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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce414977
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

O Uraguai
Basílio da Gama


O irado monstro, em tortuosos giros
Se enrosca no cipreste, e verte envolto
Em negro sangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindoia
O desgraçado irmão, que ao despertá-la
Conhece, com que dor! no frio rosto
Os sinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente sutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga história de seus males.

Nos olhos Caitutu não sofre o pranto,
E rompe em profundíssimos suspiros,
Lendo na testa da fronteira gruta
De sua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte.
E por todas as partes repetido
O suspirado nome de Cacambo.
Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste,
Que os corações mais duros enternece
Tanto era bela no seu rosto a morte!

 O fragmento apresentado pertence ao poema épico O Uraguai (1769), do poeta Basílio da Gama, que narra artisticamente um fato histórico — a resistência indígena na disputa entre jesuítas, portugueses e espanhóis na região de Sete Povos das Missões, no Rio Grande do Sul. No trecho selecionado, é narrada a morte de Lindoia, indígena Guarani, amada de Cacambo. Após o assassinato de Cacambo, para não ser obrigada a casar-se com Baldeta, filho do padre jesuíta Balda, Lindoia decide morrer e se deixa ser picada por uma serpente venenosa antes que seu irmão Caitutu possa evitar a tragédia.


A partir dessas informações, julgue o item seguintes, relacionados ao fragmento apresentado de O Uraguai.


Os versos “Os olhos, em que Amor reinava, um dia, / Cheios de morte; e muda aquela língua / Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes / Contou a larga história de seus males” evidenciam o contraste entre vida e morte identificado no poema.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O contraste vida × morte em O Uraguai

Gabarito: letra C (Certo). Os versos citados evidenciam, sim, o contraste entre vida e morte: o poeta justapõe a lembrança do amor que reinava nos olhos de Lindoia (vida) à realidade da morte que agora os preenche. A passagem que ancora essa leitura é:

"Os olhos, em que Amor reinava, um dia, / Cheios de morte; e muda aquela língua / Que ao surdo vento e aos ecos tantas vezes / Contou a larga história de seus males"

A expressão "um dia" marca o passado de vida; "Cheios de morte" descreve o presente de morte. A antítese é explícita e intencional.

O comando: compreensão e inferência

A questão pede que você julgue se a afirmação está correta. Isso é uma tarefa de compreensão (o que o texto diz) combinada com inferência (o que se deduz legitimamente). Você não precisa buscar nada fora do texto: a resposta está na própria construção dos versos. O verbo "evidenciam" indica que o texto mostra o contraste, não que você precise imaginá-lo.

O texto: a morte de Lindoia

O fragmento narra o momento em que Caitutu encontra a irmã morta, envenenada pela serpente. O poeta descreve o corpo: os olhos que antes refletiam amor agora estão "cheios de morte"; a língua que contava suas dores agora está muda. Há uma oposição deliberada entre o que era (vida, amor, voz) e o que é (morte, silêncio). Essa oposição é a antítese, figura de pensamento que aproxima ideias contrárias para realçar o contraste.

A técnica: identificar a antítese

A antítese é a chave. O texto não diz apenas que Lindoia morreu; ele contrapõe o passado de vida ao presente de morte. Veja os pares:

Passado (vida)

Presente (morte)

"Amor reinava"

"Cheios de morte"

"aquela língua" (que falava)

"muda"

"tantas vezes contou"

silêncio atual

Essa estrutura binária é o que evidencia o contraste. A banca não pede uma interpretação subjetiva; pede que você reconheça o que o texto mostra.

A pegadinha

A banca poderia tentar confundir dizendo que o texto não contrasta, ou que o contraste é apenas implícito. Mas aqui o contraste é explícito: as palavras "um dia" e "Cheios de morte" estão no mesmo verso, lado a lado. Não há ambiguidade.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a aparente contradição entre "Amor reinava" (vida) e "Cheios de morte" (morte) para testar se o candidato percebe que o contraste é exatamente o que o texto evidencia.

Conclusão

A afirmação está correta porque o texto, ao justapor a lembrança do amor ao estado de morte, constrói uma antítese que evidencia o contraste entre vida e morte. Não há extrapolação: tudo está nos versos.

Gabarito: letra C (Certo).

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