Questão de Pedagogia — Currículo (Teoria e Prática) — FCC 2022
- Código
- fc063163
- Banca
- FCC
- Órgão
- SEDU-ES
- Ano
- 2022
- Cargo
- Professor MaPB Pedagogo
- AII e IV.
- BII e III.
- CIII e IV.
- DI e II.
- EI e IV.
GabaritoE — I e IV.
Gabarito: letra E. O currículo prescrito é um conjunto de decisões normativas, fundamentadas por princípios educativos valorizados em um determinado sistema de ensino (assertiva IV), e sua finalidade é permitir que o professor escolha conteúdos, competências e habilidades a serem ensinados, de acordo com a realidade dos alunos (assertiva I). As assertivas II e III estão incorretas porque apresentam o currículo prescrito como um documento rígido, sem adaptações, e como uma mera lista de temas, desconsiderando sua natureza de orientação e sua fundamentação em princípios educativos.
O currículo prescrito, também chamado de currículo formal ou oficial, é aquele que existe no papel, materializado em documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e as diretrizes curriculares. Ele representa o planejamento educacional em nível de sistema, definindo o que se espera que seja ensinado. No entanto, é fundamental compreender que o currículo prescrito não é um fim em si mesmo, mas um ponto de partida. Ele não determina de forma absoluta o que acontece em sala de aula, pois o professor, ao considerar a realidade de seus alunos, o contexto social e cultural, e sua própria prática, realiza uma "tradução" ou "recontextualização" desse currículo. É aqui que entra a distinção entre o currículo formal (prescrito), o currículo real (o que de fato é aplicado) e o currículo oculto (os valores e atitudes implícitos no cotidiano escolar).
A literatura sobre currículo, especialmente a partir das teorias críticas, enfatiza que o currículo não é neutro. A seleção de conteúdos, competências e habilidades envolve escolhas que refletem relações de poder, interesses ideológicos, sociais e econômicos. Por isso, o currículo prescrito, embora seja uma norma, deve ser compreendido como um documento que expressa determinados princípios educativos e que, ao mesmo tempo, precisa ser interpretado e adaptado pelo professor para fazer sentido na realidade específica de seus alunos. A assertiva I captura exatamente essa dimensão: a finalidade do currículo prescrito é servir de referência para que o professor faça escolhas pedagógicas contextualizadas. Já a assertiva IV destaca sua natureza normativa e fundamentada em princípios, o que é igualmente correto.
A pegadinha da questão está em confundir o caráter normativo do currículo prescrito com uma rigidez absoluta. As assertivas II e III caem nessa armadilha ao afirmarem que o currículo prescrito determina o que deve ser trabalhado "sem adaptações" ou que é apenas "uma lista de temas e conteúdos". A banca explora a visão ingênua de que o documento oficial é um roteiro fechado, quando, na verdade, ele é uma orientação que pressupõe a ação docente autônoma e contextualizada. O professor não é um mero executor; ele é um agente que, a partir do currículo prescrito, planeja e desenvolve o currículo real, considerando as especificidades de seus alunos. Essa é a fronteira que separa as assertivas corretas das incorretas: a presença ou ausência da ideia de adaptação, contextualização e fundamentação em princípios.
A assertiva I está correta ao afirmar que a finalidade do currículo prescrito é permitir que o professor escolha conteúdos, competências e habilidades, de acordo com a realidade dos alunos. Isso reflete a concepção de que o currículo prescrito é um ponto de partida, não um fim em si mesmo. O professor, ao receber o documento oficial, deve interpretá-lo e adaptá-lo ao seu contexto, selecionando o que é mais relevante para seus alunos. Essa ideia está alinhada com a noção de que o currículo real é construído na prática, a partir do currículo formal. A LDB, em seu art. 26, reforça essa perspectiva ao estabelecer que os currículos devem ter uma base nacional comum, complementada por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos. Ou seja, a própria lei prevê a adaptação do currículo à realidade.
A assertiva II está incorreta ao afirmar que o currículo prescrito é um documento oficial obrigatório que determina o que deve ser trabalhado "sem adaptações". Essa visão é equivocada e reducionista. O currículo prescrito, embora seja um documento oficial, não é um roteiro rígido. Ele estabelece diretrizes, mas a sua aplicação em sala de aula exige adaptações, considerando o contexto, os alunos e a prática docente. A ideia de "sem adaptações" contraria a própria natureza do currículo, que é dinâmico e contextualizado. A literatura sobre currículo, como a de Gimeno Sacristán, destaca que o currículo prescrito não corresponde exatamente ao currículo real aplicado na escola, pois há uma "práxis" que transforma o prescrito dentro da institucionalidade.
A assertiva III está incorreta ao definir o currículo prescrito como "uma lista de temas e conteúdos publicada em forma de legislação para determinar o que o professor deve ensinar". Essa definição é superficial e incompleta. O currículo prescrito não é apenas uma lista de temas; ele é um conjunto de decisões normativas fundamentadas em princípios educativos, como afirma a assertiva IV. Além disso, a palavra "determinar" sugere uma relação de imposição, quando, na verdade, o currículo prescrito serve de orientação para o trabalho docente, que deve ser adaptado à realidade dos alunos. O currículo prescrito expressa uma intencionalidade educativa, mas não esgota a complexidade do processo de ensino-aprendizagem.
A assertiva IV está correta ao afirmar que o currículo prescrito é um conjunto de decisões normativas, fundamentadas por princípios educativos valorizados em um determinado sistema de ensino. Essa é a definição mais precisa e completa entre as apresentadas. O currículo prescrito é, de fato, uma norma, mas uma norma que carrega consigo uma visão de educação, de sociedade e de sujeito. Ele é fruto de escolhas que refletem os valores e as prioridades de um dado sistema de ensino. Essa definição está alinhada com as teorias críticas do currículo, que entendem o currículo como um campo de disputa e de poder, onde se define o que é considerado conhecimento válido.
Conclusão: Corretos os itens I e IV, portanto a alternativa correta é a letra E.
Gabarito: letra E
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