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Questão de Português — Morfologia — FCC 2024

PortuguêsMorfologia
Código
fc071482
Banca
FCC
Órgão
TJ-AL
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Técnico Judiciário - Área Judiciária
Ninguém come dinheiro


    Quando falo de humanidade não estou falando só do Homo sapiens, me refiro a uma imensidão de seres que nós excluímos desde sempre: caçamos balela, tiramos barbatana de tubarão, matamos leão e o penduramos na parede para mostrar que somos mais bravos que ele. Além da matança de todos os outros humanos que a gente achou que não tinham nada, que estavam aí só para nos suprir com roupa, comida, abrigo. Somos a praga do planeta, uma espécie de ameba gigante. Ao longo da história, os humanos, aliás, esse clube exclusivo da humanidade que está na declaração universal dos direitos humanos e nos protocolos das instituições, foram devastando tudo ao seu redor. É como se tivessem elegido uma casta, a humanidade, e todos que estão fora dela são a sub-humanidade. Não são só os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho. E o caminho é o progresso: essa ideia prospectiva de que estamos indo para algum lugar. Há um horizonte, estamos indo para lá, e vamos largando no percurso tudo que não interessa, o que sobra, a sub-humanidade — alguns de nós fazemos parte dela.

   É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca é dizer: “Respirem agora, quero ver”. Isso denuncia o artifício do tipo de vida que nós criamos, porque chega uma hora que você precisa de uma máscara, de um aparelho para respirar, mas, em algum lugar, o aparelho precisa de uma usina hidrelétrica, nuclear ou de um gerador de energia qualquer. E o gerador também pode apagar, independentemente do nosso decreto, da nossa disposição. Estamos sendo lembrados de que somos tão vulneráveis que, se contarem nosso ar por alguns minutos, a gente morre. Não é preciso nenhum sistema bélico complexo para apagar essa tal de humanidade: se extingue com a mesma facilidade que os mosquitos de uma sala depois de aplicado um aerossol. Nós não estamos com nada: essa é a declaração da Terra.

    E, se nós não estamos com nada, deveríamos ter contato com a experiência de estar vivos para além dos aparatos tecnológicos que podemos inventar. A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro. Hoje de manhã eu vi um indígena norte-americano do conselho dos anciões do povo Lakota falar sobre o coronavírus. É um homem de uns setenta e poucos anos, chamado Wakya Un Manee, também conhecido como Vernon Foster. (Vernon, que é um típico nome americano, pois quando os colonos chegaram na América, além de proibirem as línguas nativas, mudavam os nomes das pessoas.) Pois, repetindo as palavras de um ancestral, ele dizia: “Quando o último peixe estiver nas águas e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro”.

     Quem sabe a própria ideia de humanidade, essa totalidade que nós aprendemos a chamar assim, venha a se dissolver com esses eventos que estamos experimentando. Se isso acontecer, como é que Os caras que concentram a grana do mundo - que são poucos — vão ficar? Quem sabe a gente consiga tirar o chão debaixo dos pés deles. Porque eles precisam de uma humanidade, nem que seja ilusória, para aterrorizarem toda manhã com a ameaça de que a bolsa vai cair, de que o mercado está nervoso, de que o dólar vai subir Quando tudo isso não tiver sentido nenhum — o dólar que se exploda, o mercado que se coma! -, aí não vai ter mais lugar para toda essa concentração de poder. Porque a concentração, de qualquer coisa, só pode existir num determinado ambiente. Até a poluição, se ela se espalhar, sem contenção, o que vai acontecer? O ar vai passar por um processo de limpeza. O ar das cidades não ficou mais limpo quando diminuirmos o ritmo? Acredito que essa ilusão de uma casta de humanoides que detém o segredo do santo graal, que se entope de riqueza enquanto aterroriza o resto do mundo, pode acabar implodindo. Talvez a pista mais recente sobre isso seja aquela história dos bilionários que estão construindo uma plataforma fora da Terra para irem viver, sei lá, em Marte. A gente deveria dizer “Vão logo, esqueçam a gente aqui”. Deveríamos dar um passe livre para eles, para os donos da Tesla, da Amazon. Podem deixar o endereço que depois a gente manda suprimentos. [...]


(Fragmento de: KRENAK, Aliton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras, 2020)
No trecho Não são os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho (1º parágrafo), a palavra “só” cumpre a função de:
  1. Aadjetivo.
  2. Bsubstantivo.
  3. Cpronome.
  4. Dpreposição.
  5. Eadvérbio.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — advérbio.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função morfossintática da palavra "só"

Gabarito: letra E (advérbio). A palavra "só" no trecho analisado equivale a "apenas" ou "somente", indicando restrição/exclusão — função típica de advérbio. A banca cobra o reconhecimento da classe gramatical com base no contexto.

Análise do trecho

"Não são os caiçaras, quilombolas e povos indígenas, mas toda vida que deliberadamente largamos à margem do caminho"

A palavra "só" modifica o verbo "são" (subentendido), delimitando o sentido: não se trata de um grupo exclusivo, mas de uma ampliação. Essa ideia de "não apenas" é típica do advérbio de exclusão/restrição.

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Alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta (adjetivo)

Adjetivo caracteriza ou qualifica um substantivo (ex.: "homem só"). No trecho, "só" não se refere a um substantivo; não há flexão de gênero/número ("só" permanece invariável).

Alternativa B — ❌ Incorreta (substantivo)

Substantivo nomeia seres, objetos, sentimentos. "Só" não está sendo usado como nome; não é antecedido por artigo nem exerce função de núcleo nominal.

Alternativa C — ❌ Incorreta (pronome)

Pronome substitui ou acompanha um substantivo. "Só" não retoma nem determina nenhum termo; funciona como modificador do verbo.

Alternativa D — ❌ Incorreta (preposição)

Preposição liga termos, estabelecendo relação de dependência. "Só" não conecta dois elementos; sua função é semântica de exclusão.

Alternativa E — ✅ Correta (advérbio)

"Só" é advérbio de exclusão (equivale a "apenas"). É invariável, modifica o verbo e exprime circunstância de restrição. Confirma-se pela possibilidade de substituição por "somente" sem alteração de sentido: "Não são somente os caiçaras...".

💡 Dica: Para identificar a classe de "só", teste a substituição por "apenas" (advérbio) ou por "sozinho" (adjetivo). No texto, cabe "apenas", logo é advérbio.

Gabarito: letra E

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