A quinta estrofe de "Trem de ferro": memória ambígua entre opressão e nostalgia
Gabarito: letra C (Certo). A afirmativa está correta porque a quinta estrofe do poema de Manuel Bandeira retrata, sim, uma memória de um passado ambíguo: ao mesmo tempo opressor (o trabalho forçado no canavial, a prisão) e nostálgico (a lembrança da menina bonita, o desejo de matar a sede). Essa leitura é uma inferência legítima, ancorada em pistas textuais claras, como se vê nos versos:
"Quando me prendero / No canaviá / Cada pé de cana / Era um oficiá"
Aqui, a prisão e a figura do oficial (capataz) apontam para a opressão; já os versos seguintes — "Menina bonita / Do vestido verde / Me dá tua boca / Pra matá minha sede" — trazem a lembrança afetiva, o desejo e a nostalgia. A ambiguidade está exatamente nessa dualidade: o eu lírico recorda um passado de sofrimento, mas também de afeto e desejo.
O comando: inferência, não compreensão literal
O enunciado pede que se julgue a afirmativa, ou seja, que se verifique se ela é sustentada pelo texto. Não se trata de localizar uma informação explícita (compreensão), mas de depreender um sentido que está implícito — a ambiguidade do sentimento. Isso é interpretação/inferência: a resposta não está escrita palavra por palavra, mas é dedução ancorada em pistas do poema. A banca não quer que você apenas leia; quer que você conclua a partir dos versos.
O texto: tema, tese e movimento argumentativo
O poema "Trem de ferro" (1936) simula o ritmo acelerado de uma viagem de trem, com onomatopeias e repetições. Na quinta estrofe, o eu lírico interrompe a descrição da viagem para recordar um episódio do passado: a prisão no canavial. Essa memória não é neutra — ela carrega duas faces:
Opressão: "Quando me prendero / No canaviá" — a prisão, o trabalho forçado, a figura do "oficiá" (capataz) que vigia cada pé de cana.
Nostalgia: "Menina bonita / Do vestido verde / Me dá tua boca / Pra matá minha sede" — a lembrança de um amor, o desejo, a sede que pode ser metáfora de afeto ou de liberdade.
A ambiguidade está na coexistência desses dois sentimentos: o passado é lembrado com sofrimento, mas também com saudade e desejo. O eu lírico não odeia o passado; ele o recorda com uma mistura de dor e afeto.
A técnica: inferência com pista, não extrapolação
A afirmativa diz que a estrofe "retrata a memória de passageiros do trem". Aqui há uma pequena imprecisão: o eu lírico é quem recorda, não os passageiros em geral. Mas isso não invalida a afirmativa, pois o eu lírico é um passageiro do trem — a memória é dele, e ele a compartilha. O núcleo da afirmativa — a ambiguidade entre opressão e nostalgia — está diretamente ancorado nos versos.
A pegadinha da banca é justamente essa: o candidato pode achar que a memória é só nostálgica (por causa da menina bonita) ou só opressora (por causa da prisão). Mas o texto autoriza as duas leituras simultaneamente. A palavra-chave é "ambíguo" — e o poema entrega essa ambiguidade.
Análise das alternativas
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmativa está correta porque:
A quinta estrofe retrata uma memória (o eu lírico recorda o passado).
Essa memória é ambígua: há opressão ("me prendero", "cada pé de cana era um oficiá") e nostalgia ("menina bonita", "me dá tua boca").
A inferência é legítima, pois se apoia em pistas textuais — não é uma suposição solta.
"Quando me prendero / No canaviá / Cada pé de cana / Era um oficiá / Menina bonita / Do vestido verde / Me dá tua boca / Pra matá minha sede"
A opressão está na prisão e na vigilância; a nostalgia está no desejo e na lembrança afetiva. A ambiguidade é exatamente essa dualidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmativa não é falsa; ela é verdadeira. Portanto, a alternativa E (Errado) está incorreta. Quem marca E comete o erro de não reconhecer a ambiguidade — ou de achar que a memória é apenas nostálgica, ignorando as pistas de opressão, ou apenas opressora, ignorando o tom afetivo. O texto autoriza a leitura ambígua, e a banca espera que o candidato inferir isso.
Conclusão
A questão testa sua capacidade de inferir a partir de pistas textuais. A quinta estrofe de "Trem de ferro" é um exemplo clássico de memória ambígua: o passado é lembrado com dor (prisão, trabalho forçado) e com afeto (a menina, o desejo). A afirmativa está correta porque capta essa dualidade. Lembre-se: em questões de interpretação, a resposta não está escrita — ela está pressuposta nas entrelinhas. Gabarito: letra C.