Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2020
Português›Interpretação de Textos
Código
fc059092
Banca
FCC
Órgão
AL-AP
Ano
2020
Cargo
Analista Legislativo - Técnico Legislativo
Atenção: Para responder à questão, considere o texto a seguir:
O texto não deve ser entendido como um objeto computável. Seria vão tentar separar materialmente as obras dos textos. Em particular, não se deve ser levado a dizer: a obra é clássica, o texto é de vanguarda; não se trata de estabelecer, em nome da modernidade, um quadro de honra grosseiro e declarar certas produções literárias in e outras out em razão de sua situação cronológica: pode haver “Texto” numa obra muito antiga, e muitos produtos da literatura contemporânea não são em nada textos. A diferença é a seguinte: a obra é um fragmento de uma substância, ocupa alguma porção do espaço dos livros (por exemplo, numa biblioteca). Já o Texto é um campo metodológico. A oposição poderia lembrar (mas de modo algum reproduzir termo a termo) a distinção proposta por Lacan: a “realidade” se mostra, o “real” se demonstra; da mesma forma, a obra se vê (nas livrarias, nos fichários, nos programas de exame), o texto se demonstra, se fala segundo certas regras; a obra segura-se na mão, o texto mantémse na linguagem: ele só existe tomado num discurso (ou melhor, é o Texto pelo fato mesmo de o saber); o Texto não é a decomposição da obra, é a obra que é a cauda imaginária do Texto. Ou ainda: só se prova o Texto num trabalho, numa produção. A consequência é que o Texto não pode parar (por exemplo, numa prateleira de biblioteca); o seu movimento constitutivo é a travessia (ele pode especialmente atravessar a obra, várias obras).
(BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: O rumor da língua. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012, p. 67)
Ao conceituar Texto e obra, Roland Barthes efetiva
Aum sofisma, ao concluir a oposição entre os conceitos com a metáfora da travessia.
Buma análise, apresentando argumentos que contrapõem os dois conceitos.
Cuma apologia, quando estabelece uma oposição entre os dois conceitos.
Duma recomendação, ao indicar metodologicamente como elaborar um texto moderno.
Euma informação, destacando os resultados da oposição entre os dois conceitos.
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GabaritoB — uma análise, apresentando argumentos que contrapõem os dois conceitos.
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Oposição entre Texto e Obra: Análise de Roland Barthes
Gabarito: letra B. Barthes efetiva uma análise, pois contrapõe os conceitos de Texto e obra por meio de argumentos que demonstram suas diferenças, como se lê no trecho: “A diferença é a seguinte: a obra é um fragmento de uma substância, ocupa alguma porção do espaço dos livros… Já o Texto é um campo metodológico.” A resposta está na estrutura do texto: ele não faz sofisma, apologia, recomendação ou mera informação – apresenta contraposições explicativas.
Barthes: Texto × Obra: Obra (Fragmento de substância, Ocupa espaço físico, Segura-se na mão); Texto (Campo metodológico, Demonstra-se, Mantém-se na linguagem, Movimento: travessia); Relação entre ambos (Oposição conceitual (não valorativa), Podem coexistir (Texto em obra antiga))
Alternativa A — ❌ Incorreta
O texto não conclui com um sofisma (argumento falso disfarçado de verdadeiro). A metáfora da travessia (“o seu movimento constitutivo é a travessia”) é uma consequência lógica da definição, não uma falácia. A alternativa confunde metáfora explicativa com raciocínio enganoso.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Barthes desenvolve uma análise ao apresentar argumentos que contrapõem os dois conceitos. O texto inteiro é uma exposição de contrastes: “a obra se vê… o texto se demonstra”; “a obra segura-se na mão, o texto mantém-se na linguagem”. A passagem “A diferença é a seguinte…” inaugura a análise comparativa, e as frases seguintes a desenvolvem. Portanto, a alternativa B descreve corretamente o que o autor efetiva.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Apologia significa defesa entusiástica ou elogio. Barthes não está exaltando o Texto em detrimento da obra; ele apenas estabelece uma oposição conceitual neutra, mostrando que ambos podem coexisir (“pode haver ‘Texto’ numa obra muito antiga”). A palavra “oposição” no texto é descritiva, não valorativa. A alternativa atribui um tom panegírico que não existe.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O texto não é uma recomendação metodológica de como elaborar um texto moderno. Barthes não dá instruções; ele define e distingue conceitos. A menção a “campo metodológico” refere-se à natureza do Texto, não a um manual de produção. A alternativa extrapola o conteúdo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Barthes não se limita a informar resultados da oposição; ele argumenta para demonstrar as diferenças. A tese central é construída por meio de contrapontos (obra vs. Texto), o que caracteriza análise, não mera informação. A alternativa reduz o propósito do texto.
Conclusão: A única alternativa que se sustenta integralmente no texto é a B, pois Barthes realiza uma análise comparativa entre Texto e obra, apoiada em argumentos explícitos. As demais ou confundem o gênero textual (sofisma, apologia) ou restringem/ampliam indevidamente a intenção do autor (recomendação, informação). Gabarito: letra B.