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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063315
Banca
FCC
Órgão
SEFAZ-AP
Ano
2022
Cargo
Auditor da Receita Estadual - Conhecimentos Gerais
Atenção: Leia o texto a seguir para responder à questão. 


Renato Mendonça e A influência africana no português do Brasil, um estudo pioneiro de africanias no português brasileiro



   A partir de uma definição da antropóloga Nina Friedemann em “Comunidades negras: refúgios de africanias na Colômbia”, podemos entender africanias como a bagagem cultural submergida no inconsciente iconográfico dos negroafricanos entrados no Brasil em escravidão, que se faz perceptível na língua, na música, na dança, na religião, no modo de ser e de ver o mundo, e que, no decorrer dos séculos, como forma de resistência e de continuidade na opressão, transformou-se e converteu-se em matrizes partícipes da construção de um novo sistema cultural e linguístico que nos identifica como brasileiros.

   São essas matrizes que, na década de 1930, o diplomata, escritor e pesquisador alagoano Renato Firmino Maia de Mendonça (1912 – 1990), em sua monografia sobre A influência africana no português do Brasil, trata de pontuar na formação da modalidade da língua portuguesa no Brasil, em nossas tradições orais e na literatura brasileira.
   
    Em 1933, a 1a edição foi publicada pela Gráfica Sauer com prefácio de Rodolfo Garcia, trazendo o mapa da distribuição do elemento negro no Brasil colonial e imperial. Em 1935, sai a 2a edição pela Companhia Editora Nacional, na Coleção Brasiliana, ilustrada com mapas e fotografias e aumentada em dois capítulos, um esboço histórico sobre o tráfico e um ensaio sobre o negro na literatura brasileira. Também de caráter inovador são os mapas toponímicos com localidades designadas por nomes africanos no Brasil, da autoria do geógrafo Carlos Marie Cantão, que vêm em addendum, ao final do livro. A 3a edição, de 1948, é publicada no Porto pela Figueirinhas. Em 1972 e 1973, a 2a edição é republicada pela Civilização Brasileira.

   Ao lado de Jacques Raimundo, que coincidentemente publicou, pela Renascença, em 1933, O elemento afro-negro na língua portuguesa, a obra de Renato Mendonça é um estudo de referência obrigatória nessa importante área de pesquisa, cuja repercussão científica corresponde a menos do que seu valor real, em razão da tendência de esse conhecimento ser considerado, por linguistas e filólogos, mais como objeto de pesquisa dos africanistas e dos especialistas em estudos “afro-brasileiros” – assim denominados como uma palavra composta de acordo com a grafia consagrada e recomendada pelo recente acordo ortográfico. Neste contexto, separado por um traço de união em lugar simplesmente de se escrever afrobrasileiros, o termo afro, tratado como um prefixo, reflete de maneira subliminar aquela tendência. Destaca-se como se fosse um aparte eventual no processo e não a parte afrobrasileira inscrita em nossa identidade cultural e linguística.

   Dentro desse plano de entendimento, Renato Mendonça coloca e avalia a interferência que aquelas vozes de mais de quatro milhões de negros escravizados, no decorrer de três séculos consecutivos, imprimiram naquela língua portuguesa que eles foram obrigados a falar como segunda língua no Brasil. Ao mesmo tempo, Mendonça enriquece e alarga suas análises baseado em uma bibliografia ainda hoje consistente e de grande valia para os estudos atuais sobre a história e a etnografia africanas e suas línguas, principalmente sobre as que foram faladas no Brasil, as quais ele adequadamente chama de negroafricanas.


(Adaptado de: CASTRO, Yeda Pessoa de. Prefácio − Renato Mendonça e A influência africana no português do Brasil, um estudo pioneiro de
africanias no português brasileiro. In: Mendonça, Renato. A influência africana no Português do Brasil. Brasília: Fundação Alexandre de
Gusmão, 2012, p. 15-16)


