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Questão de Literatura — Realismo/Naturalismo (Machado de Assis, Aluísio Azevedo, R. Pompeia, etc) — CESPE / CEBRASPE 2025

LiteraturaRealismo/Naturalismo (Machado de Assis, Aluísio Azevedo, R. Pompeia, etc)
Código
ce415064
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UERR
Ano
2025
Cargo
Vest ( )

Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiências foi a de Diogo Meireles. Lavrava então na cidadeuma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar tamanho peso. Conquanto os físicos da terra propusessem extrair os narizes inchados, para alívio e melhoria dos enfermos, nenhum destes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso à lacuna, e tendo por mais aborrecível que nenhuma outra coisa a ausência daquele órgão. Diogo Meireles, que desde algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atrás, estudou a moléstia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrifício. Então ocorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi que, reunindo muitos físicos, filósofos, bonzos, autoridades e povo, comunicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o órgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por ele em várias partes, e muito aceita aos físicos de Malabar. A assembleia aclamou a Diogo Meireles; e os doentes começaram de buscá-lo, em tanta cópia, que ele não tinha mãos a medir. Diogo Meireles desnarigava-os com muitíssima arte; depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e aplicava-o ao lugar vazio. Os enfermos, assim curados e supridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do órgão cortado; mas, certos e certíssimos de que ali estava o órgão substituto, e que este era inacessível aos sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam aos seus ofícios.


Machado de Assis. O segredo do Bonzo. In: 50

Contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 95.

Os elementos temáticos e estruturais do texto precedente permitem afirmar que tal composição
  1. Aadota a perspectiva naturalista da sociedade ao recorrer ao grotesco e ao irracional.
  2. Btransfigura em forma fictícia uma contradição real: o contraste entre essência e aparência.
  3. Capresenta uma incursão do autor no mundo dos contos de fadas.
  4. Dafasta-se do Realismo por empregar recursos estéticos fantasiosos.
  5. Ealia-se às vanguardas modernistas ao fazer uso de formas estéticas surrealistas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — transfigura em forma fictícia uma contradição real: o contraste entre essência e aparência.

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