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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2019

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc057098
Banca
FCC
Órgão
SPPREV
Ano
2019
Cargo
Técnico em Gestão Previdenciária

                                    Ilusões do mundo


      Afinal, é mesmo assim: quase sempre nos iludimos. Aquelas nuvens que me pareciam tão de passagem reuniram-se em grupos compactos e prepararam um pequeno dilúvio sobre estes vales de Lindoia. Assim, os forasteiros, surpreendidos, ficaram privados de seus passeios, e as crianças, em turbilhão, começaram a aparecer por baixo de mesas. E foi por isso que os salões do hotel se viram repletos de alaridos.

      Imagina-se que deva ser penoso para um turista ver-se de repente privado das alegrias do ar livre. Mas as virtudes destas águas de Lindoia são tamanhas que aqui ninguém se perturba com os contratempos. Benditas águas... Benditas não só por esse otimismo que propiciam como pelas curas reais que se lhes atribuem. Este conta que se achava repleto de cálculos e agora está livre deles. O que se amofinava com as suas alergias, já nem se lembra mais delas. Tudo graças a copinhos de água, a banhos de imersão e a não sei quantas outras modalidades de aplicações.

      Aprecio essas maravilhas que me são referidas, mas na verdade o que mais me impressiona é o bom humor que observo em redor de mim. Se as pessoas esbarrarem umas nas outras, cometerem, enfim, esses pequenos desatinos que se observam no convívio dos hotéis, há uma cordialidade generalizada que arredonda as arestas da agressividade.

      Acontece, porém, que encontro um sábio que anda perdido sob estas árvores. E o sábio não participa do otimismo geral. O sábio está desgostoso com os apartamentos que já se vão acumulando neste lugar de fontes privilegiadas. Ele vê as coisas em profundidade, e suas previsões são desanimadoras. A bacia destas águas está ameaçada pelas construções que vão sendo feitas indiscriminadamente. A floresta primitiva está quase desaparecida, e não está sendo recomposta, para a devida proteção dos mananciais. Os sábios são, como os artistas, quase sempre melancólicos. Porque avistam mais longe, porque antes que as coisas aconteçam já estão padecendo com as suas consequências... O sábio amava as águas miraculosas. Estava sofrendo por elas. Era a única pessoa triste, no meio de tanto bom humor. Mas era a pessoa mais esclarecida. E, por sua causa, e por sua sapiência, aquele paraíso me pareceu precário, e fiquei também inclinada sobre Lindoia, carpindo, desde já, a possibilidade do seu desaparecimento...

(Adaptado de: MEIRELES, Cecília. Ilusões do mundo. São Paulo: Global Editora, 2014, 1a edição digital) 

Na crônica, um encontro com um homem sábio fez com que a autora
  1. Ase decepcionasse com o pessimismo demonstrado por ele.
  2. Bpassasse a lamentar a falta de conservação ambiental de Lindoia.
  3. Cse sentisse disposta a lançar novo olhar sobre o poder de cura das fontes de Lindoia.
  4. Dcompreendesse, para sua decepção, que as águas de Lindoia não eram de fato miraculosas.
  5. Elevasse em conta a ideia de que a natureza, por ser finita, deve ser apreciada.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — passasse a lamentar a falta de conservação ambiental de Lindoia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O encontro com o sábio e a nova perspectiva da autora

Gabarito: letra B. O encontro com o homem sábio fez a autora passar a lamentar a falta de conservação ambiental de Lindoia, conforme expresso no trecho final: "E, por sua causa, e por sua sapiência, aquele paraíso me pareceu precário, e fiquei também inclinada sobre Lindoia, carpindo, desde já, a possibilidade do seu desaparecimento…". A autora, antes em meio ao bom humor geral, adota a preocupação do sábio com o futuro do local.

Análise do comando: O enunciado pede uma compreensão/inferência direta: qual foi a consequência do encontro com o sábio sobre a autora. A resposta está explícita na conclusão do texto, quando a autora diz que passou a "carpir" (lamentar) o possível desaparecimento de Lindoia, motivada pelas informações do sábio sobre a degradação ambiental.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que a autora se decepcionou com o pessimismo do sábio. O texto, ao contrário, mostra respeito e concordância: "Era a única pessoa triste, no meio de tanto bom humor. Mas era a pessoa mais esclarecida. E, por sua causa, e por sua sapiência, aquele paraíso me pareceu precário". Não há decepção, e sim adesão à visão do sábio.

Erro: Contradiz o texto.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A passagem final comprova: "fiquei também inclinada sobre Lindoia, carpindo, desde já, a possibilidade do seu desaparecimento". O sábio havia alertado que a bacia das águas estava ameaçada pelas construções e que a floresta primitiva quase desaparecera. A autora, então, passa a lamentar a falta de conservação.

Alternativa C — ❌ Incorrente

Diz que a autora lançou novo olhar sobre o poder de cura das fontes. O texto não menciona qualquer mudança de opinião sobre o poder curativo; a autora sempre apreciou as maravilhas das águas. A preocupação nova é com a conservação ambiental, não com a eficácia das águas.

Erro: Extrapola e tangencia o tema (troca o foco da conservação para a eficácia curativa).

Alternativa D — ❌ Invorreta

Sustenta que a autora compreendeu, para sua decepção, que as águas não eram miraculosas. O texto, no entanto, afirma que ela continuou a apreciar as curas relatadas: "Aprecio essas maravilhas que me são referidas". E chama as águas de "miraculosas" ao final: "O sábio amava as águas miraculosas". Não há decepção ou negação do poder curativo.

Erro: Contradiz o texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Propõe que a autora levasse em conta a finitude da natureza e a necessidade de apreciá-la. O texto não aborda a finitude como ideia geral nem sugere "aproveitar" o que é finito. O foco é a preocupação com a degradação e a defesa da conservação. A alternativa introduz um conceito filosófico alheio ao texto.

Erro: Extrapola (acrescenta noção de "apreciação da finitude" ausente no texto).


NÃO CAIA NESSA!

A alternativa E parece atraente para quem associa "natureza finita" à ideia de preservação, mas o texto não fala em "apreciar" a finitude, e sim em lamentar o desaparecimento causado pela falta de conservação. A pegadinha é a extrapolação com um clichê ecológico que não está no texto.

Conclusão: A única alternativa que encontra amparo direto no texto é a B, que parafraseia a mudança de atitude da autora ao final da crônica.

Gabarito: letra B.

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