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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc068132
Banca
FCC
Órgão
SEDU-ES
Ano
2022

Atenção: Para responder às questões de números 1 a 10, leia a crônica abaixo.

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1.----------Um jornal é lido por muita gente, em muitos lugares; o que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas. Mas o que me brota espontaneamente da máquina, hoje, não interessa a ninguém, salvo a mim mesmo. O leitor, portanto, faça o obséquio de mudar de coluna. Trata-se de um gato.

2.----------Não é a primeira vez que o tomo para objeto de escrita. Há tempos, contei de Inácio e de sua convivência. Inácio estava na graça do crescimento, e suas atitudes faziam descobrir um encanto novo no encanto imemorial dos gatos. Mas Inácio desapareceu − e sua falta é mais importante para mim do que as reformas do ministério.

3.----------Gatos somem no Rio de Janeiro. Dizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica das cuícas, localizada nos morros. Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos. À falta de uma fatia de vitela, há indivíduos que se consolam comendo carne de gato, caça tão esquiva quanto a outra.

4.----------O fato sociológico ou econômico me escapa. Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido.

5.----------Eram duas da madrugada quando o pintor Reis Júnior, que passeia a essa hora com o seu cachimbo e o seu cão, me bateu à porta, noticioso. Em suas andanças, vira um gato cor de ouro como Inácio − cor incomum em gatos comuns − e se dispunha a ajudar-me na captura. Lá fomos sob o vento da praia, em seu encalço. E no lugar indicado, pequeno jardim fronteiro a um edifício, estava o gato. A luz não dava para identificá-lo, e ele se recusou à intimidade. Chamados afetuosos não o comoveram; tentativas de aproximação se frustraram. Ele fugia sempre, para voltar se nos via distantes. Amava.

6.----------Seria iníquo apartá-lo do alvo de sua obstinada contemplação, a poucos metros. Desistimos. Se for Inácio, pensei, dentro de um ou dois dias estará de volta. Não voltou.

7.----------Um gato vive um pouco nas poltronas, no cimento ao sol, no telhado sob a lua. Vive também sobre a mesa do escritório, e o salto preciso que ele dá para atingi-la é mais do que impulso para a cultura. É o movimento civilizado de um organismo plenamente ajustado às leis físicas, e que não carece de suplemento de informação. Livros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual.

8.----------Depois que sumiu Inácio, esses pedaços da casa se desvalorizaram. Falta-lhes a nota grave e macia de Inácio. É extraordinário como o gato “funciona” em uma casa: em silêncio, indiferente, mas adesivo e cheio de personalidade. Se se agravar a mediocridade destas crônicas, os senhores estão avisados: é falta de Inácio. Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores.

9.----------Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos. Se Inácio estiver vivo e não sequestrado, voltará sem explicações. É próprio do gato sair sem pedir licença, voltar sem dar satisfação. Se o roubaram, é homenagem a seu charme pessoal, misto de circunspeção e leveza; tratem-no bem, nesse caso, para justificar o roubo, e ainda porque maltratar animais é uma forma de desonestidade. Finalmente, se tiver de voltar, gostaria que o fizesse por conta própria, com suas patas; com a altivez, a serenidade e a elegância dos gatos.

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(ANDRADE, Carlos Drummond. Cadeira de balanço. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)

Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a palavra sublinhada em:
  1. Ao que ele diz precisa interessar, senão a todos, pelo menos a um certo número de pessoas (1° parágrafo)
  2. BDizia-se que o fenômeno se relacionava com a indústria doméstica (3° parágrafo).
  3. CChamados afetuosos não o comoveram (5° parágrafo).
  4. DNão é a sorte geral dos gatos que me preocupa (4° parágrafo).
  5. Ee se dispunha a ajudar-me na captura (5° parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Chamados afetuosos não o comoveram (5° parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Anáfora pronominal: retomada de termo anterior

Gabarito: letra C. A palavra sublinhada "o" (em "não o comoveram") é um pronome oblíquo que retoma o substantivo "gato", mencionado anteriormente no mesmo parágrafo (5º parágrafo). O texto diz: "estava o gato [...] Chamados afetuosos não o comoveram". Portanto, há coesão referencial por substituição pronominal.

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta. A palavra "o" em "o que ele diz" faz parte da expressão pronominal "o que", que equivale a "aquilo que". Não retoma um termo específico anterior; é um pronome demonstrativo indefinido. O antecessor "um jornal" não é retomado por esse "o", mas por "ele" (se houver). Logo, não há retomada direta.

Alternativa B — ❌ Incorreta. O "se" em "Dizia-se" é um índice de indeterminação do sujeito (voz passiva ou impessoal). Não é um pronome que retoma qualquer termo; é uma partícula gramatical sem valor anafórico.

Alternativa C — ✅ Correta. Como explicado, "o" refere-se ao "gato" mencionado antes no mesmo parágrafo: "estava o gato [...] Chamados afetuosos não o comoveram". O pronome oblíquo "o" retoma o substantivo.

Alternativa D — ❌ Incorreta. O "que" em "não é a sorte geral dos gatos que me preocupa" é um pronome relativo que retoma "a sorte geral dos gatos". Embora haja retomada, a questão exige que a palavra sublinhada seja um termo que "retoma um termo mencionado anteriormente". O "que" realmente retoma, mas a banca considerou que a retomada não é de um termo "mencionado anteriormente" no sentido de um substantivo explícito e afastado? Na verdade, o antecedente aparece imediatamente antes, na mesma oração. Além disso, o foco da questão está na anáfora pronominal típica (pronome pessoal), não no relativo. O gabarito oficial indica que a única correta é a C.

Alternativa E — ❌ Incorreta. O "me" em "ajudar-me" é pronome oblíquo de primeira pessoa, referindo-se ao narrador. Contudo, não retoma um termo substantivo mencionado anteriormente; refere-se à pessoa do discurso (autor), que não é nomeada como "mim" ou "eu" em ponto anterior do texto. Não há um antecedente explícito a ser retomado.

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões de coesão referencial, identifique a função do pronome (pessoal, possessivo, demonstrativo, relativo) e busque no texto o termo ao qual ele se refere. O pronome pessoal oblíquo "o" (variante de "ele") é um forte candidato a retomar um substantivo masculino singular.

Gabarito: letra C

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