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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESGRANRIO 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
cg057798
Banca
CESGRANRIO
Órgão
BNDES
Ano
2024
Cargo
Ana ( )

O consumo como forma de

expressão e de pertencimento

 

Você é o que você consome, queira ou não, sendo consumista ou não. Dentro da lógica capitalista, a exemplo da frase dita pelo poeta Paulo Leminski “Repara bem o que eu não digo”, você é até aquilo que deixa de consumir. Quem faz essa afirmação é o antropólogo Everardo Rocha, que, há cerca de 40 anos, estuda a Antropologia do Consumo e da Mídia. Em seu livro “O Paraíso do Consumo: Émile Zola, a magia e os grandes magazines”, Rocha avalia os impactos socioculturais do principal personagem do livro, que é o “grande magazine” - tradução de “grand magasin”, como são chamadas as lojas de departamentos na França. Ele faz uma análise da expansão das lojas de departamentos no século XIX e explica como ocorreu a consolidação do consumo na modernidade. “Os grandes magazines foram, de fato, a virada fundamental que reuniu diversas potencialidades para fazer do consumo um fenômeno central da nossa cultura”, afirma o antropólogo.

 

De acordo com Rocha, passados mais de um século e meio desde a inauguração do primeiro grande magazine em Paris, diversas características desse modelo de negócios continuam atuantes na cultura de consumo que vivemos hoje. Por exemplo, as lojas de departamentos do século XIX impulsionaram inovações no comércio da época que permanecem no nosso cotidiano presente, tais como: a exposição dos produtos em vitrines, a fixação e a exibição de preços em etiquetas, a criação de datas comemorativas e promocionais, a incorporação de feriados religiosos e cívicos ao calendário de compras e a transformação das visitas às lojas em momentos de entretenimento. “Esses empreendimentos contribuíram para dar forma ao sistema de consumo moderno. Criaram espaços de sociabilidade e ciclos que ritualizam as práticas dos consumidores, fomentando datas especiais como o ‘dia das mães’, ‘dia dos namorados’, as liquidações, a Black Friday, e assim por diante”, explica o antropólogo. O pesquisador lembra ainda que “as atividades de consumo, até mesmo as compras corriqueiras, são revestidas de carga simbólica. Expressam afeto, materializam status e hierarquias sociais, estabelecem relacionamentos e a obrigação de reciprocidade”.

 

Para o antropólogo, na vida moderna, as pessoas são identificadas e se reúnem, em larga medida, de acordo com suas práticas de consumo. “Fazemos parte de grupos urbanos que se formam de acordo com gostos, estilos e poder aquisitivo; os bens de consumo podem ser uma ponte ou um muro entre as pessoas. Nossas escolhas e possibilidades de consumo, por exemplo, as marcas de roupas que costumamos usar, o tipo de carro que dirigimos, dentre outras, tanto refletem quanto viabilizam nossas relações sociais”, diz o antropólogo. “Pessoas podem ser classificadas pelas roupas que estão vestindo ou pela decoração de suas casas, pelos serviços que contratam, pelas comidas de que gostam, pelas viagens que fazem durante as férias”.

 

O porquê disso pode ser resumido a uma só questão: a vontade de pertencer a um nicho social diferente. Não basta ser, é preciso ter, e, se possível, mostrar que tem.

 

Se consumir é importante para ser e se estabelecer na sociedade moderna, dispositivos que tornam isso particularmente evidente são as mídias sociais, que servem como vitrines das vivências e experimentações de cada um. “Nas redes sociais, o ritual é esse: usuários editam a sua própria imagem, de forma mais ou menos consciente, para construir e manter relações naquele ambiente virtual. Em conjunto, as fotos e os status compartilhados devem significar aquilo que, em sociedade, geralmente se considera adequado e interessante. Inclusive, é comum ouvir alguém da ‘vida real’ se queixar do excesso de felicidade que todos parecem exibir ali. Essa aparente perfeição é elaborada através de recorrentes posts de pés descalços na praia, reuniões com família e amigos, festas, infinitas viagens, shows de música, check-in em restaurantes, cinemas, pontos turísticos, aeroportos, e assim por diante. Retratos e selfies existem para o outro e, em certo sentido, todas essas publicações são um prolongamento da ‘vitrinização’ da vida social levada a efeito pelos grandes magazines do século XIX”.

