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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc071357
Banca
FCC
Órgão
SEPLAN-PI
Ano
2024
Nível
Superior
Cargo
Analista Governamental - Especialidade Infraestrutura (Arquitetura e Urbanismo)
Atenção: Leia o trecho inicial do conto "O escrivão Coimbra", de Machado de Assis, para responder à questão.


    Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. Bem considerado, é alegre; essa persistência em crer, quando tudo se ajusta ao descrer, mostra que a pessoa é ainda forte e moça. Que os dias passem e com eles os bilhetes brancos, pouco importa; o ancião estende os dedos para escolher o número que há de dar a sorte grande amanhã, -ou depois, - um dia, enfim, porque todas as coisas podem falhar neste mundo, menos a sorte grande a quem compra um bilhete com fé.

    Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. Uma coisa não vai sem outra. Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. Também tivera esta em anos verdes e maduros, chegando a fundar uma irmandade, a irmandade de S. Bernardo, que era o santo de seu nome; mas aos cinquenta, por efeito do tempo ou de leituras, achou-se incrédulo.

    Não deixou logo a irmandade; a esposa pôde contê-lo no exercício do cargo de mesário e levava-o às festas do santo; ela, porém, morreu, e o viúvo rompeu de vez com o santo e o culto. Resignou o cargo da mesa e fez-se irmão remido para não tornar lá. Não buscou arrastar outros nem obstruir o caminho da oração; ele é que já não rezava por si nem por ninguém. Com amigos, se eram do mesmo estado de alma, confessava o mal que sentia da religião. Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e раdres.

    Aos sessenta anos, já não cria em nada, fosse do céu ou da terra, exceto a loteria. A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. Poucos bilhetes comprava a principio, mas a idade e depois a solidão vieram apurando aquele costume e o levaram a não deixar passar loteria sem bilhete. 

    Nos primeiros tempos, não vindo a sorte grande, prometia não comprar mais bilhetes, e durante algumas loterias cumpria a promessa. Mas lá aparecia alguém que o convidava a ficar com um bonito número, comprava o número e esperava. Assim veio andando pelo tempo fora até chegar aquele em que loterias rimaram com dias, e passou a comprar seis bilhetes por semana; repousava aos domingos.


(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Contos: uma antologia, volume II. São Paulo: Companhia das Letras, 1998)
O narrador dirige-se explicitamente a seu leitor no seguinte trecho:
  1. AA loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança. (4° parágrafo)
  2. BNão confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. (2º parágrafo)
  3. CAparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria. (1º parágrafo)
  4. DNão era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança. (2º parágrafo)
  5. ECom familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres. (3º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa. (2º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Identificação do Vocativo no Texto

Gabarito: letra B. O narrador dirige-se explicitamente ao leitor no trecho "Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa." O uso do verbo "confundas" na segunda pessoa do singular (imperativo) marca uma interpelação direta ao interlocutor, o leitor.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Não confundas a fé na Fortuna com a fé religiosa."

O emprego da forma verbal "confundas" (presente do subjuntivo com valor imperativo) evidencia que o narrador está se dirigindo diretamente a alguém — o leitor. É a única passagem com essa característica de interpelação.

NÃO CAIA NESSA!

As demais alternativas são meramente narrativas ou descritivas, sem dirigir-se explicitamente ao leitor. O candidato poderia confundir "não confundas" com uma afirmação impessoal, mas a conjugação na segunda pessoa é clara.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"A loteria sim, tinha toda a sua fé e esperança."

O trecho é narrativo, descrevendo o pensamento do escrivão Coimbra. Não há qualquer vocativo ou verbos na segunda pessoa.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Aparentemente há poucos espetáculos tão melancólicos como um ancião comprando um bilhete de loteria."

Trata-se de uma observação geral, impessoal ("há", "poucos espetáculos"). Não há interpelação.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Não era a fé que faltava ao escrivão Coimbra. Também não era a esperança."

Narrativa em terceira pessoa, sem dirigir-se ao leitor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Com familiares, gostava de dizer pilhérias sobre devotas e padres."

Descrição do comportamento do personagem, em terceira pessoa. Não há direcionamento ao leitor.

Gabarito: letra B

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