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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063991
Banca
FCC
Órgão
TJ-CE
Ano
2022
Cargo
Oficial de Justiça

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.


Sombra

Sombra, explicava a sabida boneca Emília, de Monteiro Lobato, é ar preto. Criança, não me tranquilizei: do escuro só podiam surgir fantasmas, apagar a luz era dar uma oportunidade aos duendes e demônios do quarto. Só a luz possuía o dom confortante de tocar deste mundo os habitantes do outro.  

No ginásio, estudante de Física, não me tranquilizei. Sombra é o resultado da interposição de um corpo opaco entre o observador e o corpo luminoso, sinal de que muitos corpos luminosos deixam de banhar-nos com sua luz desejável, sinal de que nos faltam felicidades, de que muitos sóis necessários se interromperam em sua viagem até nossos olhos.

Não perguntar o que um homem possui, mas o que lhe falta. Isso é sombra. Não indagar de seus sentimentos, mas saber o que ele não teve a ocasião de sentir. Sombra. Não se importar com o que ele viveu, mas prestar atenção à vida que não chegou até ele, que se interrompeu de encontro a circunstâncias invisíveis, imprevisíveis. A vida é um ofício de luz e trevas. Enquadrá-lo em sua constelação particular, saber se nasceu muito cedo para receber a luz da estrela ou se chegou ao mundo quando de há muito se extinguiu o astro que deveria iluminá-lo. 

Ontem vi uma menininha descobrindo sua sombra. Ela parava de espanto, olhava com os olhos arregalados, tentava agarrar a sombra, andava mais um pouco, virava de repente para ver se o seu fantasma ainda a seguia. Era a representação dramática de um poema infantil de Robert Stevenson, no qual uma menininha vai e vem, rodeando, saltando, gesticulando com seus bracinhos diante de sua sombra, implorando por uma explicação impossível, dançando um balé que será a sua própria vida.

(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Antologia. Org. Augusto Massi. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 211-212) 



No contexto do 3º parágrafo, as frases iniciadas por “Não perguntar”, “Não indagar” e “Não se importar” teriam seu sentido explicitado e preservado caso essas formas negativas fossem antecedidas por esta abertura:
  1. ATrata-se, imperativamente, de
  2. BÉ inconveniente que se passe
  3. CEvite-se, em qualquer caso,
  4. DNão seria razão para
  5. EImaginemos o absurdo de
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GabaritoA — Trata-se, imperativamente, de

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sentido das formas negativas no 3º parágrafo

Gabarito: letra A. As frases "Não perguntar", "Não indagar" e "Não se importar", no contexto, não são ordens de proibição, mas sim definições do que é a sombra: apontar a falta, a ausência. O autor usa o infinitivo negativo como um imperativo categórico — é isso que se deve fazer para entender a sombra. A abertura "Trata-se, imperativamente, de" preserva exatamente esse sentido de definição imperativa, conforme se lê no parágrafo:

Não perguntar o que um homem possui, mas o que lhe falta. Isso é sombra. Não indagar de seus sentimentos, mas saber o que ele não teve a ocasião de sentir. Sombra. Não se importar com o que ele viveu, mas prestar atenção à vida que não chegou até ele...

A sequência mostra que as negativas introduzem o conteúdo que caracteriza a sombra, e o pronome "Isso" retoma cada uma como definição. Portanto, a única alternativa que encaixa essa função é a A, que as declara como imperativo de definição.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Trata-se, imperativamente, de" introduz as negativas como uma ordem de definição — exatamente o que o texto faz: dizer o que (não) fazer para compreender a sombra. O advérbio "imperativamente" reforça o tom categórico, sem acrescentar noções alheias ao texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"É inconveniente que se passe" insere a ideia de inconveniência, que não está no texto. O autor não diz que é inconveniente perguntar; ele afirma que a sombra é não perguntar. Erro: extrapolação (acrescenta opinião).

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Evite-se, em qualquer caso," transforma as negativas em proibições, como se fosse errado perguntar/indagar/importar-se. O texto, porém, não proíbe; ele define: a sombra consiste em não fazer essas coisas. Erro: contradiz o texto (muda a modalidade).

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Não seria razão para" cria uma dupla negativa e um sentido hipotético que não condiz com a afirmação categórica do texto. O texto não diz que não há razão; ele diz que a sombra é essa atitude. Erro: contradiz o texto (inverte a afirmação).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Imaginemos o absurdo de" introduz uma hipótese absurda, enquanto o texto trata a atitude como definição real da sombra, não como absurdo. Erro: extrapolação (acrescenta juízo de valor).

NÃO CAIA NESSA!

Ao avaliar reescrituras, verifique se a modalidade (obrigação, proibição, permissão) e a intenção (definir, ordenar, sugerir) foram preservadas. Aqui, a banca trocou a definição imperativa por proibição (C) ou por julgamento (B, E).

Gabarito: letra A.

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