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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2019

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc055702
Banca
FCC
Órgão
RIOPRETOPREV
Ano
2019
Cargo
Agente Previdenciário

    O casamento, para ela, era isso: quarenta e oito anos de opressão, de humilhações, de vexames. Um verdadeiro tirano, o marido dela, um homem autoritário que lhe dava ordens sem cessar e que a ridicularizava na frente de todo o mundo: minha mulher é um desastre, proclamava, não faz nada direito.

    E ela? Ela calava. Jamais protestara. Até os filhos se indignavam com aquela passividade: você não pode se deixar dominar dessa maneira, diziam, você tem de fazer alguma coisa. Ela suspirava, resignada, não dizia nada.

    Mas estava, sim, resolvida a se vingar. Sua vingança seria cruel e requintada, uma vingança capaz de indenizá-la por uma vida de sofrimentos. Só faltava descobrir a maneira de fazê-lo.

    A ideia lhe ocorreu quando, uma manhã, o marido perguntou se ela não vira seu cachimbo. Entre parênteses, gostava muito disso, de fumar cachimbo. Verdade que a ela o cheiro deixava tonta; mas ele pouco estava ligando. Entre a mulher e o cachimbo prefiro o cachimbo, costumava dizer, entre gargalhadas. Mas então ele tinha esquecido onde deixara o cachimbo − sinal de que a memória lhe falhava. E ela resolveu tirar proveito disso. Para quê? Para enlouquecer o marido. Exatamente: enlouquecê-lo. Era o mínimo a que podia almejar.

    E aí começou o jogo. Onde está o cachimbo, perguntava ele. Ali onde você o colocou, dizia ela, em cima do televisor.

    Ele ficava perplexo: eu coloquei o cachimbo em cima do televisor? E por que teria feito isso, se ali não é lugar de cachimbo? Quanto mais perturbado ele ficava, mais ela se entusiasmava. Era como uma gata brincando com um camundongo, um camundongo triste e desamparado. Você não viu o meu cachimbo? Está ali na prateleira, onde você o deixou. Eu? Eu deixei o cachimbo na prateleira? A coisa ia num crescendo, a angústia dele aumentando sempre. Ela já tinha o final planejado: um dia o cachimbo sumiria para sempre. E quando ele perguntasse ela responderia: você o jogou fora. O que seria um golpe... mortal? Mortal.

    Só que ele morreu antes disso. Um ataque do coração, provavelmente. Ela chorou muito: em parte porque tinha pena dele, em parte porque não pudera consumar sua vingança. Mas aí teve uma ideia: colocar o cachimbo no caixão. Para atormentá-lo pela eternidade afora. Procurou o cachimbo, mas não o achou. Simplesmente não conseguia lembrar de onde o colocara. Ali, em alguma parte da casa, estava o maldito objeto. Só que ela não o encontrava. E isto significava que jamais teria paz. Que aquela lembrança a torturaria até a morte.

(SCLIAR, Moacir. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002, p. 113-114)

Ao ser transposto para o discurso indireto, o trecho Entre a mulher e o cachimbo prefiro o cachimbo, costumava dizer (4o parágrafo) assume a seguinte redação:
  1. AEle costumava dizer: − Entre a mulher e o cachimbo, preferia o cachimbo.
  2. BEle costumava dizer que, entre a mulher e o cachimbo, preferia o cachimbo.
  3. CEle costumava dizer que, entre a mulher e o cachimbo, prefere o cachimbo.
  4. DEle costumava dizer: − Entre a mulher e o cachimbo, prefiro o cachimbo.
  5. EEle costumava dizer que, entre a mulher e o cachimbo, preferiria o cachimbo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Ele costumava dizer que, entre a mulher e o cachimbo, preferia o cachimbo.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Transposição do discurso direto para o indireto

Gabarito: letra B. Ao converter a fala "Entre a mulher e o cachimbo prefiro o cachimbo" (discurso direto) para o indireto, o verbo "prefiro" (presente do indicativo) deve recuar para o pretérito imperfeito "preferia", pois o verbo de elocução "costumava dizer" está no passado. Além disso, a oração é introduzida pela conjunção integrante "que", e desaparecem os sinais de pontuação (dois-pontos, travessão).

"Entre a mulher e o cachimbo prefiro o cachimbo, costumava dizer" (4º parágrafo)

A regra clássica do discurso indireto: quando o verbo introdutor está num tempo passado, o presente do indicativo do discurso direto converte-se em pretérito imperfeito do indicativo (ação simultânea à da fala original).


  1. 1Presente do indicativoprefiro
  2. 2Pretérito imperfeito do indicativopreferia
  3. 3Conjunção integranteque
  4. 4Sem dois-pontos/travessãosinais suprimidos
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Alternativa A — ❌ Incorreta

  • Manteve o travessão e os dois-pontos, característicos do discurso direto, e usou "preferia" (forma verbal até adequada), mas a estrutura não é indireta. A redação permanece direta.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

  • Introduzida por "que", verbo no pretérito imperfeito "preferia", e sem sinais gráficos de discurso direto. Atende perfeitamente à transposição.

Alternativa C — ❌ Incorreta

  • Embora use a conjunção "que" e elimine os dois-pontos, o verbo "prefere" está no presente do indicativo. Como o verbo introdutor "costumava dizer" está no passado, o presente é inadequado; deveria ser "preferia".

Alternativa D — ❌ Incorreta

  • Redação idêntica à original: dois-pontos, travessão e verbo "prefiro" (presente). É discurso direto, não indireto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

  • Usa o futuro do pretérito "preferiria" (condicional). Esse tempo indica um fato posterior ao momento da fala (futuro em relação ao passado), mas no texto a preferência é simultânea; o imperfeito é o tempo correto.


Gabarito: letra B.

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