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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063863
Banca
FCC
Órgão
TJ-CE
Ano
2022
Cargo
Analista Judiciário - Ciência da Computação - Sistemas da Informação
       Por que não aprendi a tocar violão? Sempre me constituiu motivo de tristeza e humilhação esta precária musicalidade. Uns tocam piano, existe até quem toque harpa. Eu, nem ao violão me afiz. E não se diga que era pouco o esforço de D. Chiquinha, minha mestra. Afinava, afinava, apertava as cravelhas, dava um dó agudíssimo na prima, depois outro dó grave no bordão...
     Eu pegava no violão de luxo que minha madrinha de crisma mandara do Pará, ajeitava-o mal e mal no colo, começava de boa vontade: dum, dum, dum...
       — Não! Valha-me Santa Cecília! Segunda! Mude!
       E eu: dum, dum, dum...
      Ai, música, divina música. D. Chiquinha carpia-se. Tanto sentimento de que ela dava exemplo, tanta devoção empregada à toa. Eu recomeçava, dócil: primeira, segunda...
       — D. Chiquinha, fiquei com uma bolha no dedo.
    Já não sei como a descobrimos: decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno. Cobrava dez mil-réis por mês e mais o dinheiro do bonde. Duas aulas por semana.
     Professora de violão, o seu sonho secreto fora sempre o violino, entretanto. Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário — uma rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul. Em certos dias de bom humor e segredo, ela pegava comovida o arco e executava ao violino a valsa dos Sinos de Comeville.
     Fora desfeita da sorte aquele meu fracasso, porque eu me supunha dotada e alimentava ambições. Chegara até a pensar, não digo em concertos, mas num brilhante recital de caridade em que aparecesse de vestido comprido (teria então uns doze anos) e, num belo contralto, cantasse ao violão certo tango argentino da minha preferência. Mas tudo neste mundo são vaidades: jamais atingi o tango argentino.
       Voltando a D. Chiquinha: o instrumento plebeu que ensinava constituía para minha mestra uma fonte de dissabores. A começar pelo apelido que lhe davam: D. Chiquinha do Violão. Quando alguém o repetia em sua frente, ela corrigia logo, irritada: — Chiquinha do Violão, não senhor. Francisca dos Santos. Violão não é meu dono.
       Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava. Para D. Chiquinha, a mais requintada manifestação de arte era a serenata. E dentro desse critério me ensinava visando talvez fazer de mim o que ela já fora em moça —- a musa de todos os seresteiros da cidade. Sim, não só objeto passivo de canções e arpejos noturnos mas musa ativa e colaborante. O seresteiro dizia da calçada a sua trova, e lá da penumbra da alcova a donzela tomava do violão e na mesma toada respondia. Eram essas as suas lembranças mais queridas, aqueles duelos musicais, canta tu de lá, canto eu de cá-e entre os dois o grupo desvanecido dos comparsas que ajudavam no acompanhamento.   
       Nos acompanhamentos, a nossa favorita era a modinha “A mais gentil das praieiras”. Dessa eu gostava muito. Porém a mão rebelde não me acompanhava o entusiasmo.


(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel. “A mais gentil das praieiras”. Melhores crônicas. São Paulo: Global Editora, 2012, 1? edição digital)  
A narradora recorre à ironia na seguinte passagem:
  1. AEu, nem ao violão me afiz.
  2. BNas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário.
  3. Cdecerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno.
  4. DMas tudo neste mundo são vaidades.
  5. EPor música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário.

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Identificação de ironia textual

Gabarito: letra B. A narradora emprega ironia ao chamar de "estradivário" um violino velho e fanhoso, criando contraste cômico entre o nome nobre e a realidade precária do instrumento.

A ironia consiste em afirmar o oposto do que se quer significar, com tom crítico ou humorístico. No texto, após mencionar que D. Chiquinha guardava "o seu estradivário", a narradora revela que se tratava de "uma rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul". A desproporção entre o termo "estradivário" (violino de altíssimo valor) e a descrição do objeto confirma a intenção irônica.

"Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário — uma rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul."

Alternativa

Transcrição

Presença de Ironia

Justificativa

A

"Eu, nem ao violão me afiz."

❌

Afirmação direta sobre inabilidade pessoal; sem contraste entre dito e significado.

B

"Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário."

✅

Ironia: chama de "estradivário" (violino valioso) um instrumento velho e fanhoso, criando contraste cômico.

C

"decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno."

❌

Suposição sobre a rotina da professora; sem intenção irônica.

D

"Mas tudo neste mundo são vaidades."

❌

Reflexão filosófica literal sobre desilusão; não há ironia.

E

"Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava."

❌

Constatação direta sobre preferência musical; sem ironia.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Eu, nem ao violão me afiz." Afirmação direta sobre a própria inabilidade. Não há ironia.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Conforme demonstrado, o contraste entre "estradivário" e a descrição do instrumento revela ironia.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno." Suposição da narradora sobre a rotina da professora, sem ironia.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Mas tudo neste mundo são vaidades." Reflexão filosófica sobre a frustração pessoal. Expressão literal de desilusão, não irônica.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava." Constatação sobre a preferência musical de D. Chiquinha. Afirmação direta, sem ironia.

A única passagem em que a narradora diz o contrário do que realmente significa, com efeito humorístico, é a alternativa B.

Gabarito: letra B.

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