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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc076974
Banca
FCC
Órgão
MPE-SE
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Analista do Ministério Público - Ciências Contábeis

Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto seguinte.


A não-festa dos meus oito anos



    -Quer dizer que não vai ter meu aniversário?

    Não me lembro de ter feito a pergunta. Fiz o que pude para abafar essa lembrança -e quando muitos anos mais tarde me contaram o caso, como quem conta um episódio inocente, quis nada menos que morrer também. Eu já era um adolescente quando essa história me foi lembrada - a mim, que a havia sepultado no fundo do meu inconsciente.

    Eu já ia fazer oito anos, mas minha mãe, recostada na cabeceira da cama, estava cercada de tias, primas, sobrinhas, amigas, e mamãe repetindo que Papai do Céu tinha levado nossa irmă. Foi então que perguntei se não ia ter meu aniversário. Ouvindo essa história, adolescente, me senti um monstro. Vergado sob a culpa tardia e envergonhado do papelão de ter pensado em bolo, salgadinhos e presentes numa hora daquelas, nossa mãe sofrendo, papelão ainda mais horrendo quando comparado ao papel bonito dos meus irmãos. O mais velho, olhos cheios de lagrimas, correu ao quarto da irmă, abriu o armário e acariciou os vestidinhos pendurados. O outro irmão compôs uma pulseirinha delicada com pequenos grampos de cabelo. Eu não pensei em nada, pois aquela morte havia destroçado o meu aniversário.

    Diante da minha frustração, devem ter dito: vamos dar alguma coisa pra esse menino, coitado -e então fomos para o centro da cidade, tia Nathalia e eu, comprar na loja alguma coisa para mim, qual coisa? -e a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante na minha casa de homem velho, capaz ainda de produzir música, intocada, mas tocável.

    Só não garanto que o dono dê conta de extrair dali o "Parabéns pra vocé", o parabéns-para-mim que o menino de oito anos tirou sozinho, sentado na escada de uma casa onde os pais chorosos cuidavam do granito preto para o túmulo da menina que partira. A cada vez que me entrego a tais rememorações, é dificil para mim metabolizar a verdade rude dos sentimentos daquele menino que não se conformou ao ver sabotada a festa de seus oito anos. 



(Adaptado de: WERNECK, Humberto. Esse inferno vai acabar. Porto Alegre, Arquipélago, 2011, p. 65-66) 

Na frase a coisa resultou ser uma sanfoninha que quase seis décadas depois ainda está aqui, ali no alto dessa estante, os dois segmentos sublinhados 
  1. Atraduzem a instabilidade de uma dupla emoção que se impunha ao menino.
  2. Bconvergem na prova melancólica de um apagamento da memória.
  3. Cconstituem um paradoxo, numa relação contraditória.
  4. Dindicam, respectivamente, permanência temporal e proximidade física.
  5. Eexpressam, na ordem dada, uma proximidade física e uma distância temporal.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — indicam, respectivamente, permanência temporal e proximidade física.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Significado dos advérbios 'aqui' e 'ali' no texto

Gabarito: letra D. Os segmentos sublinhados indicam, respectivamente, permanência temporal ('aqui') e proximidade física ('ali no alto dessa estante'). A prova está na própria frase: "a coisa resultou ser uma sanfoninha que ainda está aqui" – a palavra 'ainda' reforça a duração, a permanência no tempo. Já 'ali no alto dessa estante' localiza o objeto no espaço físico, no cômodo do narrador.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Os segmentos não expressam instabilidade emocional. 'Aqui' e 'ali' são déiticos de lugar/tempo, não carregam emoção; o narrador fala de um objeto que permanece, não de emoções duplas.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Não há prova de apagamento da memória. Pelo contrário, a sanfoninha 'ainda está aqui', mostrando que a lembrança persiste materialmente. A alternativa extrapola um sentido melancólico que não está embutido nos termos sublinhados.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Não há paradoxo: 'aqui' e 'ali' não se contradizem; um indica continuidade temporal, o outro, posição física. São complementares, não contraditórios.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Conforme o texto: "ainda está aqui" → permanência temporal (seis décadas depois). "ali no alto dessa estante" → localização física (proximidade no espaço da casa). Respectivamente, a ordem é tempo e espaço.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Inverte a ordem: primeiro 'aqui' (temporal) e depois 'ali' (espacial). A alternativa diz 'proximidade física' primeiro e 'distância temporal' depois, trocando os referentes.

Gabarito: letra D.

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