Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2025
Português›Conjunção
Código
ce415042
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, e não atinava com a solução do enigma.
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas.
A partir desse trecho do romance Memórias póstumas de Brás Cubas, julgue o seguinte item.
No trecho “e coxa!” (primeiro período), o conectivo “e” tem sentido adversativo e poderia ser substituído por mas, sem alteração das relações de sentido originalmente estabelecidas no texto.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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O valor adversativo da conjunção "e" no trecho de Machado de Assis
Gabarito: letra C (Certo). No trecho "Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa!", o conectivo "e" estabelece uma relação de oposição/contraste entre as qualidades positivas enumeradas e a deficiência física ("coxa"), podendo ser substituído por "mas" sem prejuízo do sentido. A passagem que sustenta essa leitura é a pergunta retórica imediatamente seguinte: "Por que bonita, se coxa? Por que coxa, se bonita?", que evidencia o contraste entre a beleza e a claudicação.
O comando da questão
A questão pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma afirmação a respeito do valor semântico do conectivo "e" no trecho. Trata-se de uma questão de interpretação de texto com foco em relações semânticas entre ideias: o candidato deve identificar o sentido que o conectivo assume no contexto específico, não o sentido genérico de adição. O comando "sem alteração das relações de sentido" exige que a substituição por "mas" preserve exatamente a relação de oposição que o "e" estabelece no trecho.
O texto e o movimento argumentativo
O narrador descreve uma mulher com atributos físicos admiráveis — "olhos tão lúcidos", "boca tão fresca", "compostura tão senhoril" — e, em seguida, acrescenta "e coxa!". A conjunção "e" aqui não soma uma qualidade; ela introduz um dado que contrasta com os anteriores. A beleza descrita contrasta com a deficiência, gerando um efeito de surpresa e ironia, típico de Machado de Assis. Esse contraste é explicitado logo depois: "Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio." A palavra "contraste" é a chave: o autor mesmo nomeia a relação entre as partes como de oposição, não de adição.
A técnica: o valor semântico do "e"
A conjunção "e" é prototipicamente aditiva (soma), mas, em determinados contextos, pode assumir outros valores, como o adversativo (equivalente a "mas"), o conclusivo (equivalente a "portanto") e o explicativo. Para identificar o valor, é preciso observar a relação lógica entre as orações ou termos ligados. No trecho, as qualidades positivas (olhos lúcidos, boca fresca, compostura senhoril) são interrompidas por um dado negativo (coxa). Essa quebra de expectativa é típica do valor adversativo: espera-se uma continuação harmoniosa, mas vem um elemento que contrasta.
"Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa!"
A substituição por "mas" mantém a relação de contraste: "Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; mas coxa!" O sentido permanece o mesmo: a enumeração de qualidades é contraposta à deficiência. Portanto, a afirmação do item está correta.
Conjunção "e"
1Valor aditivo (prototípico)
Soma ideias
2Valor adversativo (contextual)
Oposição entre termos
Substituível por "mas"
Ex.: qualidades × defeito
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Análise das alternativas
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmativa está correta. O "e" tem valor adversativo no trecho, pois liga termos que expressam ideias contrastantes (beleza × deficiência). A substituição por "mas" preserva a relação de oposição, como comprova o uso da palavra "contraste" no período seguinte. A banca explora a polissemia da conjunção, mas o contexto autoriza a leitura adversativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A afirmativa está incorreta, pois nega o que o texto sustenta. O erro é de contradição: o item afirma que o "e" não tem sentido adversativo e que não poderia ser substituído por "mas", mas o trecho evidencia exatamente o contrário. A relação de contraste é explícita no texto, tanto pela estrutura enumerativa interrompida quanto pela palavra "contraste" no período seguinte.
Conclusão
A questão ensina que o valor semântico de um conectivo depende do contexto. A conjunção "e" não é sempre aditiva; pode assumir valor adversativo quando liga ideias opostas. Para resolver, pergunte: "A relação entre as partes é de soma ou de oposição?" No trecho, a presença de "contraste" e a quebra de expectativa entre as qualidades e a deficiência indicam oposição, autorizando a substituição por "mas".