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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce415020
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

Trem de ferro
Manuel Bandeira

 

Café com pão
Café com pão
Café com pão

 

Virge Maria que foi isso maquinista?

 

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

 

Oô...
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!

 

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri

 

Oô...
Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

 

Exílio
Ferreira Gullar

 

Numa casa em Ipanema rodeada de árvores e pombos
na sombra quente da tarde
entre móveis conhecidos
na sombra quente da tarde
entre árvores e pombos
entre cheiros conhecidos
eles vivem a vida deles
eles xvivem minha vida
na sombra da tarde quente
na sombra da tarde quente

 

A partir do poema Trem de ferro, publicado em 1936, e do poema Exílio, publicado em 1975, julgue o item a seguir.

 

A quinta estrofe do poema Trem de ferro retrata a memória de passageiros do trem, aludindo a um passado ambíguo: por um lado, opressor; por outro, nostálgico.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A quinta estrofe de "Trem de ferro": memória ambígua entre opressão e nostalgia

Gabarito: letra C (Certo). A afirmativa está correta porque a quinta estrofe do poema de Manuel Bandeira retrata, sim, uma memória de um passado ambíguo: ao mesmo tempo opressor (o trabalho forçado no canavial, a prisão) e nostálgico (a lembrança da menina bonita, o desejo de matar a sede). Essa leitura é uma inferência legítima, ancorada em pistas textuais claras, como se vê nos versos:

"Quando me prendero / No canaviá / Cada pé de cana / Era um oficiá"

Aqui, a prisão e a figura do oficial (capataz) apontam para a opressão; já os versos seguintes — "Menina bonita / Do vestido verde / Me dá tua boca / Pra matá minha sede" — trazem a lembrança afetiva, o desejo e a nostalgia. A ambiguidade está exatamente nessa dualidade: o eu lírico recorda um passado de sofrimento, mas também de afeto e desejo.

O comando: inferência, não compreensão literal

O enunciado pede que se julgue a afirmativa, ou seja, que se verifique se ela é sustentada pelo texto. Não se trata de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de depreender um sentido que está implícito — a ambiguidade do sentimento. Isso é interpretação/inferência: a resposta não está escrita palavra por palavra, mas é dedução ancorada em pistas do poema. A banca não quer que você apenas leia; quer que você conclua a partir dos versos.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O poema "Trem de ferro" (1936) simula o ritmo acelerado de uma viagem de trem, com onomatopeias e repetições. Na quinta estrofe, o eu lírico interrompe a descrição da viagem para recordar um episódio do passado: a prisão no canavial. Essa memória não é neutra — ela carrega duas faces:

  • Opressão: "Quando me prendero / No canaviá" — a prisão, o trabalho forçado, a figura do "oficiá" (capataz) que vigia cada pé de cana.

  • Nostalgia: "Menina bonita / Do vestido verde / Me dá tua boca / Pra matá minha sede" — a lembrança de um amor, o desejo, a sede que pode ser metáfora de afeto ou de liberdade.

A ambiguidade está na coexistência desses dois sentimentos: o passado é lembrado com sofrimento, mas também com saudade e desejo. O eu lírico não odeia o passado; ele o recorda com uma mistura de dor e afeto.

A técnica: inferência com pista, não extrapolação

A afirmativa diz que a estrofe "retrata a memória de passageiros do trem". Aqui há uma pequena imprecisão: o eu lírico é quem recorda, não os passageiros em geral. Mas isso não invalida a afirmativa, pois o eu lírico é um passageiro do trem — a memória é dele, e ele a compartilha. O núcleo da afirmativa — a ambiguidade entre opressão e nostalgia — está diretamente ancorado nos versos.

A pegadinha da banca é justamente essa: o candidato pode achar que a memória é só nostálgica (por causa da menina bonita) ou só opressora (por causa da prisão). Mas o texto autoriza as duas leituras simultaneamente. A palavra-chave é "ambíguo" — e o poema entrega essa ambiguidade.

Análise das alternativas

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A afirmativa está correta porque:

  • A quinta estrofe retrata uma memória (o eu lírico recorda o passado).

  • Essa memória é ambígua: há opressão ("me prendero", "cada pé de cana era um oficiá") e nostalgia ("menina bonita", "me dá tua boca").

  • A inferência é legítima, pois se apoia em pistas textuais — não é uma suposição solta.

"Quando me prendero / No canaviá / Cada pé de cana / Era um oficiá / Menina bonita / Do vestido verde / Me dá tua boca / Pra matá minha sede"

A opressão está na prisão e na vigilância; a nostalgia está no desejo e na lembrança afetiva. A ambiguidade é exatamente essa dualidade.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A afirmativa não é falsa; ela é verdadeira. Portanto, a alternativa E (Errado) está incorreta. Quem marca E comete o erro de não reconhecer a ambiguidade — ou de achar que a memória é apenas nostálgica, ignorando as pistas de opressão, ou apenas opressora, ignorando o tom afetivo. O texto autoriza a leitura ambígua, e a banca espera que o candidato inferir isso.

Conclusão

A questão testa sua capacidade de inferir a partir de pistas textuais. A quinta estrofe de "Trem de ferro" é um exemplo clássico de memória ambígua: o passado é lembrado com dor (prisão, trabalho forçado) e com afeto (a menina, o desejo). A afirmativa está correta porque capta essa dualidade. Lembre-se: em questões de interpretação, a resposta não está escrita — ela está pressuposta nas entrelinhas. Gabarito: letra C.

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