Observações:
1. Addendum: adendo, apêndice.
Vai ao encontro de ideia presente no texto o seguinte comentário:
  1. A“Quando se pensa a realidade linguística do Brasil em seu conjunto, não se pode deixar de ter em conta o grande abismo que separa uma minoria, que desfruta de bens e serviços do universo da cidadania, da grande maioria, que pouco ou nenhum acesso tem aos bens de consumo, aos serviços sociais e aos direitos sociais básicos.”
  2. B“Na medida em que grande parte de seus antepassados eram “peças” (seres humanos reduzidos à condição de coisa, para usufruto de seus senhores), deve-se pensar que esses falares se formaram no grande cadinho que fundiu, na fornalha da escravidão em massa, as etnias originárias e as etnias africanas na forma do colonizador europeu.”
  3. C“Se é a língua do colonizador – o português – que se impõe aos diferentes segmentos sociais no Brasil, não se pode deixar de perceber nela as marcas dos processos de aquisição e de nativização por estrangeiros.”
  4. D“Nos casos mais radicais das comunidades mais isoladas, continuariam em uso variedades crioulizadas do português, como os remanescentes do ‘falar crioulo’ descobertos, em Helvécia, no Extremo Sul do Estado da Bahia, por Carlota Ferreira.”
  5. E“Certos processos de variação e mudança induzidos pelas situações de contato maciço do português com línguas indígenas e africanas puderam penetrar nas camadas médias e altas, generalizando-se no português brasileiro como um todo.”
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GabaritoC — “Se é a língua do colonizador – o português – que se impõe aos diferentes segmentos sociais no Brasil, não se pode deixar de perceber nela as marcas dos processos de aquisição e de nativização por estrangeiros.”

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A influência africana no português do Brasil – ideia central

Gabarito: letra C. A alternativa C parafraseia a tese principal do texto de Yeda Pessoa de Castro: a língua do colonizador (o português) se impôs, mas nela ficaram marcados os processos de aquisição por estrangeiros (os africanos escravizados). Lê-se no texto que o autor "coloca e avalia a interferência que aquelas vozes de mais de quatro milhões de negros escravizados imprimiram naquela língua portuguesa que eles foram obrigados a falar como segunda língua no Brasil". A alternativa C diz exatamente isso: a língua se impõe, mas traz marcas da aquisição por estrangeiros.

Alternativa A — ❌ Incorreta

“Quando se pensa a realidade linguística do Brasil em seu conjunto, não se pode deixar de ter em conta o grande abismo que separa uma minoria... da grande maioria...”

Erro: tangencia o tema. O texto não aborda desigualdade social ou acesso a bens e serviços. Fala de influência africana na língua, não de estratificação socioeconômica. A alternativa extrapola para um assunto alheio ao texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“...esses falares se formaram no grande cadinho que fundiu, na fornalha da escravidão em massa, as etnias originárias e as etnias africanas na forma do colonizador europeu.”

Erro: contradiz o texto. O texto afirma que a língua portuguesa foi imposta aos africanos, que a falaram como segunda língua. Não diz que houve uma "fusão" igualitária ("cadinho") entre etnias. Pelo contrário, destaca a situação de opressão e a continuidade das africanias como resistência. A palavra "cadinho" sugere uma mistura homogênea e simétrica, o que não corresponde à ideia de imposição e resistência presente no texto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Se é a língua do colonizador – o português – que se impõe aos diferentes segmentos sociais no Brasil, não se pode deixar de perceber nela as marcas dos processos de aquisição e de nativização por estrangeiros.”

Justificativa: O texto sustenta exatamente essa ideia: "coloca e avalia a interferência que aquelas vozes de mais de quatro milhões de negros escravizados [...] imprimiram naquela língua portuguesa que eles foram obrigados a falar como segunda língua no Brasil". A alternativa reconhece a imposição ("a língua do colonizador [...] se impõe") e, ao mesmo tempo, aponta as marcas deixadas pelos falantes não nativos ("marcas dos processos de aquisição e de nativização por estrangeiros"). É uma paráfrase correta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Nos casos mais radicais das comunidades mais isoladas, continuariam em uso variedades crioulizadas do português, como os remanescentes do ‘falar crioulo’ descobertos, em Helvécia...”

Erro: extrapolação. O texto não menciona variedades crioulizadas ou o caso de Helvécia. Fala de "africanias" e da influência africana no português como um todo, mas não entra em exemplos específicos de comunidades isoladas ou crioulos. A alternativa insere informação que está fora do texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Certos processos de variação e mudança induzidos pelas situações de contato maciço do português com línguas indígenas e africanas puderam penetrar nas camadas médias e altas, generalizando-se no português brasileiro como um todo.”

Erro: contradiz/ restringe. O texto não faz distinção por camadas sociais; afirma que a influência se deu em toda a língua falada pelos negros escravizados. Além disso, a alternativa menciona também "línguas indígenas", que não são o foco do texto (o texto trata exclusivamente de influência africana). A expressão "puderam penetrar" sugere possibilidade, enquanto o texto trata como fato consumado.

Conclusão: A única alternativa que reflete fielmente a ideia do texto é a letra C, que reconhece a imposição do português e as marcas deixadas pelos falantes africanos.

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