Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022
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Código
fc068148
Banca
FCC
Órgão
SEDU-ES
Ano
2022
O cronista refere-se de forma irônica a um eventual desinteresse de seus leitores no seguinte trecho:
APoderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos (9º parágrafo).
BAgora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos (3º parágrafo).
CNão é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido (4º parágrafo).
DLivros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual (7º parágrafo).
ESe tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores (8º parágrafo).
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GabaritoE — Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores (8º parágrafo).
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Ironia na crônica de Drummond: a crítica velada aos leitores
Gabarito: letra E. O trecho do 8º parágrafo é o único em que o cronista se refere de forma irônica ao eventual desinteresse dos leitores, ao dizer que o sono profundo de Inácio "antecipava a reação provável dos leitores". A ironia está em atribuir ao gato adormecido o poder de prever o tédio do público: se o gato dormia, os leitores também dormiriam — ou seja, a crônica não os interessaria. As demais alternativas ou são literais, ou não apresentam tom irônico.
A questão pede que você identifique o trecho com tom irônico. Ironia é a figura de linguagem em que se diz o contrário do que se quer significar, ou em que há uma quebra de expectativa com intenção crítica ou humorística. No texto, Drummond brinca com a ideia de que suas crônicas podem ser medíocres e que o leitor pode se desinteressar — e usa o gato como espelho dessa reação.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O trecho "Poderia botar anúncio no jornal. Para quê? Ninguém está pensando em achar gatos" é uma constatação irônica? Não exatamente: aqui o cronista apenas reconhece que não adiantaria anunciar, pois ninguém procura gatos. Há um tom de resignação, não de ironia sobre o desinteresse do leitor. A ironia da alternativa E é mais direta e específica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Agora ouço dizer que se relaciona com a vida cara e a escassez de alimentos" é uma informação factual sobre o sumiço dos gatos, sem tom irônico. Não há referência ao leitor nem quebra de expectativa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Não é a sorte geral dos gatos que me preocupa. Concentro-me em Inácio, em seu destino não sabido" é uma declaração pessoal do cronista, sem ironia. Ele apenas delimita seu foco: o gato específico, não a espécie.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Livros e papéis, sim, beneficiam-se com a sua presteza austera. Mais do que a coruja, o gato é símbolo e guardião da vida intelectual" é uma metáfora (o gato como símbolo da vida intelectual), mas não há ironia. O tom é elogioso, não crítico.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
No 8º parágrafo, o cronista escreve:
"Se tinham alguma coisa aproveitável era a presença de Inácio a meu lado, sua crítica muda, através dos olhos de topázio que longamente me fitavam, aprovando algum trecho feliz, ou através do sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores"
A ironia está na expressão "sono profundo, que antecipava a reação provável dos leitores": o gato dormindo é comparado à reação dos leitores — ou seja, os leitores dormiriam de tédio diante das crônicas. É uma crítica velada ao próprio trabalho e ao desinteresse do público, com tom bem-humorado.
NÃO CAIA NESSA!
A banca coloca alternativas com afirmações verdadeiras ou metáforas, mas só a E apresenta a quebra de expectativa típica da ironia. Cuidado para não confundir ironia com simples constatação ou elogio.
PEGA ESSA DICA!
Ao procurar ironia, pergunte: "há contradição entre o que se diz e o que se quer significar?" No caso, o sono do gato não poderia literalmente prever a reação dos leitores — é uma hipérbole irônica.