Questão de Português — Sujeito — CESPE / CEBRASPE 2025
Português›Sujeito
Código
ce415056
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2025
Cargo
Vest ( )
Que voltem ao campus aquela convivência alegre, aquele espírito fraternal, aquela devoção profunda ao domínio do saber e a sua aplicação frutífera!
Éramos uns brasileiros apaixonados pelo Brasil, prontos a refazê-lo por um projeto próprio que fosse a expressão da vontade dos brasileiros, não éramos mesmo compatíveis com a ditadura, que se instaurou contra o povo e contra a nação.
(...)
Eles acreditavam que fôssemos perigosos, gosto de pensar que éramos mesmo!
Vladimir Carvalho. Barra 68: sem perder a ternura. 2001.
A partir do texto precedente, que reproduz palavras de Darcy Ribeiro presentes no documentário Barra 68: sem perder a ternura, e considerando o inteiro conteúdo dessa obra, julgue o item seguinte.
No último período do excerto apresentado, percebe-se uma oposição entre nós, que corresponde, semanticamente, ao grupo do qual Darcy Ribeiro fazia parte e, sintaticamente, ao sujeito oculto das orações compostas pelas formas verbais “fôssemos” e “éramos”, e “Eles”, que, semanticamente, se refere ao inimigo desconhecido daquele grupo e, justamente por isso, se classifica, sintaticamente, como sujeito indeterminado.
CCerto
EErrado
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GabaritoE — Errado
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Sujeito oculto × sujeito indeterminado: a análise do último período
Gabarito: letra E (Errado). O item erra ao afirmar que "Eles" se classifica como sujeito indeterminado. No trecho "Eles acreditavam que fôssemos perigosos", o pronome "Eles" é um sujeito simples e explícito — está materializado na oração, com referente identificável pelo contexto (os agentes da ditadura, mencionados no parágrafo anterior). Sujeito indeterminado, pela norma culta, é aquele que não aparece expresso e cuja identidade não se pode recuperar nem pela desinência verbal nem pelo contexto — o que não é o caso. A parte sobre "nós" como sujeito oculto de "fôssemos" e "éramos" está correta; o erro está exclusivamente na classificação de "Eles".
O comando da questão
O enunciado pede um julgamento Certo/Errado sobre uma análise sintático-semântica do último período do excerto. Isso exige do candidato duas habilidades simultâneas: (1) compreender o texto para identificar os referentes de "nós" e "Eles" e (2) aplicar a gramática para classificar corretamente os sujeitos. A banca mistura deliberadamente a análise semântica (quem é quem no texto) com a análise sintática (que função cada termo exerce na oração).
O texto e o movimento argumentativo
O excerto é um depoimento de Darcy Ribeiro sobre o período da ditadura militar. No segundo parágrafo, ele se identifica como parte de um grupo: "Éramos uns brasileiros apaixonados pelo Brasil... não éramos mesmo compatíveis com a ditadura, que se instaurou contra o povo e contra a nação". Aqui, "nós" (implícito na desinência de "éramos") é o grupo de brasileiros — e a ditadura é o "inimigo". No último período, "Eles acreditavam que fôssemos perigosos", o pronome "Eles" retoma, por coesão anafórica, a ditadura (ou seus agentes) — o mesmo referente do pronome relativo "que" em "a ditadura, que se instaurou".
A técnica que decide: sujeito oculto × sujeito indeterminado
A distinção central é esta:
Critério
Sujeito oculto (elíptico)
Sujeito indeterminado
Forma
Não está escrito, mas é recuperável pela desinência verbal e/ou pelo contexto
Não está escrito e não é recuperável nem pela desinência nem pelo contexto
Exemplo
"(Nós) fôssemos perigosos" — a desinência "-mos" indica 1ª pessoa do plural
"Roubaram meu carro" — quem roubou? Não se sabe
Referente
Identificável (nós = o grupo de Darcy)
Indeterminado, genérico, desconhecido
No trecho, "Eles" está escrito — é um pronome pessoal reto que exerce a função de sujeito simples. Não há nenhuma indeterminação: sabemos exatamente quem são "Eles" (a ditadura/seus agentes, pelo contexto). A classificação correta é sujeito simples, não indeterminado.
"Eles acreditavam que fôssemos perigosos"
Aqui, "Eles" é o sujeito de "acreditavam"; "que fôssemos perigosos" é a oração subordinada substantiva objetiva direta, e "fôssemos" tem sujeito oculto "nós" (recuperável pela desinência "-mos" e pelo contexto do parágrafo anterior: "Éramos uns brasileiros...").
Sujeito: Explícito (Simples (Eles acreditavam), Composto); Oculto (elíptico) (Recuperável pela desinência, Recuperável pelo contexto); Indeterminado (3ª pessoa do plural sem referente, Infinitivo impessoal, Índice "se")
Análise do item
O item afirma três coisas:
"nós" corresponde semanticamente ao grupo de Darcy — ✅ correto. O texto diz "Éramos uns brasileiros apaixonados pelo Brasil", e o sujeito oculto de "éramos" é exatamente esse grupo.
"nós" é o sujeito oculto de "fôssemos" e "éramos" — ✅ correto. A desinência "-mos" em ambos os verbos indica 1ª pessoa do plural, e o contexto confirma o referente.
"Eles" se refere ao inimigo desconhecido e, por isso, é sujeito indeterminado — ❌ errado em dois pontos:
O inimigo não é desconhecido — é a ditadura, explicitamente nomeada no parágrafo anterior ("a ditadura, que se instaurou contra o povo e contra a nação").
"Eles" é sujeito simples e explícito, não indeterminado. Sujeito indeterminado ocorre com verbo na 3ª pessoa do plural sem referente ("Roubaram meu carro"), com verbo no infinitivo impessoal ou com "se" como índice de indeterminação ("Vive-se bem aqui"). Nenhum desses casos se aplica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato ao associar "indeterminado" à ideia de "inimigo desconhecido". Mas indeterminação sintática não é o mesmo que desconhecimento semântico: o sujeito indeterminado é aquele que não está expresso e não pode ser recuperado. Como "Eles" está expresso e tem referente claro, a classificação correta é sujeito simples.
Conclusão
O item é ERRADO porque a classificação de "Eles" como sujeito indeterminado é incorreta. A banca acerta ao identificar "nós" como sujeito oculto, mas erra ao tratar "Eles" como indeterminado — o pronome é sujeito simples, explícito, com referente contextualmente identificável (a ditadura).
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar itens sobre sujeito, pergunte sempre: "o sujeito está escrito?" Se sim, é explícito (simples ou composto). Se não, pergunte: "dá para saber quem é pela desinência ou pelo contexto?" Se sim, é oculto. Se não, é indeterminado. Essa sequência resolve a maioria das questões da banca.