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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc076060
Banca
FCC
Órgão
AL-MS
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Técnico Legislativo - Área Administrativa
Atenção: Considere a crônica de Carlos Drummond de Andrade, para responder à questão.


    Quando a senhora foi descer do lotação, o motorista coçou a cabeça: – Mil cruzeiros! Como é que a senhora quer que eu troque mil cruzeiros?

    - Desculpe, me esqueci completamente de trazer trocado.

    - Não posso não, a madame não leu o aviso - olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros?

    - Eu sei, mas que é que hei de fazer agora? O senhor nunca esqueceu nada na vida?

    - Quem sabe se procurando de novo na bolsa...

    Ela vasculhava, remexia, nada. Nenhum cavalheiro (como se dizia no tempo do meu pai) se moveu para salvar a situação, oferecendo troco ou se prontificando a pagar a passagem. Àquela hora não havia cavalheiros, pelo menos na lotação.

    - Então o senhor me dá licença de saltar e ficar devendo.

    - Pera aí. Vou ver se posso trocar.

    Podia. Tirou do bolso de trás um bolo respeitável, foi botando as cédulas sobre o joelho, meticulosamente.

    – Tá aqui o seu troco. De outra vez a madame já sabe, hem? 

    Ela desceu, o carro já havia começado a chispar, como é destino dos lotações, quando de repente o motorista freou e botou as mãos à cabeça: – Os senhores acreditam que em vez de guardar a nota de mil, eu de burro, devolvi com o troco?

    Botou a cabeça fora do carro, à procura da senhora, que atravessava a rua, lá atrás: – Dona! Ó dona! A nota de mil cruzeiros!

    Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.

    – Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?

    Encostou o veículo e, num gesto solene: - Vou buscar meu cabral. A partir deste momento, confio este carro, com todos os seus pertences, à distinção dos senhores passageiros.

    - Deixa que eu vou! - disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.

    Via-se o garoto correndo para alcançar a senhora, tocando-a pelo braço, os dois confabulando. Ela abria de novo a bolsa, tirava objetos, o pequeno ajudava. Os passageiros já se mostravam impacientes com a demora da expedição. O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros? O Serviço de Trânsito? Voltou o garoto, sem a nota. A senhora tinha apenas 987 cruzeiros, ele vira e jurava por ela.

    - Tão vendo? Um prejuízo desses antes do almoço é de tirar a fome e a vontade de comer. - disse em tom frio, sem revolta, como simples remate. E tocou.

    Perto do colégio, o garoto desceu, repetindo, encabulado: - Pode acreditar, ela não tinha mesmo o dinheiro não.

    O motorista respondeu-lhe baixinho: - Eu sei. Já vi que está ali debaixo da caixa de fósforos. Mas se eu disser isso, esse povo me mata.


(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. et al. Para gostar de ler, v.2. São Paulo: Ática, 1966, p. 43-45)
A voz do personagem mescla-se à voz do cronista, configurando o chamado discurso indireto livre, em:
  1. AO guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?
  2. B- Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros?
  3. COs passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora.
  4. D- Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?
  5. E- Deixa que eu vou! - disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista.
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GabaritoA — O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso indireto livre na crônica de Drummond

Gabarito: letra A. A única alternativa em que a voz do personagem se mescla à do narrador sem marcas explícitas (travessão, verbo de dizer) é a A. O trecho "quem é que me paga meus mil cruzeiros?" surge após uma descrição do narrador, sem aspas ou verbo elocutivo, caracterizando o discurso indireto livre.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O guarda veio estranhar o estacionamento e recebeu a explicação de força-maior, quem é que me paga meus mil cruzeiros?

A passagem inicia com o narrador ("O guarda veio... recebeu a explicação") e, em seguida, insere a pergunta do motorista sem qualquer marca gráfica ou verbo de fala. Isso é exatamente o discurso indireto livre: a fala/pensamento do personagem aparece integrada à narração, como se fosse do narrador, mas expressa o ponto de vista da personagem.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"- Não posso não, a madame não leu o aviso – olha ele ali - que o troco máximo é de 200 cruzeiros?"

O travessão no início da frase sinaliza discurso direto. A fala é do motorista e é introduzida pelo próprio travessão, sem mescla com o narrador. Isso é discurso direto, não indireto livre.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Os passageiros não pareciam interessados no prejuízo, como antes não se condoeram do vexame da senhora."

A frase é totalmente do narrador, descrevendo a atitude dos passageiros. Não há inserção da voz ou pensamento de nenhum personagem. É narração pura, sem discurso indireto livre.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"- Como é que eu posso tocar se perdi mil cruzeiros, gente? Quem vai me pagar esses mil cruzeiros?"

Novamente, o travessão marca discurso direto. O motorista fala diretamente aos passageiros. Não há mescla com a voz do narrador.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"- Deixa que eu vou! - disse um deles, garoto. E precipitou-se para fora, antes do motorista."

O travessão e o verbo "disse" indicam discurso direto. A segunda parte ("E precipitou-se...") é narração, mas a fala do garoto está claramente separada. Não há fusão.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o discurso indireto livre, procure passagens onde a fala ou pensamento do personagem aparece sem travessão, aspas ou verbos como "disse", "perguntou". Geralmente vem pontuado por interrogação ou exclamação e está integrado à narração.

NÃO CAIA NESSA!

A banca pode tentar confundir alternativas com travessão (discurso direto) com o indireto livre. Lembre-se: ausência de marcação é a chave.

Gabarito: letra A.

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