Questão de Português — Interpretação de Textos — CESGRANRIO 2007
PortuguêsInterpretação de Textos
- Código
- cg026075
- Banca
- CESGRANRIO
- Órgão
- REFAP SA
- Ano
- 2007
- Nível
- Superior
- Cargo
- Profissional de Comunicação Social Júnior
Acostumar-se a tudo?A gente se acostuma praticamente a tudo.Isso é bom? Isso é ruim?A resposta – inevitável – é: isso é bom e é ruim.Senão, vejamos. Nossa elasticidade, nossa capa-5 cidade de adaptação, tem permitido que sobrevivamos emcondições muitas vezes bastante adversas.Lembro-me de que o escritor francês Saint-Exupérycontou, uma vez, sobre como o avião caiu em cima demontanhas geladas e como o piloto conseguiu sobreviver10 durante vários dias, enfrentando o frio, a fome, a dor einúmeros perigos, adaptando-se às circunstâncias para,na medida do possível, poder dominá-las.Nunca esquecerei o justificado orgulho com que elefalou: “O que eu fiz, nenhum bicho jamais faria”.15 Por outro lado, a capacidade de adaptação podefuncionar como mola propulsora de um mecanismooportunista, de uma facilitação resignada à aceitação decoisas inaceitáveis.É um fenômeno que, infelizmente, não é raro.20 Acontece nas melhores famílias. Pode estar acontecendoagora mesmo, com você, que está lendo este jornal.Quando nos acostumamos a ver o que se passaem volta e começamos a achar que tudo é “normal”,deixamos de enxergar as “anormalidades”, deixamos de25 nos assustar e de nos preocupar com elas.O poeta espanhol Federico Garcia Lorca esteve nosEstados Unidos em 1929/1930 e ficou assustado comNova York. Enquanto os turistas, como nós, ficam maravilhadoscom a imponência dos prédios, Lorca se referia a30 eles como “montanhas de cimento”.Enquanto os turistas admiram a qualidade dacomida nos magníficos restaurantes, Lorca se espantavacom o fato de ninguém se escandalizar com a matançados animais. (...)35 A insensibilidade se generaliza, a indiferença emrelação aos animais se estende, inexoravelmente, aosseres humanos. A mesma máquina que tritura os animaisesmaga as vacas e sufoca os seres humanos.Lorca interpela os que se beneficiam com esse40 sistema, investe contra a contabilidade deles: “Embaixodas multiplicações / há uma gota de sangue de pato. /Embaixo das divisões, há uma gota de sangue demarinheiro”.Acusa os detentores do poder e da riqueza de45 camuflarem a dura realidade social para fazê-la aparecerapenas como espaço de rudes entretenimentos evertiginoso progresso tecnológico. Furioso, brada:“Cuspo-lhes na cara”.É possível que alguns aspectos da reação do poeta50 nos pareçam exagerados, unilaterais. Afinal, Nova Yorktambém é lugar de cultura, tem museus maravilhosos,encena peças magníficas, faz um excelente cinema,apresenta espetáculos musicais fantásticos.O exagero, porém, ajuda Garcia Lorca a chamar55 a nossa atenção para o “lado noturno” dessa “faceluminosa” de Nova York. E Nova York, no caso, valecomo símbolo das contradições que estão enraizadasem praticamente todas as grandes cidades modernas.Os habitantes dessas cidades tendem a fixar sua60 atenção em falhas que podem ser sanadas, em defeitosque podem ser superados, em feridas que podem sercuradas por um tratamento tópico.Falta-lhes a percepção de que determinadasquestões só poderiam ser efetivamente resolvidas por65 uma mudança radical, através de um novo modelo.Só um modelo novo de cidade permitirá que sejampensadas e postas em prática soluções para os impassesa que chegaram as nossas megalópoles.O que é pior do que ter graves problemas? É ter70 graves problemas e se recusar a reconhecê-los.A condenação do poeta levanta questões para asquais não temos, atualmente, soluções viáveis. Lorca nospresta, contudo, o relevante serviço de nos cobrar que asencaremos.KONDER, Leandro. Jornal do Brasil. 26 maio 2005.A partir do texto, interpreta-se a capacidade de adaptação, na vida da sociedade, como:
- Afator que propicia a estagnação e a indiferença.
- Búnico caminho para a resolução de problemas.
- Cmodelo ideal de superação das adversidades.
- Delemento facilitador de mudanças estruturais.
- Equalidade para quem procura emprego.