1. Ninguém é responsável pelo funcionamento do mundo. Nenhum de nós precisa acordar cedo para acender as caldeiras e
checar se a Terra está girando em torno do seu próprio eixo na velocidade apropriada e em torno do Sol, de modo a garantir a correta
sucessão das estações. Como num prédio bem administrado, os serviços básicos do planeta são providenciados sem que se enxergue o síndico − e sem taxa de administração. Imagine se coubesse à humanidade, com sua conhecida tendência ao desleixo e à
improvisação, manter a Terra na sua órbita e nos seus horários, ou se − coroando o mais delirante dos sonhos liberais − sua gerência
fosse entregue a uma empresa privada, com poderes para remanejar os ventos e suprimir correntes marítimas, encurtar ou alongar
dias e noites, e até mudar de galáxia, conforme as conveniências de mercado, e ainda por cima sujeita a decisões catastróficas,
fraudes e falência.
2. É verdade que, mesmo sob o atual regime impessoal, o mundo apresenta falhas na distribuição dos seus benefícios, favorecendo alguns andares do prédio metafórico e martirizando outros, tudo devido ao que só pode ser chamado de incompetência
administrativa. Mas a responsabilidade não é nossa. A infraestrutura já estava pronta quando nós chegamos. Apesar de tentativas
como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras
do seu funcionamento.
3. Podemos, isto sim, é colaborar na manutenção da Terra. Todos os argumentos conservacionistas e ambientalistas teriam mais
força se conseguissem nos convencer de que somos inquilinos no mundo. E que temos as mesmas obrigações de qualquer inquilino,
inclusive a de prestar contas por cada arranhão no fim do contrato. A escatologia cristã deveria substituir o Salvador que virá pela
segunda vez para nos julgar por um Proprietário que chegará para retomar seu imóvel. E o Juízo Final, por um cuidadoso inventário
em que todos os estragos que fizemos no mundo seriam contabilizados e cobrados.
4. − Cadê a floresta que estava aqui? − perguntaria o Proprietário. − Valia uma fortuna.
5. E:
6. − Este rio não está como eu deixei…
7. E, depois de uma contagem minuciosa:
8. − Estão faltando cento e dezessete espécies.
9. A Humanidade poderia tentar negociar. Apontar as benfeitorias − monumentos, parques, áreas férteis onde outrora existiam
desertos − para compensar a devastação. O Proprietário não se impressionaria.
10. − Para que eu quero o Taj Mahal? Sete Quedas era muito mais bonita.
11. − E a Catedral de Chartres? Fomos nós que construímos. Aumentou o valor do terreno em…
12. − Fiquem com todas as suas catedrais, represas, cidades e shoppings, quero o mundo como eu o entreguei.
13. Não precisamos de uma mentalidade ecológica. Precisamos de uma mentalidade de locatários. E do terror da indenização.
(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 19-22)
(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. O mundo é bárbaro e o que nós temos a ver com isso. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010, p. 19-22)
Em Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento, o trecho destacado expressa uma
Afinalidade.
Brestrição.
Cexplicação.
Dconcessão.
Econsequência.
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GabaritoD — concessão.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Relação semântica do conectivo "Apesar de"
Gabarito: letra D. O trecho destacado "Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas" expressa concessão, pois apresenta um fato que poderia impedir a conclusão, mas não a impede — exatamente o valor semântico do conectivo "apesar de". Como se lê no 2º parágrafo do Texto 02:
"Apesar de tentativas como a construção de grandes obras que afetam o clima e redistribuem as águas, há pouco que podemos fazer para alterar as regras do seu funcionamento."
A oração concessiva admite a existência das tentativas (construção de grandes obras), mas afirma que, mesmo assim, a capacidade de alterar as regras é pequena. É a relação de concessão: uma ideia contrária à principal, porém insuficiente para vencê-la.
A chave de resolução
A questão pede que você identifique a relação semântica introduzida pelo conectivo "apesar de". Não é preciso interpretar o texto além do trecho: basta reconhecer o valor do conectivo. Conectivos como apesar de, embora, ainda que, conquanto, mesmo que são concessivos — indicam que a ideia que introduzem é uma objeção esperada, mas que não impede a realização do fato principal.
Compare com outros valores:
Conectivo
Relação
Exemplo
apesar de
concessão
Apesar da chuva, fomos à praia.
para
finalidade
Estudamos para passar.
porque
causa/explicação
Não fui porque choveu.
portanto
consequência
Choveu, portanto não fui.
mas
oposição/restrição
Queria ir, mas choveu.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Finalidade indica o objetivo de uma ação, normalmente introduzida por "para", "a fim de", "com o intuito de". No trecho, "apesar de" não expressa finalidade — não há intenção ou propósito. A banca oferece essa opção para testar se você confunde conectivos de finalidade com os de concessão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Restrição é uma limitação imposta a algo, frequentemente expressa por "mas", "porém", "contudo", "todavia". No trecho, "apesar de" não restringe a ação principal; ele admite uma circunstância contrária, mas não a impõe como limite. A pegadinha aqui é sutil: a concessão parece restringir, mas semanticamente é diferente — a restrição nega ou limita, a concessão reconhece e supera.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Explicação é uma justificativa ou causa, introduzida por "porque", "pois", "já que". O trecho não explica por que há pouco a fazer; ele apresenta uma circunstância contrária a essa conclusão. A relação é de oposição, não de causa.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Concessão é a relação em que se admite um fato contrário à ideia principal, mas que não a invalida. No trecho, "apesar de" introduz as tentativas (construção de grandes obras) que poderiam sugerir que podemos alterar as regras, mas o autor afirma que há pouco que podemos fazer. A concessão está exatamente nesse contraste: reconhece o esforço, mas nega sua eficácia.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Consequência é o resultado de uma causa, introduzida por "portanto", "logo", "assim", "de modo que". No trecho, "apesar de" não introduz uma consequência; ele introduz uma circunstância concessiva. A consequência estaria em "há pouco que podemos fazer", mas essa é a oração principal, não a destacada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre concessão e restrição. "Apesar de" parece restringir, mas semanticamente é concessivo: admite a objeção sem impedir a conclusão. Fique atento ao valor do conectivo, não ao sentido intuitivo.
PEGA ESSA DICA!
Decore os conectivos concessivos: apesar de, embora, ainda que, conquanto, mesmo que, se bem que. Quando aparecerem, a relação é de concessão — a ideia contrária não vence a principal.