, mas sem nunca ser contida, por outro, ela aterroriza, chegando quase a paralisar o paciente da mutação. No entanto, não é o medo do escuro que vai impedir que a Terra gire, tampouco fará que a luz solar tome o lugar da noite pouco iluminada.

 

Fábio Túlio Filgueiras Nogueira. O tribunal de contas contemporâneo, o processo de transformação e a pandemia. In: Edilberto Carlos Pontes Lima (coord.). Os tribunais de contas, a pandemia e o futuro do controle. Belo Horizonte: Fórum, 2021, p. 245-254 (com adaptações).

Texto CB1A1

 

Com base nas ideias do texto CB1A1, julgue o item seguinte.

 

Por meio do trecho “mas depende de mudanças adaptativas dos seres expostos às transformações constantes (paulatinas ou abruptas) do ambiente que os cerca” (terceiro parágrafo), o autor demonstra sua discordância parcial em relação à teoria darwinista da evolução.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Discordância parcial em relação à teoria darwinista

Gabarito: ERRADO. O trecho citado não demonstra discordância parcial do autor em relação à teoria de Darwin; ao contrário, o autor a endossa como argumento de autoridade para sustentar sua tese sobre a necessidade de adaptação. A passagem "Ao descrever a teoria da evolução, Charles Darwin assentou que a sobrevivência não é assegurada pelo emprego da força, mas depende de mudanças adaptativas" mostra que o autor concorda com a teoria, usando-a a favor de seu raciocínio, e não que dela discorda.

O comando pede um julgamento sobre a atitude do autor diante da teoria darwinista: se ele demonstra "discordância parcial". Para responder, é preciso distinguir compreensão (o que está explícito) de interpretação (o que se deduz com base em pistas). Aqui, a resposta está explícita: o autor assente com Darwin, não o contesta. A palavra "mas" no trecho não introduz uma objeção do autor à teoria; ela faz parte da própria formulação da teoria por Darwin, conforme relatada pelo autor.

O texto desenvolve a tese de que "Mudar é verbo que se conjuga em perfeita sintonia com viver e, essencialmente, compõe rima exata com adaptar". Para reforçar essa ideia, o autor recorre a Darwin como autoridade:

"Ao descrever a teoria da evolução, Charles Darwin assentou que a sobrevivência não é assegurada pelo emprego da força, mas depende de mudanças adaptativas dos seres expostos às transformações constantes (paulatinas ou abruptas) do ambiente que os cerca."

O verbo "assentou" (afirmou, estabeleceu) e a estrutura "não... mas..." (que opõe a força às mudanças adaptativas) reproduzem o pensamento de Darwin, sem qualquer ressalva do autor. Se houvesse discordância parcial, esperar-se-ia um conectivo de oposição ligado à opinião do autor (ex.: "contudo", "todavia", "no entanto") ou uma crítica explícita à teoria. Nada disso ocorre: o autor concorda e incorpora a teoria ao seu argumento.

A armadilha da banca está em confundir a oposição interna à teoria (força × adaptação) com uma suposta oposição do autor à teoria. O "mas" do trecho é uma conjunção adversativa dentro da fala atribuída a Darwin, não uma ressalva do autor. Quem lê rápido pode achar que o autor está criticando Darwin, mas o texto mostra o contrário: a teoria é usada como fundamento da tese do autor.

Item — ❌ ERRADO

A afirmação de que o autor demonstra "discordância parcial" é falsa por três razões:

  1. O verbo "assentou" indica concordância e adesão, não crítica.

  2. A estrutura argumentativa usa Darwin como apoio (argumento de autoridade), o que seria incoerente se o autor discordasse.

  3. Não há nenhum conectivo de oposição (mas, porém, contudo, todavia) ligado à opinião do autor sobre a teoria; o "mas" pertence à formulação da própria teoria.

A alternativa extrapola o texto: inventa uma discordância que não existe, transformando a citação concordante em crítica. O autor não diz "discordo de Darwin em parte"; ele diz que Darwin "assentou" (afirmou) algo que corrobora sua tese sobre a necessidade de adaptação.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre a atitude do autor, pergunte-se: o texto mostra adesão ou crítica? Procure verbos como "assentou", "afirmou", "defendeu" (adesão) versus "criticou", "contestou", "discordou" (crítica). A presença de um argumento de autoridade (citar Darwin para apoiar a tese) é sinal de concordância, não de discordância.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a troca de referente do conectivo "mas". O "mas" do trecho opõe "força" e "mudanças adaptativas" dentro da teoria de Darwin; a alternativa faz o leitor acreditar que esse "mas" expressa uma oposição do autor à teoria. É uma armadilha clássica de troca de escopo do conectivo.

Conclusão: o item está ERRADO porque o autor concorda com a teoria darwinista, usando-a como argumento de autoridade. A "discordância parcial" é uma extrapolação — o texto não contém nenhuma crítica do autor a Darwin.

Gabarito: ERRADO (E).

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