Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce415027
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

Aristóteles forneceu argumentos empíricos — baseados na observação — para justificar o formato esférico da Terra. Um deles é a observação de eclipses lunares. Já era aceito que a Lua reflete a luz do Sol, ou seja, ela não tem luz própria, ideia proposta pela primeira vez pelo também filósofo grego

Anaxágoras (500 a.C. – 428 a.C.). O fato de eclipses lunares apresentarem sempre o formato de um arco circular e serem causados pela sombra da Terra na Lua é um indicativo de que a Terra é esférica.

(...)

Uma das maiores falhas que os proponentes de teorias de Terra plana têm é o abandono do método científico em troca de um método particular, conhecido como “zeteticismo”. Nessa filosofia dita científica, se dá valor ao que se observa com os sentidos comuns: o mundo reflete o que experimentamos. Mas, parafraseando o artista suíço-alemão Paul Klee (1879-1940), que disse que “a arte não reproduz o visível, ela torna visível”, o papel da ciência é observar e entender o mundo e torná-lo visível, para além de nossos sentidos comuns.

Marco Moriconi. A Terra é redonda. In: Ciência Hoje, nov./2018 (com adaptações).

 

MORTEN KIIL (Com as mãos e o queixo apoiados no castão da bengala, pisca os olhos maliciosamente e olha o doutor) — Vamos ver. Como é esse negócio? Entrou um bicho no encanamento da água, não é?
DR. STOCKMANN — Sim, um micróbio.
MORTEN KIIL — Petra me disse que entraram alguns desses bichos. Uma porção.
DR. STOCKMANN — Exatamente. Centenas de milhares...
MORTEN KIIL — Que ninguém pode ver. Não é verdade?
DR. STOCKMANN — Não, não é possível vê-los.
MORTEN KIIL (Com um risinho) — Diabos! Essa é muito boa!
DR. STOCKMANN — Que quer dizer com isso?
MORTEN KIIL — Você não imagina que o prefeito vai engolir uma história como essa, não é?
DR. STOCKMANN — É o que veremos.
MORTEN KIIL — Nem que ele tenha ficado louco...
DR. STOCKMANN — Acho que todos na cidade serão bastante loucos para isso.

Henrik Ibsen. Um inimigo do povo.

 

Acerca dos fragmentos de texto apresentados e de múltiplos aspectos a eles relacionados, julgue o item subsequente.

 

No texto da peça Um inimigo do povo, a rubrica “(Com um risinho)” sinaliza o tom de alegria que deve ser adotado por quem interpretar o personagem Morten Kiil, explicitando, por meio da descrição de uma ação, o entusiasmo do personagem acerca das descobertas científicas feitas pelo Dr. Stockmann.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A rubrica "(Com um risinho)" e o tom de Morten Kiil

Gabarito: letra E (Errado). A rubrica "(Com um risinho)" não sinaliza alegria nem entusiasmo pelas descobertas científicas; ela indica ironia e ceticismo de Morten Kiil em relação à existência dos micróbios. O contexto do diálogo — em que ele chama a história de "essa é muito boa!" e duvida que o prefeito "vá engolir" — prova que o riso é de deboche, não de contentamento. A alternativa extrapola ao atribuir ao personagem um sentimento que o texto não sustenta.

O comando: compreensão e inferência

O enunciado pede que se julgue uma afirmação sobre o texto. Isso exige compreensão (o que está dito) e inferência (o que se deduz legitimamente). A rubrica é um elemento do texto dramático que orienta a encenação, mas seu sentido depende do contexto — não pode ser lida isoladamente. A banca quer que você perceba que "risinho" não é sinônimo de "alegria" quando o personagem está zombando da ciência.

O texto: o diálogo e a intenção de Morten Kiil

No trecho, Morten Kiil pergunta sobre os micróbios e, ao saber que não podem ser vistos, reage com um risinho e diz: "Diabos! Essa é muito boa!". A sequência mostra que ele não acredita na descoberta — ele a acha absurda. A fala seguinte confirma: "Você não imagina que o prefeito vai engolir uma história como essa, não é?". O verbo "engolir" (acreditar ingenuamente) e a pergunta retórica revelam desdém. O riso é de zombaria, não de entusiasmo.

A técnica: rubrica + contexto = sentido

Rubrica é a indicação cênica que descreve gestos, tons e ações dos personagens. Mas ela não tem sentido autônomo — depende do diálogo e da situação. Aqui, a rubrica "(Com um risinho)" é um sinal de ironia: Morten Kiil ri da ideia de micróbios invisíveis, achando-a ridícula. A alternativa erra ao trocar o termo "risinho" por "alegria" e ao acrescentar um entusiasmo que não existe. O personagem está cético, não animado.

Análise da assertiva

A afirmação diz que a rubrica "sinaliza o tom de alegria" e "explicita o entusiasmo do personagem acerca das descobertas científicas". Isso contradiz o texto. Veja a passagem que prova o ceticismo:

"MORTEN KIIL (Com um risinho) — Diabos! Essa é muito boa!"

E logo depois:

"MORTEN KIIL — Você não imagina que o prefeito vai engolir uma história como essa, não é?"

O risinho acompanha uma fala de deboche — "essa é muito boa" é uma expressão irônica, não de admiração. A pergunta sobre o prefeito "engolir" a história mostra que Morten Kiil duvida da veracidade dos micróbios. Portanto, a rubrica não indica alegria, mas ironia e descrença.

Conclusão

A assertiva está errada porque extrapola o sentido da rubrica, ignorando o contexto irônico do diálogo. A banca adora esse tipo de pegadinha: pegar um elemento isolado e atribuir a ele um significado que o texto não confirma. Para acertar, leia a rubrica junto com as falas e pergunte: "qual é a intenção real do personagem?". Aqui, a intenção é zombar, não celebrar.

Gabarito: letra E (Errado).

Link permanente: /questoes/ce415027