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Questão de Português — Morfologia - Verbos — FCC 2022

PortuguêsMorfologia - Verbos
Código
fc063861
Banca
FCC
Órgão
TJ-CE
Ano
2022
Cargo
Analista Judiciário - Ciência da Computação - Sistemas da Informação
       Por que não aprendi a tocar violão? Sempre me constituiu motivo de tristeza e humilhação esta precária musicalidade. Uns tocam piano, existe até quem toque harpa. Eu, nem ao violão me afiz. E não se diga que era pouco o esforço de D. Chiquinha, minha mestra. Afinava, afinava, apertava as cravelhas, dava um dó agudíssimo na prima, depois outro dó grave no bordão...
     Eu pegava no violão de luxo que minha madrinha de crisma mandara do Pará, ajeitava-o mal e mal no colo, começava de boa vontade: dum, dum, dum...
       — Não! Valha-me Santa Cecília! Segunda! Mude!
       E eu: dum, dum, dum...
      Ai, música, divina música. D. Chiquinha carpia-se. Tanto sentimento de que ela dava exemplo, tanta devoção empregada à toa. Eu recomeçava, dócil: primeira, segunda...
       — D. Chiquinha, fiquei com uma bolha no dedo.
    Já não sei como a descobrimos: decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno. Cobrava dez mil-réis por mês e mais o dinheiro do bonde. Duas aulas por semana.
     Professora de violão, o seu sonho secreto fora sempre o violino, entretanto. Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário — uma rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul. Em certos dias de bom humor e segredo, ela pegava comovida o arco e executava ao violino a valsa dos Sinos de Comeville.
     Fora desfeita da sorte aquele meu fracasso, porque eu me supunha dotada e alimentava ambições. Chegara até a pensar, não digo em concertos, mas num brilhante recital de caridade em que aparecesse de vestido comprido (teria então uns doze anos) e, num belo contralto, cantasse ao violão certo tango argentino da minha preferência. Mas tudo neste mundo são vaidades: jamais atingi o tango argentino.
       Voltando a D. Chiquinha: o instrumento plebeu que ensinava constituía para minha mestra uma fonte de dissabores. A começar pelo apelido que lhe davam: D. Chiquinha do Violão. Quando alguém o repetia em sua frente, ela corrigia logo, irritada: — Chiquinha do Violão, não senhor. Francisca dos Santos. Violão não é meu dono.
       Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava. Para D. Chiquinha, a mais requintada manifestação de arte era a serenata. E dentro desse critério me ensinava visando talvez fazer de mim o que ela já fora em moça —- a musa de todos os seresteiros da cidade. Sim, não só objeto passivo de canções e arpejos noturnos mas musa ativa e colaborante. O seresteiro dizia da calçada a sua trova, e lá da penumbra da alcova a donzela tomava do violão e na mesma toada respondia. Eram essas as suas lembranças mais queridas, aqueles duelos musicais, canta tu de lá, canto eu de cá-e entre os dois o grupo desvanecido dos comparsas que ajudavam no acompanhamento.   
       Nos acompanhamentos, a nossa favorita era a modinha “A mais gentil das praieiras”. Dessa eu gostava muito. Porém a mão rebelde não me acompanhava o entusiasmo.


(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel. “A mais gentil das praieiras”. Melhores crônicas. São Paulo: Global Editora, 2012, 1? edição digital)  
Chegara até a pensar, não digo em concertos, mas num brilhante recital de caridade em que aparecesse de vestido comprido (teria então uns doze anos) e, num belo contralto, cantasse ao violão certo tango argentino da minha preferência.

Consideradas as relações de sentido estabelecidas pelo contexto, substituindo “Chegara" por “Cheguei”, os verbos sublinhados assumirão as seguintes formas: 
  1. Aapareceria — cantaria
  2. Baparecera -— cantarei
  3. Capareci — cante
  4. Dapareço — cantara
  5. Eaparecerei — canto
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — apareceria — cantaria

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Correlação verbal – substituição de tempos

Gabarito: letra A. Ao substituir “Chegara” (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) por “Cheguei” (pretérito perfeito do indicativo), os verbos “aparecesse” e “cantasse” (pretérito imperfeito do subjuntivo) devem ser substituídos pelas formas “apareceria” e “cantaria” (futuro do pretérito do indicativo), para manter a correlação temporal de hipótese situada no passado. A resposta é comprovada pelo próprio texto: a oração original expressa um pensamento hipotético da autora em relação à sua infância, e a mudança do verbo principal para o pretérito perfeito exige que os verbos das orações subordinadas (no caso, adjetivas com “em que”) passem ao futuro do pretérito, que é o tempo próprio para indicar ações possíveis ou futuras em relação a um ponto passado.

Trecho do texto: “Chegara até a pensar, não digo em concertos, mas num brilhante recital de caridade em que aparecesse de vestido comprido (teria então uns doze anos) e, num belo contralto, cantasse ao violão certo tango argentino da minha preferência.”

Com a troca para “Cheguei”, a frase reescrita seria: “Cheguei até a pensar... em que apareceria... e cantaria...”. Essa é a única alternativa que preserva o sentido original de hipótese no passado.

  1. 1Chegara (mais-que-perfeito)
  2. 2Aparecesse / Cantasse (imperfeito subjuntivo)
  3. 3↓ Substituição
  4. 4Cheguei (pretérito perfeito)
  5. 5Apareceria / Cantaria (futuro do pretérito)
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Apareceria — cantaria”: Futuro do pretérito do indicativo. Correlação perfeita: verbo principal no pretérito perfeito (ação passada concluída) seguido de verbos no futuro do pretérito (ação futura em relação a esse passado). Mantém a ideia de possibilidade ou plano não realizado, que é exatamente o sentido do trecho original.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Aparecera — cantarei”: Mistura pretérito mais-que-perfeito com futuro do presente, criando uma incoerência temporal. “Aparecera” indicaria uma ação anterior à do verbo principal (pretérito perfeito), o que não se sustenta; “cantarei” é futuro do presente, impossível no contexto passado.

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Apareci — cante”: “Apareci” é pretérito perfeito, que tornaria a ação simultânea ou anterior ao “pensar”, alterando o sentido. “Cante” está no presente do subjuntivo, que não se encaixa com o pretérito perfeito do verbo principal.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Apareço — cantara”: “Apareço” é presente do indicativo, incompatível com o passado do verbo principal. “Cantara” é pretérito mais-que-perfeito do indicativo, que também quebra a correlação, pois indicaria ação anterior, e não hipótese futura no passado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Aparecerei — canto”: “Aparecerei” é futuro do presente, e “canto” é presente do indicativo. Ambos são incompatíveis com o contexto passado estabelecido por “Cheguei”.

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões de correlação verbal, identifique o tempo do verbo principal e o tipo de relação (causa, hipótese, finalidade). Verbos no subjuntivo em orações subordinadas (como “aparecesse” e “cantasse”) geralmente se transformam em futuro do pretérito quando o verbo principal passa ao pretérito perfeito, desde que expressem hipótese ou desejo. Memorize a “tabela” de correlação: pretérito perfeito + futuro do pretérito (hipótese); pretérito imperfeito + pretérito imperfeito (simultaneidade); pretérito mais-que-perfeito + pretérito imperfeito do subjuntivo (ação anterior hipotética).

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