Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2024
Português›Interpretação de Textos
Código
fc071469
Banca
FCC
Órgão
TJ-AL
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário - Área Judiciária
Atenção: Leia o texto abaixo para responder à questão.
A idolatria do PIB. - O PIB é invenção recente. A ideia de medir a variação do valor monetário dos bens e
serviços produzidos a cada ano surgiu no período entreguerras, mas foi só em meados do século passado que
os órgãos oficiais passaram a calcular e publicar dados de PIB para os diferentes países. Nenhum dos grandes
economistas clássicos - Smith, Ricardo, Malthus, Marx ou Mill - jamais foi instado a prever o PIB do ano ou
trimestre seguintes. O culto do PIB como métrica de sucesso das nações tomou-se uma espécie de religião do
nosso tempo. O crescimento é a meta suprema em nome da qual governos são eleitos ou rejeitados nas urnas,
e um antropólogo marciano poderia supor que o acrônimo PIB nomeia a nossa divindade-mor na vida pública
enquanto o afã de consumo preenche o vazio da existência na esfera privada. - Mas o que exatamente está
sendo medido? Imagine uma comunidade na qual a água potável é um bem livre e desfrutado por todos com a
mesma facilidade com que obtemos o ar que respiramos, suponha, no entanto, que as fontes de água foram
poluídas e agora se tornou necessário purificá-la, engarrafá-la e distribuí-la, de modo que todos precisam
trabalhar um pouco mais a fim de comprá-la no mercado - o que acontece com o PIB dessa comunidade? O
erro não é de magnitude, mas de sinal: as pessoas empobreceram, ao passo que o PIB total e o PIB per capita
subiram. Daí que: se eu moro perto do meu local de trabalho e posso caminhar até ele, o PIB nada registra;
mas, se preciso tomar uma condução e pagar o bilhete (sem falar no tempo encalacrado no trânsito), ele sobe.
Se eu gosto do que faço, embora ganhando menos do que poderia, e passo a trabalhar sem a menor alegria
para um mundo caduco, mas recebendo um aumento por isso, o PIB sobe. O PIB, em suma, mede o valor
monetário dos bens e serviços que transitam pelo sistema de preços - e nada mais. E, quando se tomar
inevitável portar garrafinhas de oxigênio na cintura a fim de seguir respirando, o PIB subirá de novo.
(GIANNETTI, Eduardo. Trópicos utópicos: uma perspectiva brasileira da crise civilizatória. São Paulo:
Companhia das Letras, 2016. pp. 51-52)
Na conclusão do texto, a frase: E, quando se tornar inevitável portar garrafinhas de oxigênio na cintura a fim de seguir respirando, o PIB subirá de novo,
Aconfirma uma tendência de expansão dos mercados, indefinidamente.
Batesta a centralidade do discurso econômico em nossos dias.
Cpor meio da ironia, alerta-nos para a saturação de um discurso econômico autorreferente e universalizante.
Destabelece uma conexão direta entre crescimento econômico e preservação ambiental.
Etem um caráter explicativo da transformação de economias de mercado em sociedades de mercado.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — por meio da ironia, alerta-nos para a saturação de um discurso econômico autorreferente e universalizante.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Análise da frase final — ironia e crítica ao PIB como métrica
Gabarito: letra C. A frase final do texto usa ironia para alertar sobre a saturação de um discurso econômico que toma o PIB como medida absoluta de sucesso, ignorando o bem-estar real. O autor cria uma hipérbole (portar garrafinhas de oxigênio) para mostrar que, no raciocínio do PIB, até uma catástrofe ambiental que force a compra de oxigênio aumentaria o indicador — revelando seu caráter autorreferente e universalizante.
“E, quando se tornar inevitável portar garrafinhas de oxigênio na cintura a fim de seguir respirando, o PIB subirá de novo.”
O tom irônico é evidente, pois a situação absurda (precisar comprar oxigênio) é apresentada como mais um motivo para o PIB crescer, exatamente como nos exemplos anteriores (água poluída, trânsito, trabalho infeliz). A crítica é que o PIB mede apenas transações monetárias, não qualidade de vida.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A frase não “confirma uma tendência de expansão dos mercados, indefinidamente”. O texto não discute expansão de mercados em si, mas sim a distorção de um indicador. A alternativa extrapola ao atribuir uma ideia de crescimento contínuo que não está no parágrafo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
“Atesta a centralidade do discurso econômico em nossos dias” é uma afirmação genérica que o texto de fato sugere em outros trechos (“o culto do PIB... religião do nosso tempo”), mas a frase final em si não atesta essa centralidade; ela ironiza as consequências dessa centralidade. A alternativa confunde tema geral com função específica do trecho.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A ironia é o recurso central: a situação hipotética (oxigênio engarrafado) é obviamente indesejável, mas o autor a apresenta como algo que “faria o PIB subir”, ridicularizando a lógica do indicador. O alerta é contra a saturação de um discurso econômico que se torna autorreferente (o PIB mede transações, e só) e universalizante (quer aplicar essa métrica a tudo). Trecho anterior comprova: “O PIB, em suma, mede o valor monetário dos bens e serviços que transitam pelo sistema de preços — e nada mais.” A frase final leva essa lógica ao extremo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A frase não estabelece conexão direta entre crescimento econômico e preservação ambiental; pelo contrário, mostra que a degradação ambiental (poluição que força a compra de oxigênio) pode gerar aumento do PIB. A relação é crítica, não de conexão positiva. Difere do texto, que aponta paradoxo.
Alternativa E — ❌ Incorreta
“Caráter explicativo da transformação de economias de mercado em sociedades de mercado” não encontra respaldo. O texto não aborda transformação de economias em sociedades de mercado; foca na limitação do PIB como medida. A frase final tem função irônica, não explicativa de um processo social.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a tendência de o candidato buscar uma “moral da história” genérica (alternativas B e D) em vez de perceber o mecanismo irônico específico da frase. A ironia é a chave.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar frases finais de textos argumentativos, sempre verifique o tom (irônico, sério, crítico) e relacione com os exemplos anteriores. O autor constrói uma sequência de situações em que o PIB sobe enquanto o bem-estar cai; a última é a mais absurda, intensificando a crítica.