Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2019

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc058153
Banca
FCC
Órgão
Câmara de Fortaleza - CE
Ano
2019
− Quer esse menininho para o senhor? Pode levar.Aconteceu no Rio, como acontecem tantas coisas. O rapaz entrou no café da rua Luís de Camões e começou a oferecer o filho de seis meses. Em voz baixa, ao pé do ouvido, como esses vendedores clandestinos que nos propõem um relógio submersível. Com esta diferença: era dado, de presente. Uns não o levaram a sério, outros não acharam interessante a doação. Que iriam fazer com aquela coisinha exigente, boca aberta para mamar e devorar a escassa comida, corpo a vestir, pés a calçar, e mais dentista e médico e farmácia e colégio e tudo que custa um novo ser, em dinheiro e aflição?− Fique com ele. É muito bonzinho, não chora nem reclama. Não lhe cobro nada…Podia ser que fizesse aquilo para o bem do menino, um desses atos de renúncia que significam amor absoluto. O tom era sério, e a cara, angustiada. O rapaz era pobre, visivelmente. Mas todos ali o eram também, em graus diferentes. E a ninguém apetecia ganhar um bebê, ou, senão, quem nutria esse desejo o sofreava. Mesmo sem jamais ter folheado o Código Penal, toda gente sabe que carregar com filho dos outros dá cadeia, muita.Mas o pai insistia, com bons modos e boas razões: desempregado, abandonado pela mulher. O bebê, de olhinhos tranquilos, olhava sem reprovação para tudo. De fato, não era de reclamar, parecia que ele próprio queria ser dado. Até que apareceu uma senhora gorda e topou o oferecimento:− Já tenho seis lá em casa, que mal faz inteirar sete? Moço, eu fico com ele. Disse mais que morava em Senador Camará, num sobradão assim assim, e lá se foi com o presente. O pai se esquecera de perguntar-lhe o nome, ou preferia não saber. Nenhum papel escrito selara o ajuste; nem havia ajuste. Havia um bebê que mudou de mãos e agora começa a fazer falta ao pai.− Praquê fui dar esse menino? − interroga-se ele. Chega em casa e não sabe como explicar à mulher o que fizera. Porque não fora abandonado por ela; os dois tinham apenas brigado, e o marido, no vermelho da raiva, saíra com o filho para dá-lo a quem quisesse.A mulher nem teve tempo de brigar outra vez. Correram os dois em busca do menino dado, foram ao vago endereço, perguntaram pela vaga senhora. Não há notícia. No estirão do subúrbio, no estirão maior deste Rio, como pode um bebê fazer-se notar? E logo esse, manso de natureza, pronto a aceitar quaisquer pais que lhe deem, talvez na pré-consciência mágica de que pais deixaram de ter importância.E o pai volta ao café da rua Luís de Camões, interroga um e outro, nada: ninguém mais viu aquela senhora. Disposto a procurá- -la por toda parte, ele anuncia:− Fico sem camisa, mas compro o menino pelo preço que ela quiser.(ANDRADE, Carlos Drummond de. “Caso de menino”. 70 historinhas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 101-102)Considere os trechos transcritos abaixo.I. Uns não o levaram a sério, outros não acharam interessante a doação. (2º parágrafo)II. E a ninguém apetecia ganhar um bebê, ou, senão, quem nutria esse desejo o sofreava. (4º parágrafo)III. O pai se esquecera de perguntar-lhe o nome, ou preferia não saber. (7º parágrafo)IV. Disposto a procurá-la por toda parte, ele anuncia: (10º parágrafo)Estabelecem uma relação de referência a uma expressão mencionada anteriormente no texto os termos sublinhados em
  1. AI, II, III e IV.
  2. BII e IV, apenas.
  3. CI, apenas.
  4. DI, II e III, apenas.
  5. EI e II, apenas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — I e II, apenas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial – anáfora

Gabarito: letra E (itens I e II apenas). A questão cobra a identificação dos termos sublinhados que retomam uma expressão mencionada anteriormente no texto (relação anafórica). Nos itens I e II, os termos sublinhados (respectivamente, o pronome "o" e o demonstrativo "esse desejo") retomam ideias expressas antes: "o" refere-se à oferta do filho; "esse desejo" refere-se a "ganhar um bebê". Já nos itens III e IV, os termos sublinhados (pronomes "lhe" e "la") referem-se a pessoas (a senhora gorda), mas não a expressões do texto – são referências exofóricas ou a entidades, não a palavras ditas. A banca considerou que apenas as retomadas de ideias verbais contam como "relação de referência a uma expressão mencionada anteriormente".

Item I – ✅ Correto

"Uns não o levaram a sério"

O pronome oblíquo "o" retoma a ação de oferecer o filho ou a própria proposta de doação, expressa no parágrafo anterior. É uma anáfora que estabelece coesão referencial.

Item II – ✅ Correto

"quem nutria esse desejo o sofreava"

O demonstrativo "esse desejo" retoma a expressão "ganhar um bebê", mencionada logo antes no mesmo período. Também é uma referência anafórica clara.

Item III – ❌ Incorreta

"O pai se esquecera de perguntar-lhe o nome"

O pronome "lhe" refere-se à senhora gorda, que é uma personagem, mas o termo sublinhado não retoma uma expressão textual propriamente dita, e sim um ser do discurso. Para a banca, isso não configura "relação de referência a uma expressão mencionada anteriormente", pois o foco está no referente extralinguístico.

Item IV – ❌ Incorreta

"Disposto a procurá-la por toda parte"

O mesmo raciocínio: "la" retoma a mesma senhora, mas é uma referência a um ser, não a uma expressão linguística anterior. Portanto, não se enquadra no que a questão pede.

Conclusão: Apenas os itens I e II atendem à condição de retomar uma expressão do texto. Logo, a resposta correta é a letra E.

Gabarito: letra E.

Link permanente: /questoes/fc058153