Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — FCC 2019

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
fc053931
Banca
FCC
Órgão
MPE-MT
Ano
2019
Cargo
Promotor de Justiça Substituto

                                   Antropologia reversa
 
      É sempre tarefa difícil – no limite, impossível – compreender o outro não a partir de nós mesmos, ou seja, de nossas categorias e preocupações, mas de sua própria perspectiva e visão de mundo. “Quando os antropólogos chegam”, diz um provérbio haitiano, “os deuses vão embora”.

      Os invasores coloniais europeus, com raras exceções, consideravam os povos autóctones do Novo Mundo como crianças amorais ou boçais supersticiosos – matéria escravizável. Mas como deveriam parecer aos olhos deles aqueles europeus? “Onde quer que os homens civilizados surgissem pela primeira vez”, resume o filósofo romeno Emil Cioran, “eles eram vistos pelos nativos como
demônios, como fantasmas ou espectros, nunca como homens vivos! Eis uma intuição inigualável, um
insight profético, se existe um”.

      O líder ianomâmi Davi Kopenawa, porta-voz de um povo milenar situado no norte da Amazônia e ameaçado de extinção, oferece um raro e penetrante registro contra-antropológico do mundo branco com o qual tem convivido: “As mercadorias deixam os brancos eufóricos e esfumaçam todo o resto em suas mentes [...] Seu pensamento está tão preso a elas, são de fato apaixonados por elas! Dormem pensando nelas, como quem dorme com a lembrança saudosa de uma bela mulher. Elas ocupam seu pensamento por muito tempo, até vir o sono. Os brancos não sonham tão longe quanto nós. Dormem muito, mas só sonham consigo mesmos”.

(Adaptado de GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 118-119)

O título – Antropologia reversa – justifica-se porque o autor considera em seu texto a
  1. Apossibilidade de sujeito e objeto de uma pesquisa antropológica adotarem os mesmos critérios para se qualificarem simultaneamente.
  2. Bdificuldade que existe em compreendermos o outro a partir dos valores antropológicos que elegemos como absolutos.
  3. Ceventualidade de que um objeto de nossa análise antropológica passe a ser ele próprio o sujeito que nos analisa.
  4. Dcontradição que existe no fato de que os intérpretes de uma cultura estranha sejam os menos qualificados para compreendê-la.
  5. Epenalização que sofrem as culturas primitivas quando submetidas a critérios de valor inteiramente estranhos a elas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — eventualidade de que um objeto de nossa análise antropológica passe a ser ele próprio o sujeito que nos analisa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Antropologia Reversa – Justificativa do Título

Gabarito: letra C. O título "Antropologia reversa" justifica-se porque o autor considera a possibilidade de o objeto de análise antropológica (os povos "estudados") tornar-se sujeito que nos analisa. O texto materializa essa inversão ao apresentar o "registro contra-antropológico do mundo branco" oferecido pelo líder ianomâmi Davi Kopenawa.

"O líder ianomâmi Davi Kopenawa, porta-voz de um povo milenar situado no norte da Amazônia e ameaçado de extinção, oferece um raro e penetrante registro contra-antropológico do mundo branco com o qual tem convivido"

Esse trecho mostra o indígena (tradicionalmente objeto de estudo) assumindo o papel de analista da cultura do outro (os brancos), caracterizando a "antropologia reversa".

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que sujeito e objeto adotam os mesmos critérios simultaneamente. O texto não sustenta essa ideia; ele defende a inversão de papéis, não a igualdade de critérios. Há uma troca de conceito: a banca substitui a noção de reversão pela de coincidência de critérios.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa descreve a dificuldade de compreender o outro a partir de nossos valores – ideia presente no primeiro período do texto. No entanto, essa dificuldade não é o que justifica o título "Antropologia reversa". O título se refere especificamente ao movimento contrário (o outro que nos observa), não à dificuldade em si. A alternativa troca o conceito central: toma uma premissa do texto como justificativa do título, quando ela é apenas o contexto inicial.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Como demonstrado, o texto explicita que o objeto de análise (o indígena) pode tornar-se sujeito que nos analisa, exemplificado por Davi Kopenawa. Essa inversão é a essência do título.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "menos qualificados para compreender" a cultura estranha. O texto não afirma que os intérpretes são menos qualificados; apenas aponta a dificuldade inerente. Além disso, a ideia de qualificação não está em pauta. A alternativa extrapola o texto ao acrescentar um juízo de valor não contido.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa menciona "penalização que sofrem as culturas primitivas". Embora o texto cite a escravização e a visão negativa dos colonizadores, a penalização não é o eixo que justifica o título. O foco do título é a inversão de perspectivas, não a penalização. A alternativa tangencia o tema sem capturar a ideia central.

Conclusão: A única alternativa que corresponde exatamente à ideia de "antropologia reversa" é a letra C, que descreve o objeto da análise antropológica tornando-se sujeito que nos analisa.

Link permanente: /questoes/fc053931