Eu era um menino muito perguntador, como quase todas as crianças, e volta e meia tinha que ouvir de um adulto: - Mas você
é especula, hein? E eu via logo que ser um menino "especula" não devia ser muito bonito. Nem por isso guardava minhas armas de
perguntador: continuava a especular sobre tudo o que não entendia. Eu ainda não conhecia a réplica justa a quem me acusasse de
especula: - Mas perguntar não ofende...
Mais tarde tive a minha vingança. Aprendi que especular é investigar, pesquisar, refletir... Aprendi mais: que os homens muito
curiosos, de muito antigamente, olhavam os astros no céu pra ver se entendiam a formação de suas andanças no espaço, seus movimentos regulares. Não contando ainda com a sofisticação de telescópios, valiam-se os antigos de um espelho, um "speculum", que
fixavam no chão apontado para o alto. Na superficie plana do espelho refletiam-se os astros iluminados no céu, e nela os astrônomos
pioneiros iam marcando a posição e os movimentos dos corpos celestes. Era isso o que também se entendia por especular: observar
algo por meio do reflexo de um espelho. Os primeiros astrônomos foram grandes especulas.
Com o tempo, especulação passou a designar um processo mental abstrato, que formula hipóteses e elabora ideias. Pensamento especulativo, para muitos, é o princípio mesmo da inquirição filosófica.
Portanto, fui mesmo, e com muita honra, um menino especula, sim senhor. Como quase todas as crianças, estava interessado
em saber quanta coisa havia entre o céu e a terra que ia além da nossa filosofia, ou dos nossos olhos terrestres. Da minha maneira,
acionava o espelho da minha curiosidade para saber mais coisas dos astros do céu, do tempo cósmico, do destino das esferas -coisas
que mesmo um telescópio espacial está longe de conseguir esclarecer, para poder satisfazer os eternos meninos especulas.
(Alcebíades Villanova, a editar)
É plenamente adequada a correlação entre tempos e modos verbais na seguinte construção:
AEstou interessado em saber o que houvesse entre o céu e a terra, além do que ensinasse a nossa filosofia.
BEu entendi que ser especula não devesse ser muito elogioso, sobretudo quando sou assim acusado.
COs homens mais curiosos analisavam os astros na esperança de que viessem a entender seus périplos no céu.
DOs antigos valiam-se de um espelho quando pretendam demarcar a posição e os movimentos dos astros.
EEspecular passou a ser um processo que formulara hipóteses e ideias que instiguem a curiosidade humana.
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GabaritoC — Os homens mais curiosos analisavam os astros na esperança de que viessem a entender seus périplos no céu.
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Análise da questão — Correlação de tempos e modos verbais
Gabarito: letra C. A única alternativa com correlação temporal coerente é a C, que emprega "analisavam" (pretérito imperfeito do indicativo) e "viessem a entender" (pretérito imperfeito do subjuntivo composto) para expressar uma expectativa no passado. As demais alternativas apresentam desvios de correlação, como mistura de tempos incompatíveis.
PEGA ESSA DICA!
Ao testar a correlação verbal, identifique o tempo e o modo da oração principal e verifique se a oração subordinada expressa anterioridade, simultaneidade ou posterioridade de forma coerente. Use a lógica temporal: presente combina com presente/subjuntivo presente; passado combina com passado (imperfeito, perfeito, mais-que-perfeito ou subjuntivo imperfeito).
Alternativa
Verbo(s) da oração principal (tempo/modo)
Verbo(s) da oração subordinada (tempo/modo)
Problema de correlação
A
"Estou interessado" (presente do indicativo)
"houvesse" / "ensinasse" (pretérito imperfeito do subjuntivo)
Presente exige presente do subjuntivo ("haja", "ensine"); imperfeito do subjuntivo quebra a correlação
B
"entendi" (pretérito perfeito do indicativo)
"devesse" (pretérito imperfeito do subjuntivo) + "sou" (presente do indicativo)
Mistura passado (perfeito + imperfeito do subjuntivo) com presente ("sou"); "quando" exige coerência temporal
C
"analisavam" (pretérito imperfeito do indicativo)
"viessem a entender" (pretérito imperfeito do subjuntivo composto)
Correlação perfeita: passado habitual + futuro do pretérito expresso por subjuntivo imperfeito composto
D
"valiam-se" (pretérito imperfeito do indicativo)
"pretendam" (presente do subjuntivo)
Passado exige pretérito imperfeito do subjuntivo ("pretendessem") ou futuro do pretérito do indicativo ("pretenderiam")
E
"passou a ser" (pretérito perfeito do indicativo)
"formulara" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) + "instiguem" (presente do subjuntivo)
Mistura passado (perfeito + mais-que-perfeito) com presente do subjuntivo; "instiguem" deveria ser "instigassem" (imperfeito do subjuntivo)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A construção "Estou interessado ... o que houvesse ... ensinasse" mistura presente do indicativo com pretérito imperfeito do subjuntivo. Para expressar incerteza no presente, o esperado seria "haja" e "ensine" (presente do subjuntivo). O uso de "houvesse" remete a um tempo passado hipotético, quebando a correlação.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Eu entendi ... não devesse ser ... quando sou acusado" combina pretérito perfeito (entendi) e imperfeito do subjuntivo (devesse) com presente do indicativo (sou). A conjunção temporal "quando" exige coerência: se o fato ocorria no passado, deveria ser "quando era acusado" (imperfeito) ou "quando fui acusado" (perfeito).
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Os homens mais curiosos analisavam os astros na esperança de que viessem a entender seus périplos no céu." O verbo "analisavam" (imperfeito do indicativo) situa a ação no passado habitual. A locução "na esperança de que" exige subjuntivo, e "viessem a entender" (imperfeito do subjuntivo composto) expressa uma ação futura em relação ao passado, indicando expectativa. A correlação é perfeita: passado + futuro do pretérito expresso por subjuntivo imperfeito composto.
No texto-base, lemos: "os homens muito curiosos, de muito antigamente, olhavam os astros no céu pra ver se entendiam..." — a correlação original usa o imperfeito "olhavam" com o imperfeito "entendiam"; a alternativa C opta por uma construção mais formal com subjuntivo, igualmente correta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Os antigos valiam-se de um espelho quando pretendam demarcar..." O imperfeito "valiam-se" exige um tempo passado na oração subordinada: "quando pretendiam" (imperfeito do indicativo) ou "quando pretendessem" (imperfeito do subjuntivo, para hipótese). "Pretendam" (presente do subjuntivo) é incompatível.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Especular passou a ser um processo que formulara hipóteses e ideias que instiguem a curiosidade humana." "Passou a ser" (pretérito perfeito) indica um marco passado. O verbo "formulara" (mais-que-perfeito do indicativo) expressa ação anterior a outra passada, mas aqui não há essa relação; o correto seria "formula" (presente) ou "formulava" (imperfeito). Além disso, "instiguem" (presente do subjuntivo) fica solto sem coerência com o mais-que-perfeito.