Questão de Português — Coesão e coerência — FCC 2015
Português›Coesão e coerência
Código
fc021153
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ-PI
Ano
2015
Nível
Superior
Cargo
Analista do Tesouro Estadual - Conhecimentos Gerais
A lanterninha Apaguei todas as luzes, e não foi por economia; foi porque me deram uma lanterna de bolso, e tive a ideia de fazer a experiência de luz errante. A casa, com seus corredores, portas, móveis e ângulos que recebiam iluminação plena, passou a ser um lugar estranho, variável, em que só se viam seções de paredes e objetos, nunca a totalidade. E as seções giravam, desapareciam, transformavam-se. Isso me encantou. Eu descobria outra casa dentro da casa. A lanterna passava pelas coisas com uma fantasia criativa e destrutiva que subvertia o real. Mas que é o real, senão o acaso da iluminação? Apurei que as coisas não existem por si, mas pela claridade que as modela e projeta em nossa percepção visual. E que a luz é Deus. A partir daí entronizei minha lanterninha em pequeno nicho colocado na estante, e dispensei-me de ler os tratados que me perturbavam a consciência. Todas as noites retiro-a de lá e mergulho no divino. Até que um dia me canse e tenha de inventar outra divindade. (ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985, p. 25)Atente para as seguintes frases: I. Deram-me uma lanterna de bolso.II. Passei a projetar a luz da lanterna nos cantos da casa. III. Os cantos da casa não me eram mais familiares.IV. A luz da lanterna transfigurava os cantos da casa. As frases acima estão articuladas de modo claro, coerente e correto no seguinte período:
AA lanterna de bolso, que me deram, passei a projetar sua luz nos cantos da casa que, antes familiares, eram assim transfigurados por aquela luz.
BA luz da lanterna de bolso que me deram passei a projetar nos cantos da casa, tão familiares, cujos passaram a ser então transfigurados.
CMe deram uma lanterna de bolso em cuja luz passei a projetar nos cantos da casa que, à essa altura, não me eram mais familiares, porquanto transfigurados.
DDeram-me uma lanterna de bolso, cuja luz passei a projetar nos cantos da casa, que, até então familiares, estavam agora transfigurados.
EA lanterna de bolso que me deram tinha uma luz que me pus a projetar sobre os cantos da casa, cuja familiaridade era agora como que se estivessem transfigurados.
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GabaritoD — Deram-me uma lanterna de bolso, cuja luz passei a projetar nos cantos da casa, que, até então familiares, estavam agora transfigurados.
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Articulação de frases com coesão e coerência
Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que articula as quatro frases em um período claro, coerente e gramaticalmente correto. Ela respeita a sequência lógica (recebimento da lanterna → projeção da luz → transfiguração dos cantos → perda da familiaridade) e emprega corretamente o pronome relativo “cuja”, mantendo a concordância de número e gênero.
Análise do período correto (alternativa D)
"Deram-me uma lanterna de bolso, cuja luz passei a projetar nos cantos da casa, que, até então familiares, estavam agora transfigurados."
Cuja luz: pronome relativo que retoma “lanterna de bolso” e concorda em gênero (feminino) e número (singular) com o substantivo “luz”.
Que... estavam agora transfigurados: o pronome “que” retoma “cantos da casa”, e o predicativo “transfigurados” concorda com o antecedente.
Ordem lógica: I → II → IV → III (recebeu a lanterna → projetou a luz → os cantos foram transfigurados → deixaram de ser familiares).
A frase é clara, não há ambiguidade e a conexão entre as ideias é natural.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"A lanterna de bolso, que me deram, passei a projetar sua luz nos cantos da casa que, antes familiares, eram assim transfigurados por aquela luz."
Erro: Problema de concordância e clareza. O sujeito do verbo “passei” é “eu” (implícito), mas o período começa com “A lanterna de bolso” como tópico, o que gera ambiguidade. Além disso, “que, antes familiares” poderia ser interpretado como referindo-se a “cantos da casa” ou à “lanterna”. A estrutura é confusa.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta seduzir com uma ordem aparentemente lógica, mas a falta de sujeito explícito e a má colocação dos relativos quebram a clareza.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"A luz da lanterna de bolso que me deram passei a projetar nos cantos da casa, tão familiares, cujos passaram a ser então transfigurados."
Erro: Uso incorreto do pronome relativo “cujos”. “Cujos” é pronome relativo possessivo e não pode ser sujeito de um verbo. A forma correta seria “cujos cantos passaram a ser transfigurados”. Além disso, o período está confuso: “passei a projetar” carece de objeto direto claro (a luz já foi mencionada, mas a construção está truncada).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora o erro frequente de usar “cujo” como sujeito, quando na verdade ele exige um substantivo após si.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Me deram uma lanterna de bolso em cuja luz passei a projetar nos cantos da casa que, à essa altura, não me eram mais familiares, porquanto transfigurados."
Erro: A expressão “em cuja luz passei a projetar” é semanticamente estranha. “Projetar” pede um objeto direto (“a luz”), mas “em cuja luz” indica lugar (“na qual”), o que não se encaixa. O correto seria “cuja luz passei a projetar”. Além disso, “à essa altura” é redundante (basta “a essa altura” ou “àquela altura”). O uso de “porquanto” é exagerado para a relação causal.
NÃO CAIA NESSA!
Confundir o uso de “cujo” com preposições inadequadas, gerando incoerência.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"A lanterna de bolso que me deram tinha uma luz que me pus a projetar sobre os cantos da casa, cuja familiaridade era agora como que se estivessem transfigurados."
Erro: Duplo erro de concordância. “Cuja familiaridade” refere-se a “cantos da casa”, mas “familiaridade” é singular; a oração seguinte usa “estivessem” (plural), sem sujeito claro. Além disso, a expressão “como que se” é coloquial e inadequada em texto formal. O período fica prolixo e confuso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta mascarar a falta de paralelismo com palavras rebuscadas, mas a concordância falha.