 

Analisando o fenômeno do consumo desde a época da inauguração dos primeiros grandes magazines, no século XIX, Rocha afirma que, apesar do avanço tecnológico e da aceleração da globalização, muitos dos rituais e dos valores de hoje já eram partilhados, de certa maneira, naquela época e até antes dela. “As técnicas e os veículos de comunicação mudaram, mas não certos hábitos, formas de expressão e de relacionamento. Por exemplo, um artigo de um pesquisador de história da arte mostra como, desde o início da modernidade,a pintura de retratos e autorretratos se torna uma prática difundida não só entre monarcas e membros da nobreza, mas também entre os burgueses em ascensão, que, através dessa forma de divulgar a si mesmos, queriam demonstrar poder, prestígio e conexões sociais. Em um tempo menos distante, na minha juventude, não havia ainda a internet, mas podíamos fazer amigos por correspondência, em trocas de cartas, como hoje funcionam as mensagens em redes sociais on-line”.

 

Quando perguntado sobre o futuro do nosso consumo, Rocha diz que, como antropólogo, seria inconsequente tentar predizer o que veremos ao longo dos próximos anos: “Apesar da celeridade tecnológica, os processos de mudança cultural são bem mais lentos do que se imagina. Em vários aspectos da cultura, podemos ver mudanças rápidas quando olhamos, por exemplo, as tecnologias ou os conteúdos de um filme ou de uma novela. Porém, se olharmos pelo plano da estrutura narrativa dessa novela ou filme, podemos ver a permanência de valores que já estavam em filmes e novelas bem mais antigos. Os conteúdos podem mudar em ritmo muito mais rápido do que os modelos que os sustentam”.

 

KIFFER, Danielle. O consumo como forma de expressão e de pertencimento. Rio Pesquisa, ano 9, no 39, junho de 2017. Disponível em: https://siteantigo.faperj.br/downloads/revista/Rio_Pesquisa_ 39/Comportamento.pdf. Acesso em: 30 jul. 2024. Adaptado.

A afirmação “Não basta ser, é preciso ter, e, se possível, mostrar que tem.” explica a valorização, na atualidade, da exposição por meio de
  1. Acriação de novos modelos de estratégias de negócios
  2. Bidas às lojas como oportunidades de entretenimento
  3. Cpublicações nas redes sociais, como retratos e selfies
  4. Delaboração de vitrines atraentes nas lojas de departamentos
  5. Eestabelecimento de espaços de sociabilidade em certas datas
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GabaritoC — publicações nas redes sociais, como retratos e selfies

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Consumo, pertencimento e a exposição nas redes sociais

Gabarito: letra C. A frase “Não basta ser, é preciso ter, e, se possível, mostrar que tem” sintetiza a ideia de que o consumo serve para expressar identidade e pertencimento social, e o texto conecta essa necessidade de “mostrar” diretamente às mídias sociais, que funcionam como “vitrines das vivências”. A passagem que ancora a resposta está no 4º parágrafo, quando o autor afirma que as redes sociais são “vitrines das vivências e experimentações de cada um” e que “Retratos e selfies existem para o outro”.

O comando da questão

O enunciado pede que você identifique o que a afirmação explica na atualidade. Não se trata de uma pergunta de inferência profunda, mas de compreensão textual: localizar no texto o elemento que corresponde à ideia de “mostrar que tem”. A palavra-chave é “exposição” — o ato de exibir, de tornar público. Você deve buscar, no texto, qual prática atual materializa essa exposição.

O texto e o movimento argumentativo

O texto defende a tese de que o consumo é uma forma de expressão e pertencimento. O autor, apoiado no antropólogo Everardo Rocha, mostra que as pessoas se identificam e se reúnem por suas práticas de consumo. A frase “Não basta ser, é preciso ter, e, se possível, mostrar que tem” aparece logo após a explicação de que as pessoas são classificadas pelas roupas, carros, serviços, comidas e viagens — ou seja, pelo que consomem. O “mostrar que tem” é o passo seguinte: não basta possuir, é preciso exibir o que se possui. E o texto, no parágrafo seguinte, aponta exatamente qual é o dispositivo atual dessa exibição: as mídias sociais.

