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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063938
Banca
FCC
Órgão
TJ-CE
Ano
2022
Cargo
Analista Judiciário - Área Judiciária

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo. 


O exercício da crônica 

  Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um romancista, na qual este é levado pelas personagens e situações que criou.
   Alguns cronistas escrevem de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali desses pequenos achados que são sua marca registrada. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono. Outros ainda, e constituem a maioria, “tacam o peito” na máquina de escrever e cumprem o dever cotidiano da crônica como uma espécie de desespero, numa atitude de “ou vai ou racha”.
   Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores; e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar a gente não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem; em contrapartida, os vaidosos castigam no pronome da primeira pessoa e colocam-se como a personagem principal de todas as situações.
  Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos esses “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; este é lido por puro deleite, aquele por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica, e o cronista afirma-se cada vez mais como o cafezinho quente logo pela manhã.
  Coloque-se porém, ó leitor, ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que, positivamente, a crônica “não baixa”. O cronista levanta-se, senta-se, levanta de novo, chega à janela, põe um disco na vitrola, dá um telefonema, relê crônicas passadas em busca de inspiração – e nada. Aí então, se ele é cronista de verdade, ele se pega pela gola e diz: “Vamos, escreve, ó mascarado! Escreve uma crônica sobre essa cadeira que está à sua frente, e que ela seja bem feita e divirta seus leitores!” E o negócio sai de qualquer maneira.

(Adaptado de: MORAES, Vinícius de. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 103-104) 

O autor da crônica, ao se valer da expressão
  1. A“prosa fiada” (1º parágrafo), qualifica uma linguagem que constitui o desafio maior de um cronista que deseja se passar por um romancista.
  2. B“tacam o peito” (2º parágrafo), refere-se ao modo como os cronistas se aproveitam de uma inspiração sublime para escrever.
  3. C“ou vai ou racha” (2º parágrafo), alude à autodeterminação que um cronista deve ter em sua específica rotina de escritor.
  4. D“marginais da imprensa” (4º parágrafo), alude a seus colegas de ofício que desvirtuam a dignidade do jornalismo.
  5. E“não baixa” (5º parágrafo), considera o caso em que o tema encontrado pelo cronista lhe parece erudito demais para ser desenvolvido.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — “ou vai ou racha” (2º parágrafo), alude à autodeterminação que um cronista deve ter em sua específica rotina de escritor.

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Análise da questão – Sentido das expressões na crônica

Gabarito: letra C. A expressão "ou vai ou racha" (2º parágrafo) está inserida em um contexto que descreve cronistas que escrevem com desespero e determinação, numa atitude de "ou vai ou racha", ou seja, de autodeterminação diante da dificuldade. O texto afirma: "Outros ainda, e constituem a maioria, 'tacam o peito' na máquina de escrever e cumprem o dever cotidiano da crônica como uma espécie de desespero, numa atitude de 'ou vai ou racha'." Portanto, a alternativa C é a única que capta corretamente o sentido de autodeterminação.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A expressão "prosa fiada" (1º parágrafo) é usada para distinguir o cronista do romancista: "Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um romancista". Não há indicação de que o cronista deseje se passar por romancista. A alternativa extrapola o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O trecho que contém "tacam o peito" (2º parágrafo) descreve uma atitude de desespero, não de inspiração sublime: "cumprem o dever cotidiano da crônica como uma espécie de desespero". A alternativa inverte o sentido do contexto.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Conforme explicado, "ou vai ou racha" remete à determinação de enfrentar a tarefa, mesmo sem inspiração, como se lê no 2º parágrafo. A expressão alude à autodeterminação necessária na rotina do cronista.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Marginais da imprensa" (4º parágrafo) é usado de forma bem-humorada para se referir a todos os tipos de cronistas, mas o texto diz que "todos esses 'marginais da imprensa' [...] têm o seu papel a cumprir", sem nenhuma conotação de desvirtuar a dignidade do jornalismo. A alternativa acrescenta opinião que não está no texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Não baixa" (5º parágrafo) refere-se à falta de inspiração: "Dias há em que, positivamente, a crônica 'não baixa'". O contexto seguinte descreve a dificuldade de escrever, e não que o tema seja erudito demais. A alternativa troca o sentido da expressão.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar expressões em crônicas, observe sempre o contexto imediato e a intenção do autor. Evite atribuir significados extraídos do senso comum sem confirmar no texto.

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