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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc076342
Banca
FCC
Órgão
CPU-PE
Ano
2026
Nível
Médio
Cargo
Assistente em Gestão Ambiental - Especialidade: Assistente Administrativo
Atenção: Considere a crônica "O último passo", do escritor Moacyr Scliar, para responder à questão.


    Durante trinta anos, Abílio trabalhou em uma fábrica de móveis. Não gostava do emprego; mas, pelo menos, tinha um salário garantido, com o qual podia sustentar a família - mulher e dois filhos -e economizar alguma coisa para a realização de seu sonho. Sim, Abílio tinha um sonho. Queria abrir sua própria fábrica - de móveis, naturalmente. Mas não móveis como aqueles que eram produzidos na gigantesca indústria, móveis padronizados, sem graça. Não, Abílio queria fazer móveis de vime. Trabalhar com vime era uma habilidade que aprendera com o pai; era uma tradição familiar que vinha de longo tempo. Para Abílio, uma poltrona verdadeira tinha de ser de vime. Um dia ainda terei minha própria empresa, dizia à mulher e aos filhos. 

    Esse dia finalmente chegou. Já adultos, os filhos podiam seguir seu próprio caminho: um era eletricista; o outro, especialista em informática. A casa estava paga, Abílio não tinha dívidas. Podia, pois, pôr em prática seu projeto. Não foi sem certo receio que pediu sua demissão da fábrica; mas, aos 62 anos, não podia esperar mais. Como disse à mulher, naquele dia: é agora ou nunca. Então é agora, foi a resposta dela.

    Aparentemente não seria difícil instalar a pequena indústria. Abílio já tinha o lugar para isso, uma velha casa não distante de onde morava. Não precisaria de muitas ferramentas, nem de empregados: um ou dois ajudantes resolveriam o problema. Mas havia, sim, os aspectos legais, como lhe explicou um vizinho contabilista. Abílio teria de conseguir um alvará. Para isso, seriam necessários 107 passos. Ele não entendeu bem aquela história de passos. São providências que você necessariamente precisa tomar, explicou o vizinho. Isso eu entendo, replicou Abílio, mas 107 passos? Para que tanto passo? Discussão inútil; se era o que a lei exigia, era o que ele tinha de fazer. E assim ele começou a dar os passos necessários. Não foi fácil. Abílio não estava acostumado com a burocracia. Tudo lhe parecia tão complicado que lá pelo quadragésimo passo ele pensou em desistir. Só não o fez porque a esposa estava a seu lado, animando-o, dando-lhe forçа.

    Finalmente, a lista dos 107 passos chegou ao fim. Faltava o último passo que era, justamente, buscar o alvará. Abílio até lembrou a frase do astronauta Neil Armstrong ao pisar na Lua: "Um pequeno passo para a humanidade, um grande passo para um homem." (Era o contrário, mas ele não dava muita importância a esses detalhes.) Dirigiu-se à repartição, como podem imaginar, animadíssimo. Tão animado que não viu o degrau, o pequeno degrau que precisava galgar para entrar no recinto. Tropeçou, caiu e estatelou-se no chão. Com uma fratura de fêmur, foi levado para o hospital. De onde não saiu. Sobreveio uma infecção, e Abílio, que já era diabético e tinha problemas renais, não sobreviveu. Foi enterrado na semana passada. O alvará continua à sua espera. Basta um passo para apanhá-lo.


(Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. Histórias que os jornais não contam. Porto Alegre: L&PM, 2018, p.102-104)
Em sua crônica, Moacyr Scliar dirige-se explicitamente a seus leitores no seguinte trecho:
  1. AComo disse à mulher, naquele dia: é agora ou nunca. (2º parágrafo)
  2. BDirigiu-se à repartição, como podem imaginar, animadíssimo. (4º parágrafo)
  3. CAparentemente não seria difícil instalara pequena indústria. (3º parágrafo)
  4. DFaltava o último passo que era, justamente, buscar o alvará. (4º parágrafo)
  5. EPara Abílio, uma poltrona verdadeira tinha de ser de vime. (1º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Dirigiu-se à repartição, como podem imaginar, animadíssimo. (4º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interlocução direta com o leitor na crônica de Moacyr Scliar

Gabarito: letra B. A única alternativa em que o autor se dirige explicitamente aos leitores é aquela que contém a expressão "como podem imaginar", uma interpelação direta ao público leitor.

A questão pede o trecho em que Moacyr Scliar dirige-se explicitamente a seus leitores — ou seja, rompe a narrativa para falar com quem lê. Isso ocorre apenas na passagem:

"Dirigiu-se à repartição, como podem imaginar, animadíssimo."

A locução "como podem imaginar" é uma marca clara de interlocução: o autor convida o leitor a participar da cena, supondo sua compreensão. É um recurso típico da crônica, que aproxima narrador e leitor.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Como disse à mulher, naquele dia: é agora ou nunca."

Aqui o narrador reproduz uma fala do personagem Abílio à esposa. Não há qualquer interpelação ao leitor; é pura narração.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Dirigiu-se à repartição, como podem imaginar, animadíssimo."

Conforme explicado, "como podem imaginar" é uma interpelação direta. O narrador se volta ao leitor, criando cumplicidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Aparentemente não seria difícil instalar a pequena indústria."

"Aparentemente" expressa uma impressão do narrador sobre os fatos, mas não há dirigir-se ao leitor. É um advérbio modalizador, não uma marca de interlocução.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Faltava o último passo que era, justamente, buscar o alvará."

O advérbio "justamente" reforça a informação, mas não há interpelação explícita. O narrador segue contando a história, sem se dirigir ao leitor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Para Abílio, uma poltrona verdadeira tinha de ser de vime."

É uma afirmação sobre a opinião do personagem, feita em 3ª pessoa. Nenhuma marca de interlocução.

NÃO CAIA NESSA!

O candidato pode confundir marcas de oralidade ou expressões coloquiais (como "justamente" ou "aparentemente") com interpelação direta. A expressão-chave é "como podem imaginar", que só aparece em B.

Conclusão: apenas a alternativa B contém uma interpelação direta ao leitor, materializada pelo segmento "como podem imaginar".

Gabarito: letra B

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