“Se consumir é importante para ser e se estabelecer na sociedade moderna, dispositivos que tornam isso particularmente evidente são as mídias sociais, que servem como vitrines das vivências e experimentações de cada um.”

Aqui está a chave: as redes sociais são o meio pelo qual as pessoas mostram o que têm e o que vivem. O texto ainda reforça:

“Retratos e selfies existem para o outro e, em certo sentido, todas essas publicações são um prolongamento da ‘vitrinização’ da vida social levada a efeito pelos grandes magazines do século XIX.”

Ou seja, a exposição por meio de publicações nas redes sociais, como retratos e selfies, é exatamente o que a frase “mostrar que tem” explica na atualidade.

A técnica que decide

Para resolver, você deve relacionar a frase à sua função no texto. A frase não está isolada: ela é a conclusão de um raciocínio sobre como o consumo identifica as pessoas. O parágrafo seguinte introduz as mídias sociais como o “dispositivo” que torna essa identificação evidente. Portanto, a alternativa correta é aquela que conecta a exposição ao ambiente virtual, e não às práticas comerciais do século XIX.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece alternativas que citam elementos presentes no texto (vitrines, entretenimento, sociabilidade), mas que não correspondem ao que a frase “mostrar que tem” explica na atualidade. A pegadinha é ater-se a trechos isolados sem conectar a frase ao parágrafo que a desenvolve.

PEGA ESSA DICA!

Grife a palavra “exposição” no enunciado e procure no texto o termo que a concretiza. Aqui, “vitrines das vivências” e “retratos e selfies” são as pistas diretas.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Criação de novos modelos de estratégias de negócios — O texto menciona que os grandes magazines “impulsionaram inovações no comércio”, mas isso se refere ao século XIX, não à atualidade. A frase “mostrar que tem” não trata de estratégias empresariais, e sim de exposição pessoal. A alternativa tangencia o tema: fala de algo correlato (consumo), mas não responde ao que a frase explica.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Idas às lojas como oportunidades de entretenimento — O texto cita que as lojas de departamentos transformaram “as visitas às lojas em momentos de entretenimento”, mas isso é uma característica do modelo de negócios do século XIX, não a explicação da frase “mostrar que tem”. A alternativa restringe o alcance da frase a uma prática comercial, quando o texto a conecta à exposição nas redes sociais.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Publicações nas redes sociais, como retratos e selfies — O texto afirma que as mídias sociais são “vitrines das vivências” e que “Retratos e selfies existem para o outro”. A frase “mostrar que tem” é exatamente isso: exibir publicamente o que se possui e o que se vive. A alternativa é uma paráfrase fiel do 4º parágrafo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Elaboração de vitrines atraentes nas lojas de departamentos — O texto menciona “a exposição dos produtos em vitrines” como inovação do século XIX, mas isso é uma prática comercial, não a exposição pessoal a que a frase se refere. A alternativa contradiz a ideia central: a frase fala de mostrar o que se tem, não de mostrar produtos em lojas.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Estabelecimento de espaços de sociabilidade em certas datas — O texto cita que os grandes magazines “Criaram espaços de sociabilidade e ciclos que ritualizam as práticas dos consumidores”, mas isso se refere ao século XIX. A frase “mostrar que tem” não trata de datas comemorativas, e sim de exposição pessoal. A alternativa tangencia o tema, pois fala de sociabilidade, mas não responde ao que a frase explica.

Conclusão

A questão exige compreensão textual: localizar a informação explícita que conecta a frase à prática atual. A única alternativa que faz essa conexão é a letra C, pois o texto afirma que as redes sociais são “vitrines das vivências” e que “Retratos e selfies existem para o outro”. As demais alternativas citam elementos do texto, mas fora do contexto da frase.

Gabarito: letra C

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