Ironia no fim da escravidão — a carta de alforria não muda a condição social
Gabarito: Letra E. O texto de Machado de Assis (crônica "Bons Dias!", de 19/05/1888) trata o fim da escravidão com ironia, mostrando que a simples carta de alforria não significou mudança da condição social do escravo. O narrador, um senhor de escravos, relata que alforriou seu escravo Pancrácio antes da Lei Áurea, mas continua a tratá-lo com violência e humilhações, evidenciando a hipocrisia. A passagem comprova:
"no dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza: -Tu és livre, podes ir para onde quiseres. (...) Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos."
E mais adiante:
"tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo"
A ironia reside no contraste entre o discurso de liberdade e a prática de manutenção da hierarquia social.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"reconhece o mérito das mudanças políticas de então, ironizando a hierarquia social que antes predominava entre escravo e senhor."
Erro: contradiz o texto. O narrador não reconhece mérito das mudanças; ele as ridiculariza. A ironia não é contra a hierarquia passada, mas contra a falsa liberdade presente. O texto mostra que a hierarquia continua, apenas com nova roupagem.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"mostra como um avanço social, na verdade, beneficia a todos: o escravo se torna livre, seu antigo dono adquire prestígio social."
Erro: generalização indevida. O texto não afirma que beneficia a todos. O escravo é legalmente livre, mas continua sofrendo abusos; o dono ganha prestígio ("recebi muitos cartões"), mas a ironia desmascara esse pretenso benefício. A alternativa ignora o tom crítico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"reflete o entusiasmo com que foi tomada a libertação dos escravos no Brasil, a partir do relato de uma situação particular."
Erro: contradiz o texto. O narrador não demonstra entusiasmo genuíno; seu discurso é pomposo e vazio, e suas ações contradizem a suposta alegria. O texto é cético e irônico, não entusiástico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"faz ressalvas ao processo político que envolveu o fim da escravidão, visto que os títulos concedidos não possuíam valor legal."
Erro: fora do escopo. O texto não questiona a validade legal da carta de alforria. A crítica é sobre a ineficácia social da lei, não sobre sua legalidade. A ironia está no fato de que, mesmo com o título, o escravo continua subjugado.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"trata o fim da escravidão com ironia, mostrando como uma simples carta de alforria não significava mudança da condição social do escravo."
Acerto: A alternativa capta perfeitamente a ironia do texto. O narrador concede a liberdade formal, mas mantém o escravo em condição subalterna, provando que a alforria documentada não alterou a realidade social. A passagem dos pontapés e xingamentos comprova que "não significava mudança da condição social do escravo".