Questão de Raciocínio Lógico — Falácias — CESPE / CEBRASPE 2025
- Código
- ce416834
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- TRF 6
- Ano
- 2025
- Cargo
- AJ TRF6
- CCerto
- EErrado
GabaritoC — Certo
Gabarito: letra C (CERTO). A fala de B se constrói com base em um raciocínio apelativo, mais especificamente na falácia do argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância): B conclui que o remédio "faz bem à saúde" simplesmente porque ninguém provou que ele faz mal, invertendo o ônus da prova e apelando à ausência de evidência como se fosse evidência de segurança. O raciocínio de B é apelativo porque, em vez de apresentar fundamentos lógicos que sustentem a conclusão, apela para a falta de provas contrárias e para um ditado popular, deslocando a argumentação do plano lógico para o psicológico.
O raciocínio analítico exige que a conclusão de um argumento seja sustentada por premissas logicamente relevantes. Quando isso não ocorre, e a argumentação apela para emoções, crenças populares ou ausência de prova, estamos diante de uma falácia informal. As falácias informais são eficientes justamente porque transferem a argumentação do plano lógico para o psicológico, despertando emoções e sentimentos que dão anuência a uma conclusão que, sob análise mais aprofundada, não convence logicamente.
A falácia cometida por B é o argumentum ad ignorantiam (argumento pela ignorância). Essa falácia ocorre quando se afirma que algo é verdadeiro simplesmente porque ninguém conseguiu provar que é falso, ou que algo é falso porque ninguém provou que é verdadeiro. No diálogo, B diz: "Não existe nada dizendo que esse remédio faz mal às pessoas... Nem existem estudos que mostrem que ele pode fazer mal. Sendo assim, esse medicamento faz bem à saúde." A estrutura é exatamente a da falácia: a ausência de prova de que o remédio faz mal é usada como prova de que ele faz bem. Isso é um erro lógico, pois a ausência de evidência de dano não é evidência de ausência de dano — muito menos evidência de benefício.
Além do ad ignorantiam, a fala de B também contém um apelo emocional e popular. Ao citar o ditado "O que não mata, engorda!", B utiliza o argumentum ad populum (apelo popular), que busca ganhar concordância despertando paixões e o entusiasmo da multidão, em vez de apresentar razões lógicas. O ditado popular é um recurso de persuasão emocional, não um fundamento racional para a segurança de um medicamento. A combinação desses elementos — a ausência de prova como justificativa e o apelo a um ditado popular — caracteriza claramente um raciocínio apelativo, que se afasta do raciocínio analítico.
É importante distinguir o argumentum ad ignorantiam de contextos em que a ausência de prova tem valor jurídico específico. No Direito, por exemplo, o princípio da presunção de inocência faz com que a ausência de prova da culpa leve à absolvição. Contudo, isso é uma exceção baseada em um princípio jurídico especial, e não uma refutação da falácia em outros contextos. No caso do diálogo, não há qualquer princípio especial que justifique concluir que o remédio faz bem apenas porque não se provou que faz mal.
A pegadinha desta questão está em reconhecer que o raciocínio de B, embora pareça cauteloso ao mencionar a ausência de estudos, na verdade comete um erro lógico clássico. O candidato pode ser tentado a achar que B está sendo prudente, mas a conclusão "faz bem à saúde" não se segue das premissas apresentadas. A banca explora exatamente essa inversão: a falta de evidência de dano é tratada como evidência de benefício, o que é uma falácia de relevância, pois as premissas (ausência de estudos sobre malefícios) são irrelevantes para sustentar a conclusão (que o remédio faz bem).
A banca quer que você perceba que a fala de B, apesar de parecer prudente, comete uma falácia clássica. O candidato pode confundir "ausência de prova de dano" com "prova de segurança", mas o argumentum ad ignorantiam consiste exatamente em usar a ignorância (não saber que faz mal) como se fosse conhecimento (saber que faz bem). Fique atento: a ausência de evidência não é evidência de ausência.
Caso | Premissa (ausência de prova de dano) | Conclusão de B (faz bem à saúde) | Falácia cometida | Resultado |
|---|---|---|---|---|
1 | V (não há estudos/relatos de malefício) | V (B conclui que faz bem) | Argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância) | Falacioso |
2 | V (não há estudos/relatos de malefício) | F (não se segue logicamente) | Inversão do ônus da prova | Inválido |
3 | F (há estudos/relatos de malefício) | V (B conclui que faz bem) | Contradição com a premissa | Inviável |
4 | F (há estudos/relatos de malefício) | F (B não concluiria isso) | Sem falácia (premissa contrária) | Consistente |
A afirmativa está correta. A fala de B se constrói com base em um raciocínio apelativo, pois utiliza a falácia do argumentum ad ignorantiam (apelo à ignorância) e o argumentum ad populum (apelo popular). B conclui que o remédio faz bem à saúde porque não existem estudos ou relatos de que ele faça mal, e ainda apela ao ditado popular "O que não mata, engorda!". Esses elementos caracterizam um apelo emocional e psicológico, em vez de uma fundamentação lógica, o que configura um raciocínio apelativo e falacioso.
Gabarito: letra C (CERTO).
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