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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2023

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc069321
Banca
FCC
Órgão
TJ-BA
Ano
2023
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário - Escrevente de Cartório
     Fui chegando aqui à Bahia, a caminho de Itaparica — onde deverei basicamente pescar, mentir na praça do Mercado e, de quando em vez, escrever uma carta patética a meu abnegado editor, solicitando mais fundos para a realização da minha obra — e fui logo perguntando pelos cachorros. Os cachorros daqui da casa de meu paí, como aliás todos os bichos que aparecem por aqui, são muito interessantes — a começar por Lílico, um animal vagamente fox terrier que namorava escandalosamente com Chiquita, a gata siamesa de meu pai. Uma vez, Lilico e Chiquita — como direi? — se engalfinharam amorosamente em plena sala, na frente de uma visita eclesiástica, um verdadeiro escândalo. Minha mãe e o monsenhor fingiram que não viram (um ato de heroísmo da parte deles, já que fingir que não estavam notando aquela fuzarca era a mesma coisa que tentar manter uma conversação junto de um trio elétrico), mas meu pai ficou entusiasmado. “Creio que teremos nesta casa uma ninhada de cagatos”, disse-me ele com orgulho. Não houve, infelizmente, frutos desse e de outros acalorados idílios vividos por Chiquita e Lilico, mas por aí vocês já veem como os bichos aqui de casa são interessantes.

     Agora temos dois cachorros, Duque e Wolfgang (embora este só atenda por Wolf ou Carrapicho). Duque é um fila da envergadura de um hipopótamo e só um pouquinho mais pesado, cujo principal talento é ser capaz de comer seis pães (seis dessas bisnagonas de mais de meio metro) em 15 segundos cravados, coisa que ele faz toda vez que deixam o pão dando sopa, e depois se julga no direito de ser festejado pela habilidade. Wolfgang é um rottweiler alemão, cuja disposição habitual se compara desfavoravelmente com a de um comandante das SS e que não se dá com ninguém. Meu pai explicou que ambos são ótimos indivíduos, “apenas temos de respeitar suas respectivas maneiras de ser”.

     — A maneira de ser de Duque — esclareceu ele — é abestalhada. A maneira de ser de Carrapicho, por assim dizer, é de inimigo de toda a Criação em geral. São posições.

     Duque e Wolfgang dividem as responsabilidades da guarda da casa. Duque cuida dos fundos, onde de vez em quando derruba um bujão de gás com um encontrão casual. Wolf cuida da frente, parte da casa onde absolutamente ninguém é bem recebido (a não ser os da casa mesmo, mas sem intimidades) depois que ele assume o posto — com rigorosa pontualidade e sempre parado no mesmo lugar, na evidente intenção de comer a primeira coisa que se mexa em sua frente. Fui visitá-los. Duque me cumprimentou com efusão, Wolf se levantou e rosnou, enfiando a cara pelas grades do canil. Com o ar confiante que estudei nos livros sobre treinamento de cães, aproximei-me para fazer amizade, levantei a mão para afagá-lo.

     — Use a esquerda — aconselhou meu pai. — Pelo menos assim você ainda vai poder bater à máquina com a direita.

     Preferi adiar a experiência, fui passar em revista os outros moradores da casa ali presentes. [...]

     Fui lá dentro inspecionar minha vara de pescar, imaginei-me na ilha de Itaparica entre garoupas, guaricemas, vermelhos, pampos e cabeçudos e mentindo estrondosamente sobre “aquele de oito quilos que escapou no último instante”. Suspirei. A vida do escritor é muito dura, mas, pelo menos, felizmente, encontrei todos aqui muito bem.


(Adaptado de: RIBEIRO, João Ubaldo. Arte e ciência de roubar galinha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998)
Use a esquerda — aconselhou meu pai.

Ao se transpor o trecho acima para o discurso indireto, o verbo sublinhado assume a seguinte forma:
  1. Ausava
  2. Busara
  3. Cusou
  4. Dusaria
  5. Eusasse
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GabaritoE — usasse

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Discurso indireto – transformação do imperativo

Gabarito: letra E. No discurso indireto, o imperativo do discurso direto ("Use") converte-se para o pretérito imperfeito do subjuntivo ("usasse"), pois o verbo introdutor ("aconselhou") está no pretérito perfeito do indicativo. A passagem original, > "— Use a esquerda — aconselhou meu pai." , em discurso indireto torna-se "Meu pai aconselhou que eu usasse a esquerda."

  1. 1Discurso direto"Use a esquerda"
  2. 2Verbo introdutor no passadoaconselhou (pret. perf. indic.)
  3. 3Imperativo vira subjuntivousasse (pret. imperf. subj.)
  4. 4Discurso indiretoaconselhou que usasse
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Alternativa A — ❌ Incorreta

"Usava" é pretérito imperfeito do indicativo, forma inadequada para a transposição do imperativo no discurso indireto. Erro de troca de conceito: confunde com tempo do indicativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Usara" é pretérito mais-que-perfeito do indicativo, não corresponde à transformação exigida. Erro de troca de conceito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Usou" é pretérito perfeito do indicativo, também inadequado. Erro de troca de conceito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Usaria" é futuro do pretérito do indicativo, forma que não expressa a subordinação ao verbo introdutor no passado. Erro de troca de conceito.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Usasse" é pretérito imperfeito do subjuntivo, forma correta para representar um conselho/ordem em discurso indireto com verbo introdutor no passado. A transformação segue a regra: imperativo → subjuntivo imperfeito.

Conclusão: A única alternativa que apresenta a forma verbal adequada para a transposição do imperativo para o discurso indireto é a letra E.

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