Questão de Português — Termos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo — CESPE / CEBRASPE 2025
Português›Termos Acessórios (Adjunto Adnominal, Adjunto Adverbial e Aposto). Vocativo
Código
ce414991
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Se amor não é qual é este sentimento?
Francesco Petrarca
Se amor não é qual é este sentimento?
Mas se é amor, por Deus, que cousa é a tal?
Se boa por que tem ação mortal?
Se má por que é tão doce o seu tormento?
Se eu ardo por querer por que o lamento?
Se sem querer o lamentar que val?
Ó viva morte, ó deleitoso mal,
Tanto podes sem meu consentimento.
E se eu consinto sem razão pranteio.
A tão contrário vento em frágil barca,
Eu vou para o alto mar e sem governo.
É tão grave de error1, de ciência é parca
Que eu mesmo não sei bem o que eu anseio
E tremo em pleno estio e ardo no inverno.
1Refere-se à “barca”.
Leia o texto.
Considerando o poema Se amor não é qual é este sentimento?, assim como suas características literárias, julgue o item abaixo.
É correto concluir do emprego de vocativos na segunda estrofe do poema que o sujeito lírico dirige-se ao próprio sentimento, o qual ele nomeia de “morte” e “mal”.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Vocativo na segunda estrofe do poema de Petrarca
Gabarito: letra C (CERTO). O item está correto porque, na segunda estrofe, os vocativos "Ó viva morte" e "ó deleitoso mal" são formas de o sujeito lírico se dirigir diretamente ao próprio sentimento amoroso, nomeando-o metaforicamente como "morte" e "mal". A conclusão é autorizada pelo próprio texto, que emprega a interjeição "ó" — marca típica do vocativo — e pelo contexto do poema, em que o eu lírico dialoga com o amor que o atormenta.
O comando da questão
O enunciado pede que se julgue (certo/errado) uma conclusão tirada do emprego de vocativos na segunda estrofe. Isso significa que a resposta não está literalmente escrita, mas deve ser inferida a partir de pistas textuais — no caso, a presença dos vocativos e o contexto em que aparecem. A banca não pergunta "o que é um vocativo?", mas sim "a quem o eu lírico se dirige?". Portanto, a resolução exige: (1) identificar os vocativos; (2) entender a quem eles se referem; (3) verificar se a conclusão proposta é sustentada pelo texto.
O texto e o movimento argumentativo
O poema é uma reflexão sobre a natureza contraditória do amor. O eu lírico se pergunta, na primeira estrofe, se o que sente é amor ou não, e descreve seus efeitos paradoxais: "Se boa por que tem ação mortal? / Se má por que é tão doce o seu tormento?". Na segunda estrofe, ele intensifica esse paradoxo com as expressões "Ó viva morte, ó deleitoso mal" — que são, sintaticamente, vocativos (termos que chamam/interpelam alguém ou algo). O eu lírico não está descrevendo o amor em terceira pessoa; está falando com ele, nomeando-o de forma metafórica. A conclusão do item — de que ele se dirige ao próprio sentimento, chamando-o de "morte" e "mal" — é exatamente o que esses vocativos indicam.
A técnica que decide: o que é vocativo e como identificá-lo
O vocativo é um termo acessório da oração que serve para chamar, invocar ou interpelar o interlocutor (pessoa ou coisa personificada). Ele não faz parte da estrutura argumental do verbo — pode ser retirado sem prejuízo sintático — e vem, frequentemente, marcado por pontuação (vírgula, exclamação) e pela interjeição "ó" (ou "oh"). No poema, temos:
"Ó viva morte, ó deleitoso mal,"
Aqui, "ó" é a interjeição que introduz o vocativo; "viva morte" e "deleitoso mal" são os núcleos do vocativo (substantivos com seus adjuntos adnominais). O eu lírico invoca esses elementos — que são, na verdade, metáforas para o amor. O amor é "viva morte" (porque mata e dá vida ao mesmo tempo) e "deleitoso mal" (porque é um mal prazeroso). A conclusão do item está, portanto, ancorada no texto: os vocativos nomeiam o sentimento e a ele se dirigem.
Por que a conclusão é correta (e não extrapolação)
Alguém poderia objetar: "o texto não diz explicitamente que 'morte' e 'mal' são o amor". Mas a inferência é legítima porque o poema inteiro trata do amor — o título já o anuncia: "Se amor não é qual é este sentimento?". E a segunda estrofe, ao usar vocativos, estabelece um diálogo do eu lírico com algo que o atormenta. Esse algo só pode ser o amor, pois é ele o tema central e o único referente possível no contexto. A banca não pede uma dedução além das pistas; pede exatamente a leitura que o texto autoriza. Não há extrapolação: há inferência com pista textual (os vocativos + o tema do poema).
Vocativo: Função (Chamar/invocar o interlocutor, Não integra a estrutura do verbo); Marcas típicas (Interjeição "ó", Pontuação (vírgula, exclamação)); No poema ("Ó viva morte", "ó deleitoso mal", Metáforas do amor)
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O item está correto. A segunda estrofe apresenta dois vocativos — "Ó viva morte" e "ó deleitoso mal" — que são formas de o sujeito lírico se dirigir diretamente ao próprio sentimento amoroso. A prova está no texto:
"Ó viva morte, ó deleitoso mal,"
O uso da interjeição "ó" e a estrutura de chamamento (vocativo) indicam que o eu lírico invoca esses elementos. Como o poema trata do amor (título e primeira estrofe), e como "morte" e "mal" são metáforas para os efeitos contraditórios do amor, a conclusão de que ele se dirige ao próprio sentimento é inteiramente sustentada pelo texto. Não há informação externa sendo acrescentada — apenas a leitura do que os vocativos fazem.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O item não está errado. A alternativa E negaria a conclusão, mas o texto a autoriza. Se alguém marcasse E, estaria contradizendo o texto (armadilha do catálogo: contradizer o que está explícito). Os vocativos "Ó viva morte, ó deleitoso mal" são inequívocos: há um chamamento, uma invocação. E o referente só pode ser o amor, dado o contexto. Não há como sustentar que o eu lírico se dirige a outra coisa — não há outro elemento no poema que pudesse ser "morte" ou "mal" senão o sentimento que ele descreve como paradoxal. Portanto, E é falsa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca poderia tentar confundir o candidato fazendo-o achar que "morte" e "mal" são entidades separadas do amor. Mas o texto é claro: são metáforas para o amor, e os vocativos os nomeiam. Quem marca E está ignorando a função do vocativo e o contexto metafórico.
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar itens sobre vocativo, pergunte: "a quem o eu lírico se dirige?" e "esse referente está no texto?". Se o vocativo nomeia algo que é metáfora de outro elemento (como aqui), a conclusão é válida — não é extrapolação, é leitura contextual.
Conclusão: a questão testa a capacidade de inferir a partir de pistas sintáticas (vocativo) e semânticas (metáfora). A resposta correta é C (CERTO), pois os vocativos "Ó viva morte, ó deleitoso mal" comprovam que o sujeito lírico se dirige ao próprio sentimento, nomeando-o metaforicamente. A alternativa E falha por contradizer a evidência textual.