Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022
Português›Interpretação de Textos
Código
fc063998
Banca
FCC
Órgão
TJ-CE
Ano
2022
Cargo
Oficial de Justiça
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
[Religiões e progresso]
É conhecida a tese de que nas sociedades pré-modernas, como o medievo europeu ou as culturas ameríndias e africanas
tradicionais, a religião não tem uma existência à parte das demais esferas da vida, não é um nicho compartimentalizado de devoção e
celebração ritual demarcado no tempo e no espaço, mas está integrada à textura do cotidiano comum e permeia todas as instâncias
da existência.
A separação radical entre o profano e o sagrado – entre o mundo secular regido pela razão, de um lado, e o mundo da fé,
regido por opções e afinidades estritamente pessoais, de outro – seria um traço distintivo da moderna cultura ocidental. Mas será isso
mesmo verdade? Até que ponto o mundo moderno teria de fato banido a emoção religiosa da vida prática e confinado a esfera do
sagrado ao gueto das preces, contrições e liturgias dominantes? Ou não seria essa compartimentalização, antes, um meio de
apaziguar as antigas formas de religiosidade e ajustar contas com elas ao mesmo tempo em que se abre e se desobstrui o terreno
visando a liberação da vida prática para o culto de outros deuses e de outra fé?
Não se trata, é claro, de negar o valor desses outros deuses: a ciência, a técnica, o conforto material, a sede de acumulação de
riquezas. O equívoco está em absolutizar esses novos deuses em relação a outros valores, e esperar deles mais do que podem
oferecer. A ciência jamais decifrará o enigma de existir; a tecnologia não substitui a ética; e o aumento indefinido de renda e riqueza
não nos conduz a vidas mais livres, plenas e dignas de serem vividas, além de pôr em risco o equilíbrio mesmo da bioesfera.
(Adaptado de: GIANETTI, Eduardo. Trópicos utópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 152-153)
Ao se referir aos novos deuses, aos outros deuses do nosso tempo, o autor está considerando a
Apremência de se renovar, no mundo secular, a fé incondicional e a devoção essencial que caracterizavam os ritos antigos.
Bestabilidade social que o progresso da ciência e a consolidação dos valores éticos estão imprimindo no cotidiano moderno.
Cnecessidade de sacralizarmos, como fizeram os antigos, as qualidades morais que só a prática estritamente religiosa pode recuperar.
Dinfundada esperança de que os novos ritos religiosos alcancem a força que tinham em épocas de devoção mais sincera.
Eilusão de que as práticas da ciência, da economia e da tecnologia possam alcançar as altas metas do progresso que pretendem atingir.
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GabaritoE — ilusão de que as práticas da ciência, da economia e da tecnologia possam alcançar as altas metas do progresso que pretendem atingir.
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Análise da questão – Sentido da expressão “novos deuses”
Gabarito: letra E. O autor critica a ilusão de que ciência, economia e tecnologia possam realizar plenamente as promessas de progresso. No segundo parágrafo, ele afirma que “o equívoco está em absolutizar esses novos deuses [...] e esperar deles mais do que podem oferecer”.
A expressão “novos deuses” (ou “outros deuses”) refere‑se a:
“a ciência, a técnica, o conforto material, a sede de acumulação de riquezas”.
O autor não nega o valor desses itens, mas alerta que esperar deles mais do que podem dar é um equívoco. A alternativa E parafraseia exatamente essa ideia: “ilusão de que as práticas da ciência, da economia e da tecnologia possam alcançar as altas metas do progresso que pretendem atingir”.
Alternativa A — ❌ Incorreta
“premência de se renovar, no mundo secular, a fé incondicional e a devoção essencial que caracterizavam os ritos antigos.”
Erro: extrapolação. O texto não defende renovar a fé antiga; ao contrário, critica a absolutização de qualquer deus. O autor não propõe devoção, mas sim ponderação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“estabilidade social que o progresso da ciência e a consolidação dos valores éticos estão imprimindo no cotidiano moderno.”
Erro: contradiz o texto. O autor diz que a ciência não decifra o enigma da existência, a tecnologia não substitui a ética e o aumento de riqueza não conduz a vidas mais livres. Logo, não há estabilidade assegurada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
“necessidade de sacralizarmos, como fizeram os antigos, as qualidades morais que só a prática estritamente religiosa pode recuperar.”
Erro: extrapolação + opinião embutida. O texto não fala em sacralizar qualidades morais nem afirma que só a religião as recupera. Pelo contrário, critica a absolutização de valores seculares, mas não propõe retorno ao sagrado antigo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“infundada esperança de que os novos ritos religiosos alcancem a força que tinham em épocas de devoção mais sincera.”
Erro: troca de conceito (pegadinha típica). O autor chama de “novos deuses” a ciência, a técnica, a riqueza – não “novos ritos religiosos”. A alternativa troca o referente e cria uma ideia estranha ao texto.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
“ilusão de que as práticas da ciência, da economia e da tecnologia possam alcançar as altas metas do progresso que pretendem atingir.”
Exatamente o que o autor expõe: “esperar deles mais do que podem oferecer” é um equívoco. A palavra “ilusão” corresponde à crítica do autor à absolutização desses novos deuses.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de compreensão, busque a paráfrase mais fiel. Palavras como “ilusão”, “equívoco” e “não conduz” no texto apontam para a visão crítica do autor.