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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
ce415049
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

Quintal
Meimei Bastos


quando eu era pequena e só sentia bom quintal, ruim briga, e brincava de tatu bolinha comendo bananinha de trevo de quatro folhas, azedinha, até a Lua aparecer e, meu paraíso virar céu inteiro. nesse tempo, não sabia que o lugar onde eu vivia tinha nome, causa e classe. era só quando saía, várias distâncias em horas de baú, que percebia, na rua asfaltada, casas rebocadas, gente vestindo roupa de sair em casa, que o canto onde minha casa pousava, era diferente!


minha mãe dando faxina, minha mão coçando pra malinar. meu olho desacostumado com tanta parede pintada, água encanada, com um quarto só de livro, outro só de brinquedo. puxa! eu, não entendia. por que ali tinha e lá não?


hoje eu sei, mas ainda não aceito.


alegria quando tomava o Danone que a dona dava e, dizia: que menina inteligente! cuidado pra não se perder! ‘pessoa de bem’, fazendo sua parte, cumprindo sua cota de caridade.


dizia isso porque não sabia, que eu já era graduada na vida, daquele tamaninho, eu já cuidava dos meus irmãos e sobrinho, que eu já tinha ouvido mais de várias vezes no dia tiro, que já tinha vizinho finado de bala, que lá antes de nós nascer já tinha perdido um bocado de liberdade e direitos. ela dizia pra eu não me perder! o quê, dona? ainda tem mais pra perder? hoje eu sei. se nós não cuidar, têm. eles sempre dão um jeito de tirar mais.


era minha mãe acabar de passar as roupas e a gente ia embora. eu ficava contando estrada. logo depois do balão que tinha um periquito, eu sabia que tava perto. na entrada, morava uma santa, que o povo chamava de Maria, Santa Maria.


quando chegava em casa, via meus irmãos, o Brendinho. dividia os biscoitos que minha mãe tinha me dado pra comer no caminho, corria pro quintal e ia ver o céu. pedia pra maminha temperar a água pra eu banhar, ali mesmo na bacia, no terreiro. aí, eu imaginava que o teto da minha casa era todo de estrelinhas...


e era.

No que se refere ao texto Quintal, de Meimei Bastos, e a múltiplos aspectos a ele relacionados, julgue o item a seguir.

 

Do emprego do vocábulo “ainda”, em “hoje eu sei, mas ainda não aceito”, infere-se que a recusa da protagonista e narradora em aceitar a situação de desigualdade expressa no trecho imediatamente anterior é uma postura originada no passado e mantida no momento da narração.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O valor do advérbio “ainda” e a inferência sobre a recusa da narradora

Gabarito: letra E (Errado). A afirmação de que a recusa em aceitar a desigualdade é “originada no passado e mantida no momento da narração” não se sustenta no texto. O advérbio “ainda”, em “hoje eu sei, mas ainda não aceito”, indica apenas que a não aceitação permanece no presente — ele não informa quando essa recusa começou. O texto não diz que a narradora já recusava a desigualdade quando criança; pelo contrário, a passagem “hoje eu sei” marca um conhecimento adquirido no presente, e a recusa é apresentada como consequência desse saber atual, não como algo que vinha de antes.

O comando: inferência com pista no texto

O enunciado pede que se infira (“infere-se”) algo do emprego de “ainda”. Inferência legítima exige uma pista textual que obrigue à conclusão. Aqui, a pista é o advérbio “ainda”, que tem valor temporal de continuidade: indica que um estado (não aceitar) se mantém até o momento da fala. Mas a inferência proposta vai além da pista: ela acrescenta que essa recusa é “originada no passado”. Isso não está no texto — é uma extrapolação.

O texto: o que a narradora realmente diz

O trecho decisivo é o terceiro parágrafo:

“hoje eu sei, mas ainda não aceito.”

A estrutura é clara: “hoje eu sei” (presente) + “mas” (oposição) + “ainda não aceito” (presente). O “ainda” modifica o verbo “aceito”, indicando que a não aceitação continua no presente. Não há nenhuma marca temporal que a ligue ao passado. A narradora não diz “sempre soube e nunca aceitei”; ela diz que hoje sabe — e, por saber, hoje não aceita. A recusa é uma reação ao conhecimento atual, não uma postura que já existia na infância.

A técnica: o que “ainda” realmente significa

O advérbio “ainda” tem dois valores principais: temporal (continuidade: “ainda estou aqui”) e aspectual (ênfase em algo que se esperava que mudasse: “ainda não chegou”). No trecho, o valor é temporal: a não aceitação perdura. Mas “perdurar” não implica “ter começado antes”. O texto não fornece o ponto de partida da recusa. Para que a inferência fosse válida, seria necessário algo como “sempre soube, mas ainda não aceito” ou “desde criança não aceito”. Nada disso existe.

A pegadinha da banca

A banca explora a ambiguidade aparente do “ainda”: como ele sugere continuidade, o candidato pode ser levado a imaginar que a recusa vem de longa data. Mas o texto é econômico: ele só afirma o presente. A alternativa extrapola ao acrescentar a origem passada. É o clássico erro de preencher lacuna com suposição — e, pior, com uma suposição que contradiz a lógica do texto, pois a narradora só passa a saber no presente (“hoje eu sei”).

Alternativa C — ❌ Incorreta (a afirmação é falsa)

A alternativa afirma que a recusa é “originada no passado e mantida no momento da narração”. O texto autoriza apenas a segunda parte: a recusa se mantém (“ainda não aceito”). A primeira parte — a origem no passado — não tem apoio textual. O trecho “hoje eu sei” indica que o saber é atual; logo, a recusa, que decorre desse saber, também é atual. A alternativa extrapola ao inventar uma continuidade histórica que o texto não menciona.

Alternativa E — ✅ Correta (a afirmação é verdadeira)

A alternativa nega a inferência proposta, e está certa. O “ainda” só garante a persistência da não aceitação no presente. Não há pista de que essa postura tenha começado na infância. Pelo contrário, o texto sugere que a consciência da desigualdade é algo que a narradora adquiriu (“hoje eu sei”) — e é essa consciência que gera a recusa. Portanto, a inferência da alternativa C é inválida por extrapolação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca usa o valor temporal de “ainda” para sugerir uma continuidade que o texto não autoriza. Desconfie de inferências que acrescentam origem ou causa que não estão no texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar inferências, pergunte: “o texto obriga a essa conclusão, ou ela é apenas possível?”. Se for apenas possível, é extrapolação.

Conclusão: a resposta correta é a letra E, pois a afirmação da alternativa C extrapola o texto: o “ainda” indica permanência no presente, mas não diz nada sobre a origem passada da recusa. Gabarito: letra E.

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