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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc068033
Banca
FCC
Órgão
DETRAN-AP
Ano
2022
Atenção: Para responder à questão, leia a crônica O lendário país do recall, de Moacyr Scliar. 

1. Leitora manda boneca para recall e não a recebe de volta. Como explicar para uma criança que seus brinquedos foram embora há três meses e não voltaram? (Cotidiano, 25/02/2008)

2. “Minha querida dona: quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você. Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida, e é por isso que estou lhe mandando esta carta, por meio do cara que assina esta coluna e que, sendo escritor, acredita nas coisas da imaginação.

3. Posso lhe dizer, querida, que vivi uma tremenda aventura, uma aventura que em vários momentos me deixou apavorada. Porque tive de viajar para o distante país do recall. Aposto que você nem sabia da existência desse lugar; eu, pelo menos, não sabia. Para lá fui enviada. Não só eu: bonecas defeituosas, ursinhos idem, eletrodomésticos que não funcionavam e peças de automóvel quebradas. Nós todos ali, na traseira de um gigantesco caminhão que andava, andava sem parar. Finalmente chegamos, e ali estávamos, no misterioso e, para mim, assustador país do recall. Um homem nos recebeu e anunciou, muito secamente, que o nosso destino em breve seria traçado: as bonecas que tivessem conserto seriam consertadas e mandadas de volta para os donos; quanto tempo isso levaria era imprevisível, mas três meses era o mínimo. Uma boneca que estava do meu lado, a Liloca, perguntou, com os olhos arregalados, o que aconteceria a quem não tivesse conserto. O homem não disse nada, mas seu sorriso sinistro falava por si.

4. Passamos a noite num enorme pavilhão destinado especialmente às bonecas. Éramos centenas ali, algumas com probleminhas pequenos (um braço fora do lugar, por exemplo), outras já num estado lamentável. Estava muito claro que para várias de nós não haveria volta.

5. Naquela noite conversei muito com minha amiga Liloca − sim, querida dona, àquela altura já éramos amigas. O infortúnio tinha nos unido. Outras bonecas juntaram-se a nós e logo formamos um grande grupo. Estávamos preocupadas com o que poderia nos suceder. De repente a Liloca gritou: ‘Mas gente, nós não somos obrigados a aceitar isso! Vamos fazer alguma coisa!’. Nós a olhamos, espantadas: fazer alguma coisa? Mas fazer o quê? Liloca tinha uma resposta: vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall.

6. No começo aquilo nos pareceu absurdo. Mas Liloca sabia do que estava falando. A mãe da dona dela tinha sido uma militante revolucionária e sempre falava nisso, na necessidade de mudar o mundo, de dar o poder aos mais fracos. Ora, dizia Liloca, ninguém mais fraco do que nós, pobres, desamparados e defeituosos brinquedos. Não deveríamos aguardar resignadamente que decidissem o que fazer com a gente.

7. De modo, querida dona, que estamos aqui preparando a revolução. Breve estaremos governando o país do recall. Mas não se preocupe, eu a convidarei para me visitar. Você poderá vir a qualquer hora. E não precisará de recall para isso.”
(Adaptado de: Moacyr Scliar. Histórias que os jornais não contam. Porto Alegre: L&PM, 2018)
Na construção de sua crônica, Moacyr Scliar recorre fundamentalmente à seguinte figura de linguagem:
  1. Ahipérbole.
  2. Beufemismo.
  3. Cpersonificação.
  4. Dantítese.
  5. Epleonasmo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — personificação.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Figuras de linguagem na crônica de Moacyr Scliar

Gabarito: C. A crônica recorre fundamentalmente à personificação (ou prosopopeia), figura que atribui características humanas a seres inanimados. No texto, a boneca ganha voz própria, escreve uma carta, sente saudades, tem medo, e até planeja uma revolução com outros brinquedos — tudo isso é personificação.

"Quem lhe escreve sou eu, a sua fiel e querida boneca, que você não vê há três meses. Sei que você sente muitas saudades, porque eu também sinto saudades de você."

"Lembro de você me pegando no colo, me chamando de filhinha, me dando papinha... Você era, e é, minha mãezinha querida."

"Vamos tomar o poder. Vamos nos apossar do país do recall."

As demais alternativas são incorretas:

Alternativa A — ❌ Incorreta

Hipérbole é o exagero expressivo. Não há exageros extremos no texto; a fantasia é tratada de forma natural, não hiperbólica. O erro é a troca de conceito: o aluno confunde personificação com exagero.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Eufemismo é o abrandamento de uma ideia desagradável. A crônica não suaviza nenhum aspecto; ao contrário, a boneca expressa medo e incerteza diretamente. O erro é a troca de conceito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Antítese é a oposição de ideias. Não há pares contrastantes que estruturem o texto; a narrativa é linear, centrada na aventura da boneca. O erro é a troca de conceito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Pleonasmo é a repetição desnecessária de um termo. Não há redundância vocabular notável; a linguagem é direta e sem vícios. O erro é a troca de conceito.

PEGA ESSA DICA!

O recurso central da crônica é dar voz a um objeto inanimado (a boneca). Sempre que um ser não humano fala, pensa ou sente como humano, estamos diante da personificação. Verifique quem é o narrador: aqui é a boneca em primeira pessoa.

Gabarito: letra C.

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