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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2023

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc069318
Banca
FCC
Órgão
TJ-BA
Ano
2023
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário - Escrevente de Cartório
     Fui chegando aqui à Bahia, a caminho de Itaparica — onde deverei basicamente pescar, mentir na praça do Mercado e, de quando em vez, escrever uma carta patética a meu abnegado editor, solicitando mais fundos para a realização da minha obra — e fui logo perguntando pelos cachorros. Os cachorros daqui da casa de meu paí, como aliás todos os bichos que aparecem por aqui, são muito interessantes — a começar por Lílico, um animal vagamente fox terrier que namorava escandalosamente com Chiquita, a gata siamesa de meu pai. Uma vez, Lilico e Chiquita — como direi? — se engalfinharam amorosamente em plena sala, na frente de uma visita eclesiástica, um verdadeiro escândalo. Minha mãe e o monsenhor fingiram que não viram (um ato de heroísmo da parte deles, já que fingir que não estavam notando aquela fuzarca era a mesma coisa que tentar manter uma conversação junto de um trio elétrico), mas meu pai ficou entusiasmado. “Creio que teremos nesta casa uma ninhada de cagatos”, disse-me ele com orgulho. Não houve, infelizmente, frutos desse e de outros acalorados idílios vividos por Chiquita e Lilico, mas por aí vocês já veem como os bichos aqui de casa são interessantes.

     Agora temos dois cachorros, Duque e Wolfgang (embora este só atenda por Wolf ou Carrapicho). Duque é um fila da envergadura de um hipopótamo e só um pouquinho mais pesado, cujo principal talento é ser capaz de comer seis pães (seis dessas bisnagonas de mais de meio metro) em 15 segundos cravados, coisa que ele faz toda vez que deixam o pão dando sopa, e depois se julga no direito de ser festejado pela habilidade. Wolfgang é um rottweiler alemão, cuja disposição habitual se compara desfavoravelmente com a de um comandante das SS e que não se dá com ninguém. Meu pai explicou que ambos são ótimos indivíduos, “apenas temos de respeitar suas respectivas maneiras de ser”.

     — A maneira de ser de Duque — esclareceu ele — é abestalhada. A maneira de ser de Carrapicho, por assim dizer, é de inimigo de toda a Criação em geral. São posições.

     Duque e Wolfgang dividem as responsabilidades da guarda da casa. Duque cuida dos fundos, onde de vez em quando derruba um bujão de gás com um encontrão casual. Wolf cuida da frente, parte da casa onde absolutamente ninguém é bem recebido (a não ser os da casa mesmo, mas sem intimidades) depois que ele assume o posto — com rigorosa pontualidade e sempre parado no mesmo lugar, na evidente intenção de comer a primeira coisa que se mexa em sua frente. Fui visitá-los. Duque me cumprimentou com efusão, Wolf se levantou e rosnou, enfiando a cara pelas grades do canil. Com o ar confiante que estudei nos livros sobre treinamento de cães, aproximei-me para fazer amizade, levantei a mão para afagá-lo.

     — Use a esquerda — aconselhou meu pai. — Pelo menos assim você ainda vai poder bater à máquina com a direita.

     Preferi adiar a experiência, fui passar em revista os outros moradores da casa ali presentes. [...]

     Fui lá dentro inspecionar minha vara de pescar, imaginei-me na ilha de Itaparica entre garoupas, guaricemas, vermelhos, pampos e cabeçudos e mentindo estrondosamente sobre “aquele de oito quilos que escapou no último instante”. Suspirei. A vida do escritor é muito dura, mas, pelo menos, felizmente, encontrei todos aqui muito bem.


(Adaptado de: RIBEIRO, João Ubaldo. Arte e ciência de roubar galinha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998)
[...] parte da casa onde absolutamente ninguém é bem recebido (a não ser os da casa mesmo, mas sem intimidades) depois que ele assume o posto.


O elemento sublinhado acima pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido do texto, por:
  1. Aa propósito
  2. Baliás
  3. Cisto é
  4. Dexceto
  5. Einclusive
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — exceto

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de "a não ser" por expressão equivalente

Gabarito: letra D. A locução "a não ser", no trecho em destaque, expressa uma exceção à afirmação anterior ("absolutamente ninguém é bem recebido"). A única alternativa que preserva esse sentido de exceção é "exceto". As demais opções introduzem noções distintas (finalidade, adição, explicação, inclusão) que alterariam o sentido original.

Análise do contexto

No texto, o narrador descreve a área da casa vigiada pelo cão Wolfgang:

"parte da casa onde absolutamente ninguém é bem recebido (a não ser os da casa mesmo, mas sem intimidades) depois que ele assume o posto."

A expressão sublinhada delimita um grupo que foge à regra geral: a única exceção são os moradores da casa, ainda assim sem intimidades. Portanto, qualquer substituto deve manter essa ideia de exceção ou restrição.

Alternativa A — "a propósito" ❌ Incorreta

"A propósito" é um conectivo que introduz um assunto relacionado ao que se estava falando, como "por falar nisso". Não expressa exceção, mas sim uma digressão ou acréscimo temático. Substituir "a não ser" por "a propósito" tornaria o trecho incoerente.

Alternativa B — "aliás" ❌ Incorreta

"Aliás" pode ter valor aditivo (além disso) ou retificativo (ou melhor). Em nenhum dos casos equivale a "exceto". Não caberia no lugar de "a não ser", pois alteraria a relação lógica de exceção.

Alternativa C — "isto é" ❌ Incorreta

"Isto é" é uma expressão explicativa, equivalente a "ou seja". Indica que o que vem a seguir esclarece ou reformula o que foi dito. No trecho, "os da casa mesmo" não é uma explicação de "ninguém", mas sim uma exceção. Portanto, não serve.

Alternativa D — "exceto" ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Exceto" é um termo que introduz exceção, exatamente como "a não ser". A frase reescrita seria: "...absolutamente ninguém é bem recebido (exceto os da casa mesmo...)". O sentido de exclusão é preservado integralmente.

Alternativa E — "inclusive" ❌ Incorreta

"Inclusive" tem sentido inclusivo (até mesmo, incluindo). Substituir "a não ser" por "inclusive" inverteria a lógica: em vez de exceção, passaria a incluir os moradores como parte do grupo "ninguém"? Não, pois "inclusive os da casa" significaria que eles também não são bem recebidos, o que contradiz o texto. Logo, é totalmente inadequado.

Conclusão: A única substituição que mantém o sentido original é "exceto", pois ambas as expressões marcam uma exceção em uma proposição geral. As demais alternativas alteram o valor semântico (adição, explicação, inclusão) e, portanto, são incorretas.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de substituição de palavras/expressões, identifique primeiro a relação lógica que o termo original estabelece (causa, consequência, condição, exceção, etc.). Depois, busque entre as opções aquela que veicula a mesma relação. Fique atento a falsos sinônimos que mudam o sentido do trecho.

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