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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063810
Banca
FCC
Órgão
TJ-CE
Ano
2022
Cargo
Analista Judiciário - Ciência da Computação - Infraestrutura de TI

Atenção: Para responder à questão, leia o início do conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis.  


        Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela, trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.

        A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça*; mas afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.

        Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.

        Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.

        — Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.

        — Leio, D. Inácia.

        Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D'Artagnan e fui-me às aventuras. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura.

(Adaptado de: Machado de Assis. Contos: uma antologia. São Paulo: Companhia das Letras, 1988)

*comborça: qualificação humilhante da amante de homem casado 

No contexto, denota incerteza o verbo sublinhado em:
  1. A“A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto.”
  2. B“Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.”
  3. C“A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses.”
  4. D“Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo.”
  5. E“Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio.”
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GabaritoE — “Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio.”

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Denotação de Incerteza em Verbos

Gabarito: letra E. O verbo "creio" (1ª pessoa do presente do indicativo de crer) expressa opinião pessoal, ou seja, incerteza sobre a informação — o narrador não afirma com segurança que a tradução era do Jornal do Comércio, apenas acredita ser. As demais alternativas trazem verbos que indicam fatos ou ações certas, sem dúvida.

Verbos denotam incerteza
  • 1Creio (opinião pessoal)
    • Narrador acredita, não afirma
  • 2Ações concretas (sem dúvida)
    • Recolheu-se / meti-me (A)
    • Levaria (intenção planejada) (B)
    • Estava / era (fato) (C)
    • Dizia / perdoava (hábito) (D)
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Análise de cada alternativa

Alternativa A — ❌ Incorreta

“A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto.”

Ambos os verbos indicam ações concretas realizadas: recolher-se e meter-se. Não há incerteza.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Tinha três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.”

O verbo "levaria" está no futuro do pretérito, mas expressa uma intenção planejada, não incerteza. O narrador afirma que levaria a chave.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses.”

"Estava" e "era" são verbos de estado que descrevem um fato incontestável no contexto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo.”

Ambos os verbos no pretérito imperfeito descrevem ações habituais e certas de Conceição.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio.”

O verbo "creio" (do verbo crer) é um verbo de opinião que denota incerteza: o narrador não afirma a origem da tradução, apenas acredita. É a única alternativa em que o verbo sublinhado expressa dúvida.

NÃO CAIA NESSA!

Não há pegadinha — a questão é direta: identificar o verbo que carrega sentido de incerteza. Basta reconhecer que "creio" é um verbo de opinião.

Gabarito: letra E.

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