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Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra SE — FCC 2019

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra SE
Código
fc055704
Banca
FCC
Órgão
RIOPRETOPREV
Ano
2019
Cargo
Agente Previdenciário

    O casamento, para ela, era isso: quarenta e oito anos de opressão, de humilhações, de vexames. Um verdadeiro tirano, o marido dela, um homem autoritário que lhe dava ordens sem cessar e que a ridicularizava na frente de todo o mundo: minha mulher é um desastre, proclamava, não faz nada direito.

    E ela? Ela calava. Jamais protestara. Até os filhos se indignavam com aquela passividade: você não pode se deixar dominar dessa maneira, diziam, você tem de fazer alguma coisa. Ela suspirava, resignada, não dizia nada.

    Mas estava, sim, resolvida a se vingar. Sua vingança seria cruel e requintada, uma vingança capaz de indenizá-la por uma vida de sofrimentos. Só faltava descobrir a maneira de fazê-lo.

    A ideia lhe ocorreu quando, uma manhã, o marido perguntou se ela não vira seu cachimbo. Entre parênteses, gostava muito disso, de fumar cachimbo. Verdade que a ela o cheiro deixava tonta; mas ele pouco estava ligando. Entre a mulher e o cachimbo prefiro o cachimbo, costumava dizer, entre gargalhadas. Mas então ele tinha esquecido onde deixara o cachimbo − sinal de que a memória lhe falhava. E ela resolveu tirar proveito disso. Para quê? Para enlouquecer o marido. Exatamente: enlouquecê-lo. Era o mínimo a que podia almejar.

    E aí começou o jogo. Onde está o cachimbo, perguntava ele. Ali onde você o colocou, dizia ela, em cima do televisor.

    Ele ficava perplexo: eu coloquei o cachimbo em cima do televisor? E por que teria feito isso, se ali não é lugar de cachimbo? Quanto mais perturbado ele ficava, mais ela se entusiasmava. Era como uma gata brincando com um camundongo, um camundongo triste e desamparado. Você não viu o meu cachimbo? Está ali na prateleira, onde você o deixou. Eu? Eu deixei o cachimbo na prateleira? A coisa ia num crescendo, a angústia dele aumentando sempre. Ela já tinha o final planejado: um dia o cachimbo sumiria para sempre. E quando ele perguntasse ela responderia: você o jogou fora. O que seria um golpe... mortal? Mortal.

    Só que ele morreu antes disso. Um ataque do coração, provavelmente. Ela chorou muito: em parte porque tinha pena dele, em parte porque não pudera consumar sua vingança. Mas aí teve uma ideia: colocar o cachimbo no caixão. Para atormentá-lo pela eternidade afora. Procurou o cachimbo, mas não o achou. Simplesmente não conseguia lembrar de onde o colocara. Ali, em alguma parte da casa, estava o maldito objeto. Só que ela não o encontrava. E isto significava que jamais teria paz. Que aquela lembrança a torturaria até a morte.

(SCLIAR, Moacir. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002, p. 113-114)

O segmento sublinhado em o marido perguntou se ela não vira seu cachimbo (4º parágrafo) exerce a mesma função sintática do termo sublinhado em:
  1. AEla suspirava, resignada, não dizia nada (2o parágrafo)
  2. BO casamento, para ela, era isso (1o parágrafo)
  3. CJamais protestara (2o parágrafo)
  4. Dvocê tem de fazer alguma coisa (2o parágrafo)
  5. EE aí começou o jogo (5o parágrafo)
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GabaritoA — Ela suspirava, resignada, não dizia nada (2o parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função sintática de objeto direto

Gabarito: letra A. O segmento sublinhado no enunciado — "se ela não vira seu cachimbo" (4º parágrafo) — é uma oração subordinada substantiva que exerce a função de objeto direto do verbo "perguntou". A alternativa A apresenta o termo "nada", em "não dizia nada", que também exerce a função de objeto direto do verbo "dizia". As demais alternativas possuem funções sintáticas distintas, conforme analisado abaixo.

"o marido perguntou se ela não vira seu cachimbo" — a oração sublinhada completa o sentido do verbo transitivo direto "perguntou".

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O termo sublinhado "nada" (em "não dizia nada") é objeto direto do verbo "dizia", mesma função sintática da oração sublinhada no enunciado. Ambos completam o verbo transitivo direto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O segmento sublinhado "para ela" (em "O casamento, para ela, era isso") exerce a função de adjunto adverbial (indica a quem se refere a opinião), não de objeto direto. Erro: troca de conceito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O termo sublinhado "Jamais" (em "Jamais protestara") é adjunto adverbial de tempo, não objeto direto. Erro: troca de conceito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Em "você tem de fazer alguma coisa", o segmento sublinhado é "de fazer" (locução verbal preposicionada) ou "alguma coisa" (objeto direto). A banca considerou o segmento como um todo, que não exerce a função de objeto direto, mas sim de parte de uma locução verbal + complemento. Ainda que "alguma coisa" seja objeto direto, o conjunto sublinhado (provavelmente "de fazer") não equivale à oração objetiva direta do enunciado. Erro: incompatibilidade de função.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O termo sublinhado "aí" (em "E aí começou o jogo") é adjunto adverbial de lugar/tempo, não objeto direto. Erro: troca de conceito.

Conclusão: Apenas a alternativa A apresenta termo com a mesma função sintática de objeto direto, conforme exigido pelo comando